Pessoa de Origem Latino-Americana

De voz visceral e instintiva, sua escrita pulsa entre silêncio e desbordamento. Corpo, terra, desejo e formas indomáveis de existir ressoam entre o selvagem e o contido, em miragens que rasgam e acolhem. É também artista visual e criadora da Norteia — teia de livre experimentação com palavras.

Poesia

Alambrado

farejei a seiva,
rastejei o chão,
senti o pulso da terra onde jaz meu bicho solto.

nem cabe
(e eu não cabia),
não cabia — e me apequenei.

desfiz-me nas margens,
onde o solo se estende como promessa
e a carne se dissolve no infinito
da mudez de um corpo que nunca antes.

o vento
me sussurra antigos mistérios
de minha dança selvagem em desatino voraz.

nem cabe, pensei,
(e eu não caberia)
nos limites de um corpo que já não é meu.

fui minha própria cerca, fui o arame,
fui o vazio que me preenche.

sou o pulso. sou a seiva.
sou o sussurro do vento.

permaneço com olhos de fúria
e a terra que me abraça em silêncio.

Nasceu em Olinda, Pernambuco. Bacharel em Direito e em Economia e com especialização em Planejamento e Gestão Pública. Atualmente trabalha como servidor público federal. Teve poemas e contos selecionados em diversas antologias. É autor da ficção científica “A Dinâmica Orgânica”, Ed. Ibis Libris, 2024.

Poesia

MÉRITO E MENDICÂNCIA

Havia sido um pobre e simples cristão
Mas você exige grandeza dos homens
Nada poderia querer de um simplório
Embora do seu amor em vão imploro
Porém, da paixão que recebo as ordens
Sim, tolo que sou, mas que coração!

Corri em busca de glória e de riqueza
Com desejo ardente e vontade forte
Cobri-me de título e de medalha
Empreendi, menti, lucrei às custas da alma
Levei a inimigos perigo de morte
Implacável, por cima, virei a mesa

Ouça então esta súplica, por favor
Eu assim mereço que me corresponda
Pois tudo que tinha ao meu alcance fiz
Consegui obstinado o que sempre quis
Rogo para que logo me responda
Tornei-me agora digno do seu amor?

Natural de Americana, SP. Lançou em 2024 o infantojuvenil “A fantástica aventura de Ferdinando e quem eu lá conheci” — vencedor do Prêmio Book Brasil nas categorias Melhor Infantojuvenil e Aclamado pelo Público. Participou de antologias de ficção e nesse ano lança a obra de realismo fantástico “Na estranha imagem entre nós”.

Poesia

Restauração

Subindo a escada da virtude
Afogo-me nos desejos dos outros
Cedo à tentação de ignorar as faces já esquecidas
Suplico a Deus para que não me perca de mim mesmo
Dos elementos que hoje me parecem estranhos
Mas que foram talhados no gabinete da minha história
Escondo a desordem por trás dos sorrisos contidos
Mas sempre me escapam as palavras


Nos meus cabelos ao vento
Deixo que me suma a estrada
Ignorando a fotografia da violência
Toca a melodia da alegria nos campos da tristeza esquecida
E continuam a me espetar
Mas estou detrás das camadas que não podem nem ver nem sentir
Nesse mundo tão meu
Só são convidados os que olham para dentro de mim

Alice Puterman

Nascida em 2002, no Rio de Janeiro. Algumas coisas me definem: uma longa batalha contra a doença mental, a sobrevivência às violências sexuais, e a deficiência. Não mais do que tudo e todos que amo. Sinto saudade. Ponto. Saudade de tudo. Aquele misto de afeto com dor, sabe? Acho que se eu fosse um sentimento, é este que eu seria. Talvez, eu já seja. Candura — uma história de sobrevivência feminina, é seu livro de estreia (TAUP, 2025).

Poesia

só vou morrer
depois que
uma voz gasta
rouca
e sem dono
escorrer boca afora

a mesma boca
que quando esperava um primeiro beijo
foi usada de tantas outras maneiras
e ficou com um não regurgitado na garganta
sem cuspe

que esta boca
espante toda
palavra morta
e parte imunda
que entala como grão de areia após a praia
em quinas sombrias da sala de estar

vou urrar até a dor se render
até minha voz virar eco
e eu rasgar
cada caco de mim
que se culpa
por homens que tomam corpos
e brotam dores

só saio dessa vida
com a garganta em carne viva

Natural de São Paulo; autor de 04 livros; Título Comenda Literária “Pablo Neruda”; reconhecido por diversas Premiações em meios Literários, Profissionais e Culturais; Participações em vários Concursos Nacionais e em 30 Coletâneas Antológicas e Projetos Literários no Brasil e no exterior. Instagram @acarlosmisawa

Poesia

A Canção do Pôr do Sol

O sol se deitava sobre os ipês floridos,
e o vento dançava entre notas perdidas.
Ele dedilhava canções ao entardecer,
ela, encantada, só queria pertencer.
O amor nascia no som e no olhar,
como quem encontra no outro seu lar.

Os dias eram música, brisa e chama,
abraços que o tempo jamais desama.
No brilho dos olhos, segredos guardados,
no toque das mãos, desejos calados.
Cada acorde era um verso a pulsar,
um poema que a vida insistia em cantar.

