Rio de Janeiro

daniel soares filho

O carioca, doutor em Literatura Comparada, como escritor sempre experimentou o deleite e o sofrimento de juntar palavras. Além de professor de idiomas, traz 13 livros sobre a religião de umbanda, bem como tem publicados diversos poemas e contos em antologias.

Poesia

Homens em vão

Em definitivo,
Diga-me cada um:
Estão as mentes todas
Cansadas ou doentes?

E não saiam pela tangente
Sem resposta efetiva
Da inquietação latente:
Somos todos enfermos?

E há quem diga
Que tudo é mentira!
E que nada é certeiro.
Porém eu pouco creio.

Será minha sina,
Ou então o meu receio
De encontrar acolhida
Da certeza do que vejo.

Ó, meus irmãos vivos,
Onde mais morremos
Se não na vida
Esgotada e enfermiça?

Alice Puterman

Nascida em 2002, no Rio de Janeiro. Algumas coisas me definem: uma longa batalha contra a doença mental, a sobrevivência às violências sexuais, e a deficiência. Não mais do que tudo e todos que amo. Sinto saudade. Ponto. Saudade de tudo. Aquele misto de afeto com dor, sabe? Acho que se eu fosse um sentimento, é este que eu seria. Talvez, eu já seja. Candura — uma história de sobrevivência feminina, é seu livro de estreia (TAUP, 2025).

Poesia

só vou morrer
depois que
uma voz gasta
rouca
e sem dono
escorrer boca afora

a mesma boca
que quando esperava um primeiro beijo
foi usada de tantas outras maneiras
e ficou com um não regurgitado na garganta
sem cuspe

que esta boca
espante toda
palavra morta
e parte imunda
que entala como grão de areia após a praia
em quinas sombrias da sala de estar

vou urrar até a dor se render
até minha voz virar eco
e eu rasgar
cada caco de mim
que se culpa
por homens que tomam corpos
e brotam dores

só saio dessa vida
com a garganta em carne viva

Nasceu no Rio de Janeiro em 2000. Poeta e pesquisadora, é formada em letras pela Univates. Seu trabalho envolve autoras brasileiras com o projeto de clube de leitura Amavisse, também possui o perfil literário @leituramista onde fala sobre livros escritos por mulheres.

Poesia

Saudade

te sinto aqui ainda, enroscada nos meus pés
na minha visão periférica, ainda vejo você caminhar por mim,
uma sombra, um pulo
eu giro a cadeira, você não está.
acho que te ouvi, mas não te encontro

como faço pra te encontrar além dos meus sonhos?

te sinto aqui ainda, fico aliviada
por um momento e depois, não mais.
a saudade me come pelas beiradas
ainda sinto teu cheiro
ainda te espero,
apesar de saber que você não vai voltar
e eu sei onde está.

eu olho a janela, sinto um vento.
durmo torcendo
te ver de alguma forma,
a cama ainda está morna.

a saudade me arrebata a cada roupa que visto
toco em um pouco de você a cada pelo que encontro
o que me restou da saudade:
uma foto sua e uma tatuagem.

ainda te sinto aqui
você me sente, daí?

Nasceu da invencionática. Estudou a informática. Aprendeu a ter preguiça do corpo, da vida comunitária e mergulhou na tecnologia. Adoeceu, virou do avesso, reencontrou o corpo, as pessoas e a escrita. Esse é o primeiro poema que publica, fruto de muita ação poética na vida. Instagram: @maricomdoisn

Poesia

Ser-desejo

Eu desejo que quando eu estiver aqui,
eu esteja de todo coração
E quando eu estiver lá,
eu esteja de todo coração

Desejo que nada que me
atravesse me faça falta a ponto
de eu não conseguir
verdadeiramente me sentir
presente

Atravessamento é semente
Que a abundância seja evidente

Que consciente esteja eu
Que o necessário seja Deus
Este que é cada gota e que é
também o oceano

É poeta, artista visual e designer gráfica. Tendo a poesia como fio condutor para suas experimentações, utiliza-se do rasgo, das dobras, das cisuras e costuras para criar imagens e versos. É autora do livro de poemas Parabólica publicado pela editora Patuá (2021).

Poesia

No dia em que a terra parou eu fui embora pra
[Pasárgada

Tomei o mapa num gole só e me inebriei de silêncios

Desconectados das redes globais, adormecidos todos os televisores, abandonados todos os carros

O calendário cansou de existir e pensou se não seria melhor ordenar suspiros

No dia em que a terra parou eu fui embora

Pra Pasárgada passar meus dias

Tomei a estrada num gole só e me inebriei de vento e orvalho

No dia em que a terra parou e tudo parou na terra

Eu vivi

Mestre em Linguística, professor universitário, revisor e tradutor, 67 anos, nasceu e mora no Rio de Janeiro, RJ. Possui mais de 150 obras publicadas em antologias de contos, crônicas e poemas, em livros físicos, e-books e revistas digitais. Membro de algumas associações literárias. Publicou dois e-books pela Amazon (Microcontos da Pandemia e Poemas Cáosticos).

