São Paulo

Paulistano nascido em 1998, o autor, que segmenta sua literatura em três pseudônimos, é bacharelando em Letras e escreve prosa e poesia, abordando questões sociais, sexualidade e saúde mental. Lançou seu primeiro livro em 2019, já participou de várias antologias e recebeu destaques literários. Sua poesia agora é publicada pelo pseudônimo Jon Everson.

Poesia

Natureza-morta

Os dias escorrem até o extermínio.
Estou aprisionado em seus domínios,
Envolvido em seu abraço cortante.
Eram três meses; são só treze dias.
Preouço o som da trombeta, a agonia
De saber que sou desimportante.

Meu castelo se desfaz em meus dedos.
Olho para um céu tingido de medo,
E me queimo ao ferver a minha ira.
Sem tempo para o choro, fito o espelho.
Meu punho branco fi(n)ca vermelho
Quando o aço gasto golpeia a mira.

O amanhã é um dia para o que será.
Quando eu me for, eu irei, e você irá
Ter de botar menos um prato na mesa.
O quarto será a memória da sepultura.
Eu estarei posando para a sua pintura,
Inanimado como a própria natureza.

Gestora Cultural e graduada em Rádio e TV. Atuou como Facilitadora de Histórias na Bienal do Livro de SP e foi indicada ao prêmio Expocom 2012. Colaborou com coletivos poéticos, teatro e produções audiovisuais. Estreou na literatura impressa em 2013 e foi finalista do Festival de Poesia de SP em 2015.

Poesia

Torta

Dobrei sem simetria outro papel
Mesmo seguindo a linha pautada
cortei mais acima da linha pontilhada
Outra vez

Acontece o mesmo com cobertores
Junto as pontas
me concentro e rezo
mas sempre pende uma ponta
Sempre não tão bom assim

Lençóis de elástico então!
simbolizam toda minha trajetória errante
Da batata muita casca
e outros crimes com tesouras sem ponta

Talvez eu continue escrevendo inclinado
em linhas desbotadas

A curva do rio nunca quis ser reta
Transborda o cinza que
teima em emergir retilíneo
onde a nossa natureza
só quer existir

torta

Nascido em 78, criado na Polis-Colérica (leia-se, SP), escreve a cacofonia contemporânea em poesia e prosa. Autor de “Quem ainda escreve poesia?”, “Prefiro Vacas a Humanos” e um terceiro livro no forno.

Poesia

Admirável mundo-zoo

Rompi o cadeado de minha jaula 
Sairam leões,
paquidermes
Saiu aquele cavalo raro
em listras preto-e-branco
Libertei meu ancestral primata
Entre uma árvore e outra,
há tantos postes e fios
e volts e antenas e megaherz
Soltei o crocodilo
– aspirante à bolsa –
no Tamanduatei
Voa ave de rapina
Voa
A dúvida é mais
do que esta ração porcionada
 
Enfim livre
Livre?
                        Algemas abraçam o coração
                        de titânio
                        Um anzol rasga meu beiço
                        Tirem-me desta rede
..

Poeta e professora da rede pública municipal de São Paulo, trabalha na biblioteca como contadora de histórias e disseminadora da poesia.

Poesia

A grande ilusão

Aprendizados da maturidade:
conhecer os monstros pelos nomes
aguar as plantas na medida certa
recordar que os mesmos caminhos
já foram mais velozes

Escolher o melhor ângulo para posar
descascar com agilidade
livrar-me do medo do escuro
menos me acostumar a perder um grande amor:
é sempre como a primeira vez

Sua escrita é uma constante busca por pertencimento, expressando incômodos e reflexões. Inspirada em questões filosóficas, espirituais, ancestrais e LGBTQIA+, ela mergulha em temas como vida, morte, amor e desejo. Com formação em comunicação e especialização em escrita criativa, sua voz singular ecoa através das palavras. @carolina.ana.oz

Poesia

Plutão chegou a Áquario

no dia 20 de janeiro
plutão chegou a áquario
caindo como um explosivo
sobre nosso relacionamento

pedindo renovação
arcano XVI
a queda inevitável:
é das cinzas do ego
que nasce a consciência!

a solução vem do treze
passar por qualquer coisa
e se tornar mais forte

o segredo é o ritmo
embalar o outro
escolha complementar
encontrar o meio termo
sem anular o próprio ritmo

como num barco
o remo segue a corrente
do braço

como uma dança
pés sincronizados
o gozo ainda é
a única coisa
que o capital
não conseguiu

e a solução vem da morte.