Vieram promessas, vieram partidas,
o tempo impiedoso cruzando suas vidas.
Cartas dobradas, perfumes guardados,
fotografias de risos apaixonados.
Mas o sol sempre voltava ao poente,
e a música os trazia de volta à mente.

Um dia, perdida entre velhas memórias,
ela encontrou vestígios da sua história.
Os dedos tremiam, o coração disparava,
seria um acaso ou o destino chamava?
Na linha distante, um simples “alô”,
e o mundo parou, sem dizer se acabou.

A vida seguiu como quem nunca esquece,
como quem ama e o tempo obedece.
O amor não pede, não se desfaz,
permanece no eco de um pôr do sol fugaz.
No acorde de um violão que toca sozinho,
ou no silêncio, onde o amor faz seu ninho.

Rodrigo B. Moraes nasceu em Belém, Pará, em 1982. Ele já morou na Suécia, Áustria e atualmente mora na Bélgica. Rodrigo possui doutorado em Matemática Aplicada pela Universidade de Leuven, Bélgica. Em seu tempo livre, Rodrigo faz escalada esportiva, cozinha, escreve poesia, toca bateria e cuida de seus dois filhos.

Poesia

Dourada

Ela dança
sob a luz das luzinhas de Natal.
Douradas,
pequenas estrelas que cintilam
na parede que a emoldura.

O ar que a envolve faz-se palco. A madeira
aos seus pés range ao ritmo. Os móveis
da sala cedem lugar. A noite
fora da janela quer entrar –
Pois a Lua se esforçou, tentou de tudo…
A dançarina é mais bela,
Brilhante.
A Lua é de prata,
Ela é dourada.
A noite quer vê-la dançar.

A garota dourada de Klimt
veio à vida. Fez-se bailarina,
fez-se encanto.
Me olha nos olhos
e dança.

Só pra mim.

Natural de Ituaçu-Ba, graduando de Medicina pela UESB, contista, cordelista e poeta. No meio literário, lançou seu primeiro livro, “Ovos de Jabuti em Latas de Ferro”, de caráter incentivo e multigênero, e também é fundador do Concurso Literário Baianidades Interioranas.

Poesia

CORDEL: JUÁ & CIRIGUELA

Terezinha foi pro pasto Plantar juá e ciriguela.
Escavou a terra argilosa. Molhou com sua remela.
Semeou com pirilampos. Adubou com mel, canela.

Sua filha foi pro pasto Colher juá e ciriguela.
Catou frutinhas da grama Pra galinha magricela,
Que todinha fiapuda Devorou uma bagatela.

Sua neta foi pro pasto Comer juá e ciriguela
Correu a moleca risonha Com uma grande tigela.
Devorou caroço e talo Com o dulçor aquarela.

Mas a água fugiu do pasto. O sol escalda as costelas.
Fugiram mãe, filha, neta À grotesca cidadela.
Deixaram o juá triste, Secaram a ciriguela.

O sol alimentou a fome. A morte comeu moela.
Abandonaram folclores. A secura rachou a goela.
Ninguém mais foi pro pasto Catar juá e ciriguela.

A mãe virou faxineira. A filha ficou banguela.
A neta pegou cobreiro. Era uma vida balela.
Tinham saudades do pasto, Do juá e da ciriguela.

Nasceu da invencionática. Estudou a informática. Aprendeu a ter preguiça do corpo, da vida comunitária e mergulhou na tecnologia. Adoeceu, virou do avesso, reencontrou o corpo, as pessoas e a escrita. Esse é o primeiro poema que publica, fruto de muita ação poética na vida. Instagram: @maricomdoisn

Poesia

Ser-desejo

Eu desejo que quando eu estiver aqui,
eu esteja de todo coração
E quando eu estiver lá,
eu esteja de todo coração

Desejo que nada que me
atravesse me faça falta a ponto
de eu não conseguir
verdadeiramente me sentir
presente

Atravessamento é semente
Que a abundância seja evidente

Que consciente esteja eu
Que o necessário seja Deus
Este que é cada gota e que é
também o oceano

Educador, atuante em movimentos sociais e culturais buscando as vozes das periferias e minorias. Expressivo através das artes promovendo a essência das humanidades e sociedades. Submergido em versos e rimas… a; in; en-cultural? Multicultural!!

Instagram @leo.agomez

Poesia

Mundos

Uma História
são histórias
e estórias
verdades
visões
versões
interpretações
intenções
impressões
e expressões
De tudo
de todos
de si
do outro
da forma
deforma
desforma
reforma
conforma
com forma
informa
pra alguém
pra si
pro outro
pra quem?
Uma História…

Nascido em 78, criado na Polis-Colérica (leia-se, SP), escreve a cacofonia contemporânea em poesia e prosa. Autor de “Quem ainda escreve poesia?”, “Prefiro Vacas a Humanos” e um terceiro livro no forno.

Poesia

Admirável mundo-zoo

Rompi o cadeado de minha jaula 
Sairam leões,
paquidermes
Saiu aquele cavalo raro
em listras preto-e-branco
Libertei meu ancestral primata
Entre uma árvore e outra,
há tantos postes e fios
e volts e antenas e megaherz
Soltei o crocodilo
– aspirante à bolsa –
no Tamanduatei
Voa ave de rapina
Voa
A dúvida é mais
do que esta ração porcionada
 
Enfim livre
Livre?
                        Algemas abraçam o coração
                        de titânio
                        Um anzol rasga meu beiço
                        Tirem-me desta rede
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