poeta vivo

Pedro Franco

Pedro Franco é cardiologsta em atividade. 27 livros literários publicados. 604 prêmios literários, sendo 25 fora do Brasil. Em 212 coletâneas. Professor de Medicina aposentado, tendo ministrado aulas para centenas de estudantes, inclusive filho e neta. 105 trabalhos médicos publicados.

Poesia

Em vez

De contar avaramente notas de dólares,
Conte estrelas;
De sonhar com carrões e negociatas,
Sonhe com sua amada;
De agradar o chefe,
Lembre-se do amigo necessitado;
De comprar o bilhete lotérico,
Compre comida para carentes;
De procurar a paixão,
Garimpe o amor;
De votar voto interesseiro,
procure o candidato ficha-limpa;
De querer sempre receber,
Pense em dar,
Doar-se a causas justas;
De dar o soco, ainda que merecido,
Sem dar a outra face,
Procure passar ao largo;
De assistir ao último filme de defeitos especiais,
Reveja “Amacord”;
De julgar-me utópico, tolo, ou quimérico,
Que tal me aceitar diferente de você,
Conceber que alguns se alimentam
Também de poesia
E buscam um mundo muito diferente.

Rafael Erasto

Rafael Hera nasceu na Baixada Fluminense, em 1998. É escritor e ativista. Publicou seu primeiro livro “”A Lingua do P””,em formato digital em 2020, durante a crise pandêmica.

Poesia

P

toda vida aparece uma enxurrada
a aquisição mais recente?
língua de Caetano
óbvio
junto com línguacorpo de Bethânia
línguacigarro de Abreu
línguacabeça de Ana C
línguagrito de Marcelino
só me falta entender o funcionamento
ler o manual de instrução do teu peito
me desculpa, eu queria de verdade
saber te pegar no colo e te levar pra casa
te deitar nu como a línguacristo de Pessoa
e garantir felicidade calmaria
eu não sei se você entende
e você sabe que receio dizer
que da ausência se faça beijo
e do buraco um braço entrelace
tu sabe que eu pedi pra mãe
tirar de perto se não presta
ajudar se não for longe
hoje é 27 de abril e
eu tenho covardia da tentação
de conhecer o gosto
da língua do P

Paula Latgé

Paula Latgé é poeta, psicóloga, com formação em bioética e saúde coletiva, coordenadora da Associação Experimental de Mídia Comunitária – BEMTV, tem na poesia o seu impulso, escrever não é opção, é sentido de vida, palavras que preenchem o seu ser insistem em nascer, e quando não nascem, abortam o ser que deveria ter sido e não foi.

Poesia

PRECE

Escreve poesia quem não sabe prosar
Poeticamente prosando o poeta nunca está
A poesia não tem linha
Não tem tempo
Nem história
Ela caminha fantasticamente
Quase simplória
Onde começa?
Quando termina?
Quem faz o verso?
Será com rima?
A poesia não se pergunta
Se acontece!
Inesperada nasce da alma
Como uma prece.

Nina Carneiro

Nina Carneiro é poeta, compositora e artista autista. É autora dos livros “Devaneio Coerente” (Filos, 2021) e “No limiar do espectro” (Filos, 2024), e também conduz um projeto musical chamado Nina and The Infinite Universe.

Poesia

Princípio hermético

– Estamos aqui –
Disseram as formigas
tão pequenininhas
sobre a mesma terra
na qual caminhamos

– Estamos aqui –
Disseram as estrelas
sem-nome e distantes
no mesmo infinito
no qual existimos

Formigas e estrelas
fazendo poesia
Aqui e acolá:
o mesmo lugar
que é este universo

Nanci Otoni O. de Faria nasceu em Nova Lima, MG, Brasil. É casada, mãe de três filhos, professora e orientadora aposentada. Graduada em Letras, Pedagogia e certificada em Hipnoterapia. Apaixonada por poesias e histórias de ficção, possui quatro obras publicadas e outras em andamento. Faz parte da Academia Nova-limense de Letras.

Poesia

MEU RETRATO

Não sei se é bom ou se é certo
Só sei que o que penso que o que o sinto
Fazem ainda diferença na hora de existir
De me expressar de me redimir

Sentimento de inutilidade me invade a mente
E uma tempestade de ideias loucas toma conta de mim
Não sei se protesto e aceito se durmo e se esqueço
Apenas sei que esses pensamentos ruins
Precisam ter fim

Viajo busco outros ares mas sempre me deparo
Com a sensação de insignificância que à noite me espera
Me sinto fraca um caco um trapo
Já fui um dia importante na história

Ainda bem que as lembranças já estão indo embora
Pessoas importantes que me vêm à memória
Escapam dela da mesma forma
E tampouco estou me lembrando dos tempos de outrora

Estou virando uma página em branco
Um ser sem mente e exigente e implicante
Que não sabe mais o que me espera
Apenas pressinto que estou indo embora
Que preciso pôr um fim na minha própria história

SABINO MENINO

Em 1923, nasceu, em BH, um menino
Filho de Odete e de Domingo Sabino
Que possuía talentos encobertos
Mas o dom de escrever era certo.

No dia das crianças, nasceu o mineirinho
Que gostava de ler pelo caminho
E nem percebia que havia perigo
De andar distraído lendo um bom livro.

Com doze anos, para o escotismo entrou
Em uma de suas crônicas, o garoto declarou
“Uma vez escoteiro, sempre escoteiro”
E seguirei livre para onde for.

Com doze anos incompletos
Aquele rapazinho foi o locutor
Do programa infantil “Gurilândia”
Que a rádio Guarani de BH criou.

Aos quinze anos, o Sabino se superou
E na criação de um jornalzinho ajudou
Ele foi cognominado “Inúbia”
E no Ginásio Mineiro se instalou.

