poeta vivo

Taíssa Nadai

Taíssa de Nadai é formada em direito e graduanda em letras pela UFPR. Apaixonada pela busca de caminhos interiores e oníricos às realidades hostis, sempre se mostrou bastante afeita à utilização da arte como ferramenta de mudança social. Em 2023, publicou seu primeiro livro de literatura, Restos do devaneio, pela Editora Patuá.

Poesia

Uma vontade
incessante
de sentir fome
de ser tão estrangeira
a ponto de nunca estar no devido lugar e isso ser justamente o melhor horizonte porque dessa forma me equilibro com a minha arte
a minha parte
e o que pode haver de
diferente
não me contento em fazer o mesmo alcançar os objetivos já traçados brincar de brincadeiras já conhecidas amarelinha
queimada
telefone sem fio
hoje em dia todos os telefones são sem fio
de que adianta?
Busco o não pertencimento
o único que poderá
quiçá
me lavar
me levar
à fala mais intrínseca
e universal.

Vanessa Valentim

Vanessa Valentim é docente, licenciada em Letras, especialista em fonética e fonologia, mestranda em Literatura em Língua Estrangeira e Literatura Comparada. Educadora, pesquisadora e inquieta. Amante dos seres vivos. De pequena queria ser professora, brincava de dar aulas, ensinava suas pequenas sabedorias.

Poesia

Quando o telefone vibra

Um chá preto
descansa na xícara com desenho de um elefante.
O telefone vibra insistentemente.

Tocar jamais,
essas musiquinhas
não combinam com a rotina já estridente.

Notícia que chega vibrando
segue vibrando e ecoando
do estômago até o pescoço.
Harmoniza com aquele retrogosto
amargo da infusão esquecida.

O sofrimento flutua,
não sabe nadar.

A única boia;
respirar.

Valdeck Almeida de Jesus

Valdeck Almeida de Jesus é escritor e jornalista. Ativista cultural e Embaixador do Parlamento Internacional dos Escritores da Colômbia, membro fundador da União Baiana de Escritores – UBESC e do Fala Escritor (2009). Participa do grupo de pesquisa Rede ao Redor, do Instituto de Humanidades, Artes e Ciências Professor Milton Santos – IHAC/UFBA.

Poesia

As sandálias de minha mãe

Quando eu era criança
minha mãe andava descalça.

Prometi que compraria um sapato pra ela,
quando eu crescesse.

Comecei a trabalhar.
Pensei numa sandália de pneu.
Esperei melhorar de trabalho e salário.

Seria de couro
seria de cetim
seria importado
seria de cinderela

Minha mãe morreu
e não deu tempo
comprar o sapato dela.

Agora vou fazer um mausoléu
de paralelepípedo
de ardósia
não, de mármore
ou de granito…

Que tal de pedras preciosas?
Ano que vem eu farei,
quando eu for ao túmulo
levar rosas

Túlio Velho Barreto

Túlio Velho Barreto participou de dezenas de antologias e coletâneas de poesia e contos. Recentemente, publicou os livros Do Estar no Ainda – Haikais (Patuá, 2022), Versos em Cordas Primas (Helvetia, 2023), premiado pelo Festival de Poesia de Lisboa, e Pequeninos Animais em Haikais, (Patuá, 2024), voltado para o público infantil. Em 2025, foi 1º lugar no Prêmio Off Flip de Literatura com o conto “A Invenção de Fernando Pessoa”. 

Poesia

MÁQUINA DE ESCREVER

[Impassível]
Diante de mim pareces esconder segredos
a revelar – tarde ou cedo – o que não se sabe.
Antes do fim.

[O suave toque]
No deslizar dos dedos sobre a matéria
escreves a palavra séria que nunca se prende.
Nem se perde.

[No mesmo som]
Repetido em cada movimento faz-se
então a marca na face do branco absoluto.
Como um rito.

[Resultado:]
Em linhas retas apoia-se a musculatura
do escriba. E os traços espalham-se plenos.
Em mil planos.

[Poema e prosas]
As palavras que ali pousam vão até onde
as mãos alcançam quando a mecânica para.
E então calas.

O OLHO DO MAR

o olho do mar
atravessa
a praia
alcança espumas
acaricia
lambe
beija a areia
a seduz
quando clareia
a sob a lua
se divide
se multiplica
em leve flerte
e reflete
tudo o que mira
como o sol
da manhã
e da tarde
para apenas
à noite revelar:
o olho do mar
é farol

Thiago Braga

Thiago Braga é professor de Literatura Brasileira e começou a escrever poemas com 12 anos de idade. Ele sinceramente espera que as pessoas consigam sorver algo de positivo da visão de mundo que ele descortina por meio da arte literária.

Poesia

Marginal

O amor
embrulha minha alma
em papel de presente
e entrega sem nem saber
se vai agradar

Thaís Gomes

Thaís Gomes é formada em Letras Português/Espanhol, a autora/poetiza participa do selo Castelo Drácula e Revista Literata. Tem prevista a publicação de dois poemas em duas Antologias pelo selo Projeto Sombrios (“Noturnais” e “Noite dos Mortos”) e terá o soneto inédito “Pesadelos” publicado na Antologia “Viva Poesia” pela Lura Editorial.

Poesia

Poeta Morto Vivo

Nos confins da noite, num túmulo esquecido,
Dormia o poeta, pálido, desvanecido.
Tua lira silente, tua voz calada,
Como folhas secas numa estrada assombrada.
Mas a lua cheia, com seu brilho sombrio,
Beijou sua fronte, rompendo o vazio.
Nos olhos negros, uma faísca desperta,
E n’alma, que antes jazia, enfim se liberta.
Oh, Poeta Morto, renascido das sombras,
Teus lábios rubros, as palavras açoitam.
Tua poesia, feroz e imortal,
Rasga o silêncio, bruto e fatal.
E na solidão das madrugadas frias,
Tua pena escreve com sangue e fantasias.
Oh, Poeta Sombrio, és agora lenda,
Tua poesia é veneno, que a noite desvenda.
De tua lápide se ergue um clamor
De um morto vivo que escreve sem dor.
E assim, na eternidade do breu infinito,
O poeta renascido é o mais belo mito.

Terezinha Malaquias

Terezinha Malaquias, poeta, escritora e multiartista. Trabalha com diversas linguagens artísticas além do texto. Principalmente com fotografia, vídeo, performance. Pesquisa os temas ancestralidade, mulher, violência, racismo. Escreveu e publicou nove livros. Poemas, crônicas, contos e infantojuvenil. Mora na Alemanha desde 2008. @terezinhamalaquias

Poesia

MODELO VIVO

Sou eu parte integrante da sua arte.
O desenho, a pintura e a escultura se fundem
e se confundem com o meu corpo,
respiração, estado d´alma,
transformando-se assim numa coisa única:
que se toca, pega, vê, sente e gosta.

É um prazer e uma felicidade intensa
fazer parte do seu processo de criação.
O momento é único.
Por mais que se repita essa cena,
ela nunca será igual as anteriores.

No exato momento em que
eu me coloco a sua frente,
o humano deixa de existir
para dar vida ao sagrado.
Sinto uma comunhão entre nós,
quando estamos um diante do outro,
numa grande contemplação.
Suas mãos conduzidas
e guiadas por seu olho,
criatidade, talento e intuição,
fizeram nascer a arte inspirada na
cor da minha pele,
no cheiro, no silêncio,
no olhar e na quietude

Tássia Veloso

Tássia Veloso é poeta, taróloga, terapeuta energética, desabafadora e escutadora de sentimentos, experimentadora da vida. Gosta de viajar para dentro e fora de si, e de vez em quando compartilha essas jornadas com outras pessoas. Nas redes sociais, escreve no @umpoucodealma

Poesia

A parede

Eram tijolos.
Apenas tijolos empilhados sobre um livro.
Mas não eram apenas tijolos e nem somente um livro.
Cada página daquele impresso fazia envergar aquela parede.
Cada letra ali escrita fazia envergar um pouco mais a matéria.
Assim como na vida.
A palavra possui força além da substância,
move paredes.
Faz ruir tudo o que antes era concreto.
Todas as convicções caem por terra.


O verbo quando venta não faz distinção de solidez,
não quer saber se suas verdades estão construídas sobre areia ou cimento.
O verbo quando venta quer fazer de tudo pó.
Sem distinção.

Sofia Lopes

Sofia Lopes é escritora, tradutora e doutoranda em Literatura. Suas publicações incluem dois livros e participações em antologias e revistas. Seus trabalhos podem ser encontrados no Instagram @literartemis.

Poesia

Ariadne

é rubro o fio que me ata ao reflexo
fio diáfano inviolável
que reescreve o tempo
e o deita perante meus pés
entalhes, trilhas que sigo
contigo, instinto e ardor
para traçar passos outros
labirínticos,
tortuosos, nossos.

é rubro o sangue que me escorre as paredes
sangue de corpo-bicho-mulher
que verte, alma às mãos
e se desfaz, água carmim
na pele em flor de seus braços,
cálices que transbordo
e preencho, lar que habito,
que me habita
em igual medida.

arqueologia

atravessa o invisível—
mergulha em seu lago,
cruza águas incógnitas—
do frescor da alga ao
lodo mais denso—
traça trilhas com as
pontas dos dedos, resvala
as unhas sobre leitos
de diminutas contas, escava
antigos tomos—tábuas
de pedra, colheita
das profundezas—lava o
pó que se esfarela, lança-o
pela terra—semente,
areia, dispersas sobre
solo tão fértil, tão
faminto—e descobre,
com olhos de eterno
enlevo, o que ali
pode florescer.

Servos Cardoso

Servos Cardoso é natural de Formiga/MG e, em 2022, recebeu a honraria do título de Cidadão Honorário de Cláudio/MG, cidade onde atualmente reside. É violinista, educador, palestrante, poeta, escritor dos livros de poesia: Poético e Virtudes. E foi, em sua adolescência, que descobriu o gosto pela música, leitura e poesia.

Poesia

O que acontece depois que morremos?

Muitos voltarão a ser pó da terra,
poucos voltarão a ser luz no mundo.
Não por castigos ou punições,
mas por causa e efeito de suas ações.
Muitos apenas sobrevivem por aqui,
poucos vivem deixando seus rastros por aí.
Aos que viram pó,
seus nomes serão lembrados
até alguma próxima geração.
Aos que viram luz,
viram luz para iluminar caminhos.
E aqueles que os percebem
fazem esforços para que seus nomes nunca se apaguem,
pois seus nomes trazem efeitos frutíferos aos ombros de quem os evocam,
como as chuvas de bênçãos que recaem sobre solos secos.