Instagram: @josemsilvaprof

Poesia

Noites sem cor

des-ser
descrer
desfazer o viver
a única maneira
de existir
desistir

o mundo inexiste
o ser resiste
num acorde
numa estrofe
num refrão
o tesão
no desvão – da mente

só na incoerência há paz
só a loucura compraz

e quando nada dá certo
existe a arte
a parte
que reparte
que comparte
ou o desastre
o que dá no mesmo

Gaúcha, publicitária, escritora e mãe solo. Autora de dois livros infantojuvenis, dedica-se também à literatura de ficção autobiográfica. Escreve a partir da experiência, do que arde e permanece. Sua escrita é território de memória, de afeto e de coragem.

Poesia

Solo

A cidade girava — alheia ao seu ser.
Ela — estátua — atônita.
O metrô partia com seus pedaços,
e o tempo, tirano disfarçado de rotina.
Nos pés, a pressa herdada das urgências alheias.

Mãe solo. Não por ter gestado só, depois de uma relação falida,
mas por ser — dia após dia — esquecida.

Caminhava entre vozes que não a chamavam,
Queria — talvez — um toque. Um esbarrão.
Um sussurro casual que dissesse: “Eu te vi.”

Ela veste — a roupa que lhe cabe há oito anos:
sua personagem-mãe.

E há tantas… tantas Olívias por aí.
Que correm, como ela,
sem tempo de se esbarrarem.
Fortalezas ambulantes,
com trincheiras no peito.
Procurando por pertencimento.

Solo. No sentido mais humano da palavra.
Solo — entre o abismo da plenitude
e a margem da ausência.
A esperança — ainda que tênue
de reencontrar-se inteira.
Um dia. Quem sabe.

Gilberto Pereira

Gilberto Pereira nasceu em 1960, é morador da Ilha do Governador, no Rio de Janeiro, desde 1971. Seu primeiro livro de poemas, A Trilogia D’Alma, foi publicado pelo selo editorial Polo Cultural Ilha e lançado em 2022, durante a 2ª FLICPOLO — Festa Literária e Cultural do Polo Cultural Ilha. Organizador de antologias, é também um dos idealizadores e, atualmente, único produtor e apresentador do Sarau na Casa D’Alma, que celebrou 22 anos em julho de 2024. Além disso, é membro-fundador e presidente da Academia Sociedade dos Literatos do Sarau na Casa D’Alma (ASOL).

Poesia

INTROMISSÃO

No mundo,
existem homens e pedras:
as pedras, carne sem sangue;
os homens, sólido venoso.

Eles urinam e sobrevivem.
Elas sorvem e prosperam.

São uterinamente pedras.
São pré-historicamente homens.

Deles não restam dúvidas.
Delas não saltam sonhos.

(Mas o que há de errado nisso?!
Não sei.
Os poetas se metem sempre onde não são chamados!)

Thiago Braga

Thiago Braga é professor de Literatura Brasileira e começou a escrever poemas com 12 anos de idade. Ele sinceramente espera que as pessoas consigam sorver algo de positivo da visão de mundo que ele descortina por meio da arte literária.

Poesia

Marginal

O amor
embrulha minha alma
em papel de presente
e entrega sem nem saber
se vai agradar

Thaís Gomes

Thaís Gomes é formada em Letras Português/Espanhol, a autora/poetiza participa do selo Castelo Drácula e Revista Literata. Tem prevista a publicação de dois poemas em duas Antologias pelo selo Projeto Sombrios (“Noturnais” e “Noite dos Mortos”) e terá o soneto inédito “Pesadelos” publicado na Antologia “Viva Poesia” pela Lura Editorial.

Poesia

Poeta Morto Vivo

Nos confins da noite, num túmulo esquecido,
Dormia o poeta, pálido, desvanecido.
Tua lira silente, tua voz calada,
Como folhas secas numa estrada assombrada.
Mas a lua cheia, com seu brilho sombrio,
Beijou sua fronte, rompendo o vazio.
Nos olhos negros, uma faísca desperta,
E n’alma, que antes jazia, enfim se liberta.
Oh, Poeta Morto, renascido das sombras,
Teus lábios rubros, as palavras açoitam.
Tua poesia, feroz e imortal,
Rasga o silêncio, bruto e fatal.
E na solidão das madrugadas frias,
Tua pena escreve com sangue e fantasias.
Oh, Poeta Sombrio, és agora lenda,
Tua poesia é veneno, que a noite desvenda.
De tua lápide se ergue um clamor
De um morto vivo que escreve sem dor.
E assim, na eternidade do breu infinito,
O poeta renascido é o mais belo mito.