Formada em direito em São Paulo e linguística em Berlim. Escreve prosa e poesia. Possui textos em antologias e revistas literárias. Publicou dois livros de poesia: Jipe Amarelo, Folheando, 2023 e Um milímetro e meio, TAUP, 2023 e um de contos: Pard’olhos, Folheando, 2024.

Poesia

Samstag

a mulher sentada no banco do parque esperando que sua espera acabasse
ouvia liszt saindo das mãos do jovem ao piano enquanto o sorvete com chocolate e pistache quase esquecido pelos ouvidos pingava na barra da sua saia.
ela não veria a mancha e a espera acabar

a chuva batia forte no vidro do carro. para-brisas
corriam sem completar o parar

debussy repetia a palavra como se fosse íntima
tal não soubesse diferenciar um ré de um fá
tinha importância? restava o sol
chave de claude

na estrada perde-se a faixa

o pensamento foge do foco
vapor de água
embaça o vidro
sem mãos para
esfregar

meu sorvete era baunilha

Marcelo Ariel

Marcelo Ariel é poeta, ensaísta e teatrólogo. Nascido em Santos-SP, Brasil em 1968. Autor de Tratado dos Anjos Afogados (Letra Selvagem), Ou o Silêncio Contínuo poesia reunida 2007-2019 (Kotter Editorial-Prêmio Biblioteca Nacional 2020), Nascer é um incêndio ao contrário (Kotter, 2020) e Subir pelo Inferno, descer pelo céu (Kotter Editorial, 2021), As três Marias no quadro de Jan Van Eick (Fósforo/Luna Parque/Círculo de Poemas-2022, Arcano 13 (Com Guilherme Gontijo Flores – Editora Quelônio-2022), Escudos- Cinco R.A, Ps e um samba escritos com Cruz e Sousa seguido de A vida de Clarice Lispector (Arte & Letra,2023), entre outros. É colaborador das revistas Quatro Cinco Um, EGaláxia e Cult e como autor convidado do Laboratórios de Criação — Escrita de Literatura e Teoria dentro do Programa de Estudos Comparados de Literatura Portuguesa  (Pós-Graduação da Universidade de São Paulo, Letras/FFLCH) em 2022 compôs o júri do Prêmio Jabuti. No teatro seus trabalhos mais recentes foram: VILA PARISI, dramaturgismo para o Coletivo 302 de Cubatão, peça/ grupo vencedores do Prêmio Shell, 2023. TRANS- MITO MAKUNAIMÃ Direção, Dramaturgismo e Concepção. Baseada na peça teatral coletiva escrita por ele, Jaider Esbell, Deborah Goldemberg, Cristino Wapichana e outros com Filipe Roseno, Deborah Goldemberg, Amaury Oliveira e outros Sesc Interlagos, 2021. RELÂMPAGOS NUM DIA CLARO Contra história descolonial do Brasil, Texto e direção com Pascoal da Conceição, Martha Nowill,Maria Manoela, Fabia Mirassos, Aury Porto e outros. Museu do Ipiranga/ Sesc Ipiranga, Evento especial de reabertura do Museu, 2022. Coordena desde 2016 cursos livres de escrita, poética e filosofia em São Paulo.

Poesia

Re Iluminações III

No bosque, tem um pássaro, seu canto faz vocês pararem e enrubescer.
Tem um relógio, que não soa.
Tem um brejo, com um ninho de bestas brancas.
Tem uma catedral que desce e um lago que sobe.
Tem um carro abandonado entre arbustos, ou que desce o canteiro correndo, embrulhado.
Tem uma trupe de pequenos atores vestidos para o espetáculo, foram avistados na estrada através dos limites do bosque.
Tem enfim, quando temos fome e sede, alguém que nos caça.

