São Paulo

De voz visceral e instintiva, sua escrita pulsa entre silêncio e desbordamento. Corpo, terra, desejo e formas indomáveis de existir ressoam entre o selvagem e o contido, em miragens que rasgam e acolhem. É também artista visual e criadora da Norteia — teia de livre experimentação com palavras.

Poesia

Alambrado

farejei a seiva,
rastejei o chão,
senti o pulso da terra onde jaz meu bicho solto.

nem cabe
(e eu não cabia),
não cabia — e me apequenei.

desfiz-me nas margens,
onde o solo se estende como promessa
e a carne se dissolve no infinito
da mudez de um corpo que nunca antes.

o vento
me sussurra antigos mistérios
de minha dança selvagem em desatino voraz.

nem cabe, pensei,
(e eu não caberia)
nos limites de um corpo que já não é meu.

fui minha própria cerca, fui o arame,
fui o vazio que me preenche.

sou o pulso. sou a seiva.
sou o sussurro do vento.

permaneço com olhos de fúria
e a terra que me abraça em silêncio.

Publicitário, jornalista, professor e escritor. Mora em São Paulo/SP. É autor de dezenas de obras, incluindo “Haicais vazios” (2025, TAUP). Vencedor do Prêmio ABERST, Troféu HQ MIX, Prêmio Ecos da Literatura e alguns outros, já participou de mais de 350 coletâneas de contos, poesias e quadrinhos.

Poesia

Amor e paixão

Paixão é pá, torrente, tempestade.
Amor é semente, chuva, sol da tarde.
Paixão é a coragem com intensidade,
Amor também é coragem, mas a mais temível ao covarde.
Paixão é muitas vezes a metade.
Amor é continuamente por inteiro, sem alarde.

Paixão sem amor, queima e se extingue.
Amor sem paixão ainda se distingue,
mas em fogo baixo, com suavidade.

Natural de Americana, SP. Lançou em 2024 o infantojuvenil “A fantástica aventura de Ferdinando e quem eu lá conheci” — vencedor do Prêmio Book Brasil nas categorias Melhor Infantojuvenil e Aclamado pelo Público. Participou de antologias de ficção e nesse ano lança a obra de realismo fantástico “Na estranha imagem entre nós”.

Poesia

Restauração

Subindo a escada da virtude
Afogo-me nos desejos dos outros
Cedo à tentação de ignorar as faces já esquecidas
Suplico a Deus para que não me perca de mim mesmo
Dos elementos que hoje me parecem estranhos
Mas que foram talhados no gabinete da minha história
Escondo a desordem por trás dos sorrisos contidos
Mas sempre me escapam as palavras


Nos meus cabelos ao vento
Deixo que me suma a estrada
Ignorando a fotografia da violência
Toca a melodia da alegria nos campos da tristeza esquecida
E continuam a me espetar
Mas estou detrás das camadas que não podem nem ver nem sentir
Nesse mundo tão meu
Só são convidados os que olham para dentro de mim

Daniela Muelas Bonafé

Escritora, artista, professora, militante dos direitos humanos, mãe, feminista. Apaixonada pela vida e pela poesia, tenho 10 livros publicados, o último é Rosas de Chumbo à venda por essa querida editora. Paulistana e sempre em movimento, gosto de experimentar e testar limites na Literatura.

Poesia

Gaza

são reféns eles dizem
no escuro não há corpo que tenha dona
a criança explode as partes voam
a testa não se lembra do carinho só voa
os dedos no bolo de aniversário voam
um dia a mãe cuidou para que ficasse limpa e forte
mas nem as roupas nem os dentes
um mar vermelho engole
e eu morta como elas faço poemas
não agradeço a deus pelos meus
é uma afronta: palavra alguma dá conta
são quarenta e dois quilômetros
quero o sono profundo de décadas
para os anos que já duram milênios
no lombo carrego também esse fardo
é pesado afundo no escombro e sangro as páginas
por favor ao menos a salvação do nome
mas não somos benditos
sentada na louça sanitária entregue e só 
meu rosto afundado entre as mãos eu já fui menina
pedimos socorro os braços se erguem 
a compaixão é uma benção
que nunca chega a galope
               [nunca chega]
relógios dinheiros fogos não param
só corações

Escritora paulista, autora dos livros “TW: Para ler com a cabeça entre o poste e a calçada” (Litteralux, 2017) e “Nequice: Lapso na Função Supressora” (Litteralux, 2018) , livro finalista na categoria contos do Jabuti 2019.

Poesia

Querem o casto, o alvo
o que se move em letargia na nata sul
com a mansuetude fastidiosa das moças superiores,
das madres queixosas por dedos e taramelas minhas.

Encontramos, nas paredes sujas, alguns ossos pequenos e fagulhas de suposta fuga de rubra utopia.

E querem.
Querem passos miúdos, vozes menos roucas, colunas dóricas alinhadas com o reto de seus generais, com os discursos aleatórios dos troncos vazios em altares de Eridu.

Descobrimos, sob seus telhados ocreosos, anotações de sonhos vencidos, fungos auris, abusos puídos de peças ornamentadas para o grande fim.