Aos dezessete anos, aprendeu taquigrafia
Ser gramático o Sabino pretendia
E escrever mais rápido
Era tudo o que ele queria
Escritor, então, virou o menino.

Milca Batista

Milca Batista é professora de artes, escritora e ilustradora. Escreveu e ilustrou o seu primeiro livro “Eu Sabia que a Mudança Viria”.
Está no Instagram como @ilustre.miuca 😊

Poesia

Do meu pai para mim

Do meu pai
Eu herdei a alergia.
Os espirros incessantes,
Os olhos inchados
E os remédios em cima da penteadeira.

Do meu pai,
Não recebi a herança.
Não herdei o mal gosto,
E não mantive sua prepotência.

Do meu pai
Eu ganhei a raiva do mundo
A lembrança da ausência,
A tristeza nos olhos.

Do meu pai
Eu ganhei de presente
O que eu não queria ganhar.

Agora,
Dentro do meu peito
Mora um grande cavalo de troia.

Michele Magalhães

Escritora, Poetisa, Colagista Manual, Mãe atípica, Autista, Servidora Pública do Estado de Rondônia, Formada em Matemática e Letras Inglês e suas respectivas Literaturas, Mediadora de Biblioterapia, Mestra em Engenharia de Energia, Criadora da página @partilharpoesia, Michele Magalhães é uma mulher múltipla.

Poesia

rio em mim

entro na água
o rio mergulha
em mim
unidos
somos
um

sigo sem rumo
pelas linhas
paralelas
destes caminhos
tortuosos,
onde me
reencontro
com quem
sempre fui

corpo repleto de
alma-coragem
em busca da cura
eu-me encontrei

me deixo levar pela correnteza
meu corpo ser levado pelas águas
minha alma ser lavada pelas águas
me sinto mais leve

Maurício Simionato

Nascido em Assis (SP), Maurício Simionato é poeta e jornalista. Como poeta, lançou os livros Impermanência (2012) — premiado pela Secretaria de Cultura de Campinas —, Sobre Auroras e Crepúsculos (Multifoco, 2017) — lançado na Bienal do Livro do Rio/2017 —, e O AradO de OdarA (Uma distopia tropical) (Patuá, 2021).

Poesia

Angelus Novus

Ruínas,
Solenes ruínas
Cabeça de prego áureo
Progresso que se dará
o resto voltado para
o que não passará
Tempestade nos olhos
Ventos regressos de afrescos
O anjo da história
Relegados fragmentos em reverso
As asas fechadas
No telhado, as vistas têm fome:
à caça, a boca à toa
saliva e faz o sinal da cruz.
O anjo da história
Reluz catástrofes com amor,
dá as costas
ao que virá.
Aproxima-se das saídas
Possíveis, que nada mais
são que o caminho a derivar.

Marta Cortezão

Marta Cortezão natural de Tefé/AM. Reside em Segóvia/ES desde 2012. Poeta, feminista, antirracista, antifascista. Livros de poesia publicados: Banzeiro Manso (Porto de Lenha Editora, 2017), Meu silêncio lambe tua orelha, Aljavas para Cupido (e-book) ambos pela TAUP, 2023, Amazonidades: gesta das águas (TAUP, 2ª ed. 2024). Organizadora das coletâneas Enluaradas.
Instagram @martacortezaopoeta

Poesia

as hortênsias

o que sabem de mim estas hortênsias?
o que guardam elas de meus segredos
em seus pés robustos e lenhosos?
espreitam-me com seu centenar de olhos neon-violáceos
invadem-me as memórias com garras de harpias
aprisionam-me em sua forma ovoide e periférica
piso a terra úmida e meus dedos largos
se espalham como raízes no seio de Gaia e energizam meu útero lunático
sinto-me diminuta e transparente como um micróbio
vejo uma envelhecida e venosa mão
a profanar o sagrado templo das hortênsias
meu corpo rememora a dor da defloração sofrida…
uma ventania sopra ferozmente movimentando a vegetação ao redor
e uma chuva pedregosa cai em nosso socorro!
bebo também da sabedoria pluviosa das nuvens
abro os olhos refrescada pelo alívio de estar viva
as hortênsias ainda estão aqui e sabem de tudo
: não sou nada, absolutamente nada
sequer o pó que o vento sopra sem destino
mas quando unidas invocamos tempestades

Márlon Manossi

Márlon Manossi nasceu em Ituaçu-Ba. É graduando de Medicina pela UESB, contista, ilustrador e poeta. No meio literário, lançou seu primeiro livro, “Ovos de Jabuti em Latas de Ferro”, de caráter inventivo e multigênero, e também é fundador do Concurso Literário Baianidades Interioranas.

Poesia

As Lágrimas das Pétalas Purpúreas

E junto a ti, o encanto Alvorecia.
E o mundo Alagava com sua melodia…
Acordes em oitava com Cores e cortesia:
Pequenos frutos de uma pura Magia…
Seus olhos Argutos, de um mar em Euforia,
Molhavam o alento e o peito em Eufonia…
O corpo Turbulento encontrava Harmonia
— As vagas Ternuras de uma Sintonia…
Nas Águas? Bravuras. Na Vida? Polifonia.
E junto a ti, o encanto Alvorecia…

E longe de ti, o encanto Perecia.
O mundo se Arruinava sem sua companhia…
Minh’alma Afogava e me Sucumbia:
Males Astutos, Óxida Melancolia…
Os corações Abruptos, em uma sinfonia,
Mostravam o Avarento corpo em Agonia!
E no Sofrimento, Numa mente Vazia,
Nefastas amarguras em Desarmonia…
Nas águas? Loucuras. Na Morte? Afonia.
E longe de ti, o encanto Perecia…