Pessoa com Experiência de Luto

Natural de Americana, SP. Lançou em 2024 o infantojuvenil “A fantástica aventura de Ferdinando e quem eu lá conheci” — vencedor do Prêmio Book Brasil nas categorias Melhor Infantojuvenil e Aclamado pelo Público. Participou de antologias de ficção e nesse ano lança a obra de realismo fantástico “Na estranha imagem entre nós”.

Poesia

Restauração

Subindo a escada da virtude
Afogo-me nos desejos dos outros
Cedo à tentação de ignorar as faces já esquecidas
Suplico a Deus para que não me perca de mim mesmo
Dos elementos que hoje me parecem estranhos
Mas que foram talhados no gabinete da minha história
Escondo a desordem por trás dos sorrisos contidos
Mas sempre me escapam as palavras


Nos meus cabelos ao vento
Deixo que me suma a estrada
Ignorando a fotografia da violência
Toca a melodia da alegria nos campos da tristeza esquecida
E continuam a me espetar
Mas estou detrás das camadas que não podem nem ver nem sentir
Nesse mundo tão meu
Só são convidados os que olham para dentro de mim

Daniela Muelas Bonafé

Escritora, artista, professora, militante dos direitos humanos, mãe, feminista. Apaixonada pela vida e pela poesia, tenho 10 livros publicados, o último é Rosas de Chumbo à venda por essa querida editora. Paulistana e sempre em movimento, gosto de experimentar e testar limites na Literatura.

Poesia

Gaza

são reféns eles dizem
no escuro não há corpo que tenha dona
a criança explode as partes voam
a testa não se lembra do carinho só voa
os dedos no bolo de aniversário voam
um dia a mãe cuidou para que ficasse limpa e forte
mas nem as roupas nem os dentes
um mar vermelho engole
e eu morta como elas faço poemas
não agradeço a deus pelos meus
é uma afronta: palavra alguma dá conta
são quarenta e dois quilômetros
quero o sono profundo de décadas
para os anos que já duram milênios
no lombo carrego também esse fardo
é pesado afundo no escombro e sangro as páginas
por favor ao menos a salvação do nome
mas não somos benditos
sentada na louça sanitária entregue e só 
meu rosto afundado entre as mãos eu já fui menina
pedimos socorro os braços se erguem 
a compaixão é uma benção
que nunca chega a galope
               [nunca chega]
relógios dinheiros fogos não param
só corações

Nasceu no Rio de Janeiro em 2000. Poeta e pesquisadora, é formada em letras pela Univates. Seu trabalho envolve autoras brasileiras com o projeto de clube de leitura Amavisse, também possui o perfil literário @leituramista onde fala sobre livros escritos por mulheres.

Poesia

Saudade

te sinto aqui ainda, enroscada nos meus pés
na minha visão periférica, ainda vejo você caminhar por mim,
uma sombra, um pulo
eu giro a cadeira, você não está.
acho que te ouvi, mas não te encontro

como faço pra te encontrar além dos meus sonhos?

te sinto aqui ainda, fico aliviada
por um momento e depois, não mais.
a saudade me come pelas beiradas
ainda sinto teu cheiro
ainda te espero,
apesar de saber que você não vai voltar
e eu sei onde está.

eu olho a janela, sinto um vento.
durmo torcendo
te ver de alguma forma,
a cama ainda está morna.

a saudade me arrebata a cada roupa que visto
toco em um pouco de você a cada pelo que encontro
o que me restou da saudade:
uma foto sua e uma tatuagem.

ainda te sinto aqui
você me sente, daí?

Encontrei na poesia uma forma de me expressar como jamais havia descoberto antes. Parece clichê e pode ser que ainda não estejam perfeitas, mas é algo que carrego comigo e sei que vai continuar fazendo parte da minha vida.

Poesia

Monotonia

Pensei hoje nessa vida, em como ela anda tão pacata ultimamente que já não consigo mais diferenciar os dias.
Não me sinto como antes, sinto como se eu não fosse eu, como se o mundo não fosse real, ele não parece real.
Sinto falta de uma realidade da qual já fiz parte, mas não me pertence mais. Uma realidade onde existiam momentos bons e eu podia usar a palavra “feliz” sem soar de um jeito falso.

Pensei em sair hoje, agora. 00:18 E eu queria sair, ir à Porto Alegre, caminhar pela rua dos Andradas e conhecer mais do museu Mário Quintana. Queria sentir a brisa do vento pelo meu rosto, sentir que estou ali, viva. Afinal, de que adianta viver se você não puder se sentir vivo? Me pergunto isso diariamente. Não sei direito o que é “viver” mas sinto que é algo fora do meu alcance, algo que desconheço já têm um tempo.

Talvez a definição de viver não esteja no dicionário
talvez esteja em você ou em mim, penso se em algum momento irei achar a real definição, se em algum momento eu sentirei que estou viva de novo
e não só mais uma pessoa andando pela cidade.

Rodrigo B. Moraes nasceu em Belém, Pará, em 1982. Ele já morou na Suécia, Áustria e atualmente mora na Bélgica. Rodrigo possui doutorado em Matemática Aplicada pela Universidade de Leuven, Bélgica. Em seu tempo livre, Rodrigo faz escalada esportiva, cozinha, escreve poesia, toca bateria e cuida de seus dois filhos.

Poesia

Dourada

Ela dança
sob a luz das luzinhas de Natal.
Douradas,
pequenas estrelas que cintilam
na parede que a emoldura.

O ar que a envolve faz-se palco. A madeira
aos seus pés range ao ritmo. Os móveis
da sala cedem lugar. A noite
fora da janela quer entrar –
Pois a Lua se esforçou, tentou de tudo…
A dançarina é mais bela,
Brilhante.
A Lua é de prata,
Ela é dourada.
A noite quer vê-la dançar.

A garota dourada de Klimt
veio à vida. Fez-se bailarina,
fez-se encanto.
Me olha nos olhos
e dança.

Só pra mim.

Filha do interior e criada pelos muitos cantos do Brasil. Sua poesia revela uma percepção profunda do mundo, que se entrelaça à complexidade do ser, transitando entre o delírio e a lucidez.

Poesia

Sou mar

Na maré baixa
Compartilho meus segredos
Minhas dores, meus medos

Sou beleza
Sou lazer
Sou alegría

Lua Nova,
Sou força,
Mistério e euforia

Guardo desejos,
Escondo segredos,
Que ecoam em minha cantoria

Sou fonte de fé,
De coragem,
De vida abundante e sabedoria.

Sou mar
Sou do mar
Sou maresia.

Sua escrita é uma constante busca por pertencimento, expressando incômodos e reflexões. Inspirada em questões filosóficas, espirituais, ancestrais e LGBTQIA+, ela mergulha em temas como vida, morte, amor e desejo. Com formação em comunicação e especialização em escrita criativa, sua voz singular ecoa através das palavras. @carolina.ana.oz

Poesia

Plutão chegou a Áquario

no dia 20 de janeiro
plutão chegou a áquario
caindo como um explosivo
sobre nosso relacionamento

pedindo renovação
arcano XVI
a queda inevitável:
é das cinzas do ego
que nasce a consciência!

a solução vem do treze
passar por qualquer coisa
e se tornar mais forte

o segredo é o ritmo
embalar o outro
escolha complementar
encontrar o meio termo
sem anular o próprio ritmo

como num barco
o remo segue a corrente
do braço

como uma dança
pés sincronizados
o gozo ainda é
a única coisa
que o capital
não conseguiu

e a solução vem da morte.