Mulher

Filha do interior e criada pelos muitos cantos do Brasil. Sua poesia revela uma percepção profunda do mundo, que se entrelaça à complexidade do ser, transitando entre o delírio e a lucidez.

Poesia

Sou mar

Na maré baixa
Compartilho meus segredos
Minhas dores, meus medos

Sou beleza
Sou lazer
Sou alegría

Lua Nova,
Sou força,
Mistério e euforia

Guardo desejos,