E eles ainda querem.
Querem a carne forte até o nascer do sol, a mentira edificante da poesia alada de falsos poetas, o caldo dos músculos que não formam nações.

Despertei tarde.

Ninguém mais esperava por mim.
Em ninho de susto, descabido medo de se misturar aos meus restos e barros de gente… Ninguém mais apareceu.

Despertei do que trava a língua das palavras boas.

Mas era tarde pra mar.

E eles querem.
Puros…
o meu silêncio.

Paulistano de 18 anos, é escritor e poeta em início de trajetória. Aborda em seus poemas temas existenciais e sentimentais, procurando explorar as palavras e seus silêncios.

Poesia

Os dentes e os chifres

Eu sou Tudo. E nesse Tudo sou
—Também— Todo seu Oposto.
O avesso — do meu rosto,

— Remonto-me; —
Troca-peles—troco o osso.
Minha própria imagem e semelhança.

Aprisiono a Ti— Corpo
que não possuo.
Me esgarro em Ti, como um grunhido mudo.

Isso sorri para mim no escuro.
Os Dentes — mordem a gengiva
Me afoga—Tamanha Agonia.

Agora; eu sou a caça: veado troca-peles.
Vitima— Ptolemaea; Devoro o caçador.
Perco o reflexo no espelho

Sou Tudo, Sou Oposto — Sou o peso. —.
Sem receio
O corpo em meus chifres—Me ergo.

Natural de São Paulo; autor de 04 livros; Título Comenda Literária “Pablo Neruda”; reconhecido por diversas Premiações em meios Literários, Profissionais e Culturais; Participações em vários Concursos Nacionais e em 30 Coletâneas Antológicas e Projetos Literários no Brasil e no exterior. Instagram @acarlosmisawa

Poesia

A Canção do Pôr do Sol

O sol se deitava sobre os ipês floridos,
e o vento dançava entre notas perdidas.
Ele dedilhava canções ao entardecer,
ela, encantada, só queria pertencer.
O amor nascia no som e no olhar,
como quem encontra no outro seu lar.

Os dias eram música, brisa e chama,
abraços que o tempo jamais desama.
No brilho dos olhos, segredos guardados,
no toque das mãos, desejos calados.
Cada acorde era um verso a pulsar,
um poema que a vida insistia em cantar.

Vieram promessas, vieram partidas,
o tempo impiedoso cruzando suas vidas.
Cartas dobradas, perfumes guardados,
fotografias de risos apaixonados.
Mas o sol sempre voltava ao poente,
e a música os trazia de volta à mente.

Um dia, perdida entre velhas memórias,
ela encontrou vestígios da sua história.
Os dedos tremiam, o coração disparava,
seria um acaso ou o destino chamava?
Na linha distante, um simples “alô”,
e o mundo parou, sem dizer se acabou.

A vida seguiu como quem nunca esquece,
como quem ama e o tempo obedece.
O amor não pede, não se desfaz,
permanece no eco de um pôr do sol fugaz.
No acorde de um violão que toca sozinho,
ou no silêncio, onde o amor faz seu ninho.

Filha do interior e criada pelos muitos cantos do Brasil. Sua poesia revela uma percepção profunda do mundo, que se entrelaça à complexidade do ser, transitando entre o delírio e a lucidez.

Poesia

Sou mar

Na maré baixa
Compartilho meus segredos
Minhas dores, meus medos

Sou beleza
Sou lazer
Sou alegría

Lua Nova,
Sou força,
Mistério e euforia

Guardo desejos,
Escondo segredos,
Que ecoam em minha cantoria

Sou fonte de fé,
De coragem,
De vida abundante e sabedoria.

Sou mar
Sou do mar
Sou maresia.

Educador, atuante em movimentos sociais e culturais buscando as vozes das periferias e minorias. Expressivo através das artes promovendo a essência das humanidades e sociedades. Submergido em versos e rimas… a; in; en-cultural? Multicultural!!

Instagram @leo.agomez

Poesia

Mundos

Uma História
são histórias
e estórias
verdades
visões
versões
interpretações
intenções
impressões
e expressões
De tudo
de todos
de si
do outro
da forma
deforma
desforma
reforma
conforma
com forma
informa
pra alguém
pra si
pro outro
pra quem?
Uma História…

Escritora contemporânea, escreve sobre gênero e suas multiplicidades. É paulista, mulher lgbt e pessoa com deficiência oculta. Mãe de pets e de plantas, atualmente, vive em São José dos Campos.

Poesia

Enxaguando a mente

Mãe, faz um pix?
Maria coloca roupa para lavar.
Maria, onde está meus sapatos?
Maria adiciona o sabão.
Mãe, o almoço tá pronto?
Maria enxagua.
Você devia ficar em casa no sábado com sua família.
Maria esfrega as roupas com rapidez.
Maria, você está lavando roupa de novo?

Submissa Maria não é
Mas retrucar pra quê?
Uma faísca pode gerar um incêndio
Maria não quer queimar nada
O que ela quer é paz.