Pessoa LGBTQIA+

É homem bicha-bicho instinto — como se descreve em seu primeiro livro, Máscaras que Caem do Teto, publicado pela Editora Urutau em 2024. Nascido em Tracunhaém, na Mata Norte de Pernambuco, vive há 15 anos no Recife. Administrador e pós-graduado em Gestão de Pessoas, é apaixonado por literatura desde a adolescência e poeta desde o primeiro choro.

Poesia

Torda

Gostaria de não ser
tão saudosista ou tão magoatista.
Mas há um engenho
doce em meus lábios
e violento nas minhas lágrimas.

Rude em minha fala
de homem caboclo,
um mamulengo de pau erguido,
um veado crescido.

Manipulado pelas mãos por trás da torda,
de quem desejou um dia
ser o dono daqueles engenhos.
Mas, coitado…
o controle do mamulengueiro
pra eu não ser veado.
Mas, se eu for,
é só ninguém saber —
e só ele me comer.

Abro a boca, mas não digo.
Encerra a cena
com o pau atravessado
na minha goela-fala.

De Florianópolis, explora a complexidade do mundo com olhar crítico e humor sutil. Trabalha com Inovação e Engenharia do Conhecimento, pesquisando sobre tecnologia e saberes. Tem artigos científicos e obras em diferentes mídias, e também edita a publicação Dedálicos Inventos no Medium.

Poesia

A sinalética da vida

a sinalética da vida está em obras
desvio à esquerda depois do beco sem saída
contradictio in adjectis
a shoppinização da ciência vende ômega 3 em cápsula softgel para memória que falha
um monofisismo diário
desamor, angústia e ansiedade numa só substância cinza
impossível de separar
o tomismo dos manuais não contempla essa heresia
a megamáquina planta mais uma pobreza bonsai
poda poda poda
qualquer ambição contida no vaso de 30 centímetros quadrados
o consumo conspícuo grassa
enquanto o lixeiro passa
e vê o contraste padrão
repito o tetrapharmakos sem muita convicção
é só mais um exercício de ser rápido no que é fugaz
em pensamento autotélico ou tentativa de distração
a tecnolatria promete o upload da consciência
para continuarmos artífices da nossa própria sujeição
mas não vão me matar agora
ah não
ainda tenho boletos a pagar
e ir no mercadinho comprar
mais torpor em promoção

Sua escrita é uma constante busca por pertencimento, expressando incômodos e reflexões. Inspirada em questões filosóficas, espirituais, ancestrais e LGBTQIA+, ela mergulha em temas como vida, morte, amor e desejo. Com formação em comunicação e especialização em escrita criativa, sua voz singular ecoa através das palavras. @carolina.ana.oz

Poesia

Plutão chegou a Áquario

no dia 20 de janeiro
plutão chegou a áquario
caindo como um explosivo
sobre nosso relacionamento

pedindo renovação
arcano XVI
a queda inevitável:
é das cinzas do ego
que nasce a consciência!

a solução vem do treze
passar por qualquer coisa
e se tornar mais forte

o segredo é o ritmo
embalar o outro
escolha complementar
encontrar o meio termo
sem anular o próprio ritmo

como num barco
o remo segue a corrente
do braço

como uma dança
pés sincronizados
o gozo ainda é
a única coisa
que o capital
não conseguiu

e a solução vem da morte.

Taíssa Nadai

Taíssa de Nadai é formada em direito e graduanda em letras pela UFPR. Apaixonada pela busca de caminhos interiores e oníricos às realidades hostis, sempre se mostrou bastante afeita à utilização da arte como ferramenta de mudança social. Em 2023, publicou seu primeiro livro de literatura, Restos do devaneio, pela Editora Patuá.

Poesia

Uma vontade
incessante
de sentir fome
de ser tão estrangeira
a ponto de nunca estar no devido lugar e isso ser justamente o melhor horizonte porque dessa forma me equilibro com a minha arte
a minha parte
e o que pode haver de
diferente
não me contento em fazer o mesmo alcançar os objetivos já traçados brincar de brincadeiras já conhecidas amarelinha
queimada
telefone sem fio
hoje em dia todos os telefones são sem fio
de que adianta?
Busco o não pertencimento
o único que poderá
quiçá
me lavar
me levar
à fala mais intrínseca
e universal.

Valdeck Almeida de Jesus

Valdeck Almeida de Jesus é escritor e jornalista. Ativista cultural e Embaixador do Parlamento Internacional dos Escritores da Colômbia, membro fundador da União Baiana de Escritores – UBESC e do Fala Escritor (2009). Participa do grupo de pesquisa Rede ao Redor, do Instituto de Humanidades, Artes e Ciências Professor Milton Santos – IHAC/UFBA.

Poesia

As sandálias de minha mãe

Quando eu era criança
minha mãe andava descalça.

Prometi que compraria um sapato pra ela,
quando eu crescesse.

Comecei a trabalhar.
Pensei numa sandália de pneu.
Esperei melhorar de trabalho e salário.

Seria de couro
seria de cetim
seria importado
seria de cinderela

Minha mãe morreu
e não deu tempo
comprar o sapato dela.

Agora vou fazer um mausoléu
de paralelepípedo
de ardósia
não, de mármore
ou de granito…

Que tal de pedras preciosas?
Ano que vem eu farei,
quando eu for ao túmulo
levar rosas

Sofia Lopes

Sofia Lopes é escritora, tradutora e doutoranda em Literatura. Suas publicações incluem dois livros e participações em antologias e revistas. Seus trabalhos podem ser encontrados no Instagram @literartemis.

Poesia

Ariadne

é rubro o fio que me ata ao reflexo
fio diáfano inviolável
que reescreve o tempo
e o deita perante meus pés
entalhes, trilhas que sigo
contigo, instinto e ardor
para traçar passos outros
labirínticos,
tortuosos, nossos.

é rubro o sangue que me escorre as paredes
sangue de corpo-bicho-mulher
que verte, alma às mãos
e se desfaz, água carmim
na pele em flor de seus braços,
cálices que transbordo
e preencho, lar que habito,
que me habita
em igual medida.

arqueologia

atravessa o invisível—
mergulha em seu lago,
cruza águas incógnitas—
do frescor da alga ao
lodo mais denso—
traça trilhas com as
pontas dos dedos, resvala
as unhas sobre leitos
de diminutas contas, escava
antigos tomos—tábuas
de pedra, colheita
das profundezas—lava o
pó que se esfarela, lança-o
pela terra—semente,
areia, dispersas sobre
solo tão fértil, tão
faminto—e descobre,
com olhos de eterno
enlevo, o que ali
pode florescer.

Servos Cardoso

Servos Cardoso é natural de Formiga/MG e, em 2022, recebeu a honraria do título de Cidadão Honorário de Cláudio/MG, cidade onde atualmente reside. É violinista, educador, palestrante, poeta, escritor dos livros de poesia: Poético e Virtudes. E foi, em sua adolescência, que descobriu o gosto pela música, leitura e poesia.

Poesia

O que acontece depois que morremos?

Muitos voltarão a ser pó da terra,
poucos voltarão a ser luz no mundo.
Não por castigos ou punições,
mas por causa e efeito de suas ações.
Muitos apenas sobrevivem por aqui,
poucos vivem deixando seus rastros por aí.
Aos que viram pó,
seus nomes serão lembrados
até alguma próxima geração.
Aos que viram luz,
viram luz para iluminar caminhos.
E aqueles que os percebem
fazem esforços para que seus nomes nunca se apaguem,
pois seus nomes trazem efeitos frutíferos aos ombros de quem os evocam,
como as chuvas de bênçãos que recaem sobre solos secos.

Sávyo Fernandes

Sávyo Fernandes é natural de Catolé do Rocha/PB e se encontrou escritor em Janduís/RN, cidade onde reside atualmente. Graduado em História pela UERN e roteirista de produções audiovisuais. Publicou Naturália Psicótica (2021) e participou da antologia Nordestes (2023), lançada na FLIP, com o texto “Cordel de Facas”.

Poesia

A PARTEIRA

Nenhum poeta dura mais que seu próprio verso
Considero o conclave silábico de palavras
Formador de asas carcomidas pelo deserto
Na imersiva cidade de escadas

De certo, subimos para os céus do romantismo
Ou menos que isso, para as mazelas da realidade
E não temos integridade no juízo
De nossas observações em vaidade

Parir uma estrofe é dar luz ao desconhecido
Mal gerido pelas estranhas disformes da memória
Brilhante feito joia nas vísceras do ser desentendido

Rafael Erasto

Rafael Hera nasceu na Baixada Fluminense, em 1998. É escritor e ativista. Publicou seu primeiro livro “”A Lingua do P””,em formato digital em 2020, durante a crise pandêmica.

Poesia

P

toda vida aparece uma enxurrada
a aquisição mais recente?
língua de Caetano
óbvio
junto com línguacorpo de Bethânia
línguacigarro de Abreu
línguacabeça de Ana C
línguagrito de Marcelino
só me falta entender o funcionamento
ler o manual de instrução do teu peito
me desculpa, eu queria de verdade
saber te pegar no colo e te levar pra casa
te deitar nu como a línguacristo de Pessoa
e garantir felicidade calmaria
eu não sei se você entende
e você sabe que receio dizer
que da ausência se faça beijo
e do buraco um braço entrelace
tu sabe que eu pedi pra mãe
tirar de perto se não presta
ajudar se não for longe
hoje é 27 de abril e
eu tenho covardia da tentação
de conhecer o gosto
da língua do P

Paula Latgé

Paula Latgé é poeta, psicóloga, com formação em bioética e saúde coletiva, coordenadora da Associação Experimental de Mídia Comunitária – BEMTV, tem na poesia o seu impulso, escrever não é opção, é sentido de vida, palavras que preenchem o seu ser insistem em nascer, e quando não nascem, abortam o ser que deveria ter sido e não foi.

Poesia

PRECE

Escreve poesia quem não sabe prosar
Poeticamente prosando o poeta nunca está
A poesia não tem linha
Não tem tempo
Nem história
Ela caminha fantasticamente
Quase simplória
Onde começa?
Quando termina?
Quem faz o verso?
Será com rima?
A poesia não se pergunta
Se acontece!
Inesperada nasce da alma
Como uma prece.