No Bosque interior ? Trata-se obviamente da imanência…
Nada de fugas provisórias, o canto dos pássaros está no lugar do relógio.
O haver do brejo oceânico e a sobrenatureza dos ninhos com ‘ as bestas brancas’, é logo ali…
O que buscar em uma Catedral que afunda justamente porque o céu começou cair, não como um Reino, como uma pedra de ausência, enquanto o lago sobe ‘ como nuvem socrática’ na Palestina, é o destino da água como proposição, principalmente da água em nós.
Em guarany para pronuciar ‘ água’ diz-se Y’y’ ela é o som da reentrância, a água é um orgão interno-externo, contra a teologia, cronologia e o capital : a água !
Os carros terão o mesmo destino das esquifes russo-americanas e relógios de ouro, soterrados dentro de selvas desconhecidas.
A trupe de atores, como em ‘ O sétimo selo’ de Bergman ou como um devir possível dos moradores de calçada, ciganos absolutos do quilombo imanente móvel !
Ah, as guerras da fome e as guerras da sede !
Fusão de levantes convertendo a água em guerra.

 

Rimbaud/Marcelo Ariel/ Larissa Drigo Agostinho

Rozana Gastaldi Cominal

Rozana Gastaldi Cominal é mulher feita d-eus múltiplos que sustentam o corpo amoroso, político e periférico. Acredita na força dos coletivos e com eles faz voz, incluindo a TAUP nesse refrão. Autora de “Mulheres que voam”(Scenarium, 2022) e “Doses de poesia suprema (Taup, 2024).

Poesia

micro carrossel

anseio pela calmaria do mar
desejo o ócio não criativo
em alegre desespero
alcanço o milagre sincero
~ também estamos aqui ~

exibo a mulher de valor
pernas para que te quero
escorrem da boca palavras amenas
frutífero diálogo com a flor
a decompor

trajetória insubmissa

corpo leve
circunscreve
branco como neve
ultraleve
peso pesado
lesado

caminho tortuoso
que se lança
que dança
que tensiona
que flutua
que insinua

tela escultural
forma harmoniosa
coluna vertebral
geometria sinuosa
curva espiral
corpo que pensa

Milca Batista

Milca Batista é professora de artes, escritora e ilustradora. Escreveu e ilustrou o seu primeiro livro “Eu Sabia que a Mudança Viria”.
Está no Instagram como @ilustre.miuca 😊

Poesia

Do meu pai para mim

Do meu pai
Eu herdei a alergia.
Os espirros incessantes,
Os olhos inchados
E os remédios em cima da penteadeira.

Do meu pai,
Não recebi a herança.
Não herdei o mal gosto,
E não mantive sua prepotência.

Do meu pai
Eu ganhei a raiva do mundo
A lembrança da ausência,
A tristeza nos olhos.

Do meu pai
Eu ganhei de presente
O que eu não queria ganhar.

Agora,
Dentro do meu peito
Mora um grande cavalo de troia.

Maurício Simionato

Nascido em Assis (SP), Maurício Simionato é poeta e jornalista. Como poeta, lançou os livros Impermanência (2012) — premiado pela Secretaria de Cultura de Campinas —, Sobre Auroras e Crepúsculos (Multifoco, 2017) — lançado na Bienal do Livro do Rio/2017 —, e O AradO de OdarA (Uma distopia tropical) (Patuá, 2021).

Poesia

Angelus Novus

Ruínas,
Solenes ruínas
Cabeça de prego áureo
Progresso que se dará
o resto voltado para
o que não passará
Tempestade nos olhos
Ventos regressos de afrescos
O anjo da história
Relegados fragmentos em reverso
As asas fechadas
No telhado, as vistas têm fome:
à caça, a boca à toa
saliva e faz o sinal da cruz.
O anjo da história
Reluz catástrofes com amor,
dá as costas
ao que virá.
Aproxima-se das saídas
Possíveis, que nada mais
são que o caminho a derivar.