poeta vivo

Tenho 20 anos e sou acadêmica de enfermagem da UEMA. Desde a adolescência, encontro nos livros um refúgio e uma fonte inesgotável de inspiração. Levo comigo o desejo constante de criar através das palavras.

Poesia

Espuma do mar

A primeira vez que vi o mar,
meus pés hesitaram na beira.
As águas violentas pareciam querer me consumir,
um azul inebriante, profundo,
como se não houvesse fim.
A cada minuto,
algo poderia emergir das profundezas
e me arrastar para o mais tenebroso fim.
A água estava fria,
não o bastante para calafrios na espinha,
mas fria o suficiente
para alimentar o medo que eu já carregava.
Essa é a palavra: medo.
Medo de virar espuma do mar,
Um medo infundado no mais escuro azul,
em contraste com a areia quente,
beijada pelo sol dourado.
E quando a lua chegou,
trazendo sua brisa suave,
a areia esfriou,
e o mar, enfim, se aqueceu.

Nascido em 78, criado na Polis-Colérica (leia-se, SP), escreve a cacofonia contemporânea em poesia e prosa. Autor de “Quem ainda escreve poesia?”, “Prefiro Vacas a Humanos” e um terceiro livro no forno.

Poesia

Admirável mundo-zoo

Rompi o cadeado de minha jaula 
Sairam leões,
paquidermes
Saiu aquele cavalo raro
em listras preto-e-branco
Libertei meu ancestral primata
Entre uma árvore e outra,
há tantos postes e fios
e volts e antenas e megaherz
Soltei o crocodilo
– aspirante à bolsa –
no Tamanduatei
Voa ave de rapina
Voa
A dúvida é mais
do que esta ração porcionada
 
Enfim livre
Livre?
                        Algemas abraçam o coração
                        de titânio
                        Um anzol rasga meu beiço
                        Tirem-me desta rede
..

É homem bicha-bicho instinto — como se descreve em seu primeiro livro, Máscaras que Caem do Teto, publicado pela Editora Urutau em 2024. Nascido em Tracunhaém, na Mata Norte de Pernambuco, vive há 15 anos no Recife. Administrador e pós-graduado em Gestão de Pessoas, é apaixonado por literatura desde a adolescência e poeta desde o primeiro choro.

Poesia

Torda

Gostaria de não ser
tão saudosista ou tão magoatista.
Mas há um engenho
doce em meus lábios
e violento nas minhas lágrimas.

Rude em minha fala
de homem caboclo,
um mamulengo de pau erguido,
um veado crescido.

Manipulado pelas mãos por trás da torda,
de quem desejou um dia
ser o dono daqueles engenhos.
Mas, coitado…
o controle do mamulengueiro
pra eu não ser veado.
Mas, se eu for,
é só ninguém saber —
e só ele me comer.

Abro a boca, mas não digo.
Encerra a cena
com o pau atravessado
na minha goela-fala.

De Florianópolis, explora a complexidade do mundo com olhar crítico e humor sutil. Trabalha com Inovação e Engenharia do Conhecimento, pesquisando sobre tecnologia e saberes. Tem artigos científicos e obras em diferentes mídias, e também edita a publicação Dedálicos Inventos no Medium.

Poesia

A sinalética da vida

a sinalética da vida está em obras
desvio à esquerda depois do beco sem saída
contradictio in adjectis
a shoppinização da ciência vende ômega 3 em cápsula softgel para memória que falha
um monofisismo diário
desamor, angústia e ansiedade numa só substância cinza
impossível de separar
o tomismo dos manuais não contempla essa heresia
a megamáquina planta mais uma pobreza bonsai
poda poda poda
qualquer ambição contida no vaso de 30 centímetros quadrados
o consumo conspícuo grassa
enquanto o lixeiro passa
e vê o contraste padrão
repito o tetrapharmakos sem muita convicção
é só mais um exercício de ser rápido no que é fugaz
em pensamento autotélico ou tentativa de distração
a tecnolatria promete o upload da consciência
para continuarmos artífices da nossa própria sujeição
mas não vão me matar agora
ah não
ainda tenho boletos a pagar
e ir no mercadinho comprar
mais torpor em promoção

Nasceu no dia 16 de outubro de 1987. Mora em Camaçari -Bahia. Escrever é uma grande paixão pessoal. Por muitos anos manteve seus escritos engavetados. Já participou de várias antologias.

Poesia

Meu jardim

Da janela do meu quarto
Fico admirando o meu jardim!
Com a chegada da primavera
Borboletas, voando de flor em flor
Trazendo encanto e alegria
E o perfume das flores
Exala por toda parte…

Nesse momento fecho os olhos
Respiro fundo e me entrego
A mais pura emoção e medito
As coisas mais simples da vida
Que realmente nos trazem felicidade
Esse sim é o verdadeiro sentido de viver.
Apreciar a natureza e a cada gesto singelo!

Envolvida por esse momento!
Começo a cantar minha canção preferida
E me sinto em outra dimensão
O nome disso, chama -se paz interior!
Como é bom se sentir assim
Olho pra dentro de mim,
E encontro uma nova razão de viver.

Uma felicidade me contagia!
Vou cuidar cada vez mais do meu jardim
Cultivar novas flores, no meu jardim
O perfume das flores, traz paz!
Cada dia que passa, sinto minha esperança renovada!
O amor preenche os meus dias!

Poeta e professora da rede pública municipal de São Paulo, trabalha na biblioteca como contadora de histórias e disseminadora da poesia.

Poesia

A grande ilusão

Aprendizados da maturidade:
conhecer os monstros pelos nomes
aguar as plantas na medida certa
recordar que os mesmos caminhos
já foram mais velozes

Escolher o melhor ângulo para posar
descascar com agilidade
livrar-me do medo do escuro
menos me acostumar a perder um grande amor:
é sempre como a primeira vez

Gaúcha, publicitária, escritora e mãe solo. Autora de dois livros infantojuvenis, dedica-se também à literatura de ficção autobiográfica. Escreve a partir da experiência, do que arde e permanece. Sua escrita é território de memória, de afeto e de coragem.

Poesia

Solo

A cidade girava — alheia ao seu ser.
Ela — estátua — atônita.
O metrô partia com seus pedaços,
e o tempo, tirano disfarçado de rotina.
Nos pés, a pressa herdada das urgências alheias.

Mãe solo. Não por ter gestado só, depois de uma relação falida,
mas por ser — dia após dia — esquecida.

Caminhava entre vozes que não a chamavam,
Queria — talvez — um toque. Um esbarrão.
Um sussurro casual que dissesse: “Eu te vi.”

Ela veste — a roupa que lhe cabe há oito anos:
sua personagem-mãe.

E há tantas… tantas Olívias por aí.
Que correm, como ela,
sem tempo de se esbarrarem.
Fortalezas ambulantes,
com trincheiras no peito.
Procurando por pertencimento.

Solo. No sentido mais humano da palavra.
Solo — entre o abismo da plenitude
e a margem da ausência.
A esperança — ainda que tênue
de reencontrar-se inteira.
Um dia. Quem sabe.

É Professor Universitário (UFSC) e Doutor em Física pela UNICAMP. Baiano, da cidade de Itabuna, casado e pai de duas filhas, é apaixonado por  ensinar e aprender. Também é atleta amador de natação e corrida. Dedica-se à poesia no seu perfil do @danfagundes_poesia e já teve alguns de seus textos publicados nas revista Ruído Manifesto e O Navalhista.

Poesia

Nosso time

Nosso amor já foi
o estádio lotado;
o olé pra torcida;
o gol de placa.

Hoje
o meio de campo é nosso forte:
o passe lento
(e preciso)
a cadência de jogo;
o “toca-me e vou”
sem pressa.

Os tempos são outros,
meu bem,
mas nosso time
ainda bate um bolão.

Sua escrita é uma constante busca por pertencimento, expressando incômodos e reflexões. Inspirada em questões filosóficas, espirituais, ancestrais e LGBTQIA+, ela mergulha em temas como vida, morte, amor e desejo. Com formação em comunicação e especialização em escrita criativa, sua voz singular ecoa através das palavras. @carolina.ana.oz

Poesia

Plutão chegou a Áquario

no dia 20 de janeiro
plutão chegou a áquario
caindo como um explosivo
sobre nosso relacionamento

pedindo renovação
arcano XVI
a queda inevitável:
é das cinzas do ego
que nasce a consciência!

a solução vem do treze
passar por qualquer coisa
e se tornar mais forte

o segredo é o ritmo
embalar o outro
escolha complementar
encontrar o meio termo
sem anular o próprio ritmo

como num barco
o remo segue a corrente
do braço

como uma dança
pés sincronizados
o gozo ainda é
a única coisa
que o capital
não conseguiu

e a solução vem da morte.

Formada em direito em São Paulo e linguística em Berlim. Escreve prosa e poesia. Possui textos em antologias e revistas literárias. Publicou dois livros de poesia: Jipe Amarelo, Folheando, 2023 e Um milímetro e meio, TAUP, 2023 e um de contos: Pard’olhos, Folheando, 2024.

Poesia

Samstag

a mulher sentada no banco do parque esperando que sua espera acabasse
ouvia liszt saindo das mãos do jovem ao piano enquanto o sorvete com chocolate e pistache quase esquecido pelos ouvidos pingava na barra da sua saia.
ela não veria a mancha e a espera acabar

a chuva batia forte no vidro do carro. para-brisas
corriam sem completar o parar

debussy repetia a palavra como se fosse íntima
tal não soubesse diferenciar um ré de um fá
tinha importância? restava o sol
chave de claude

na estrada perde-se a faixa

o pensamento foge do foco
vapor de água
embaça o vidro
sem mãos para
esfregar

meu sorvete era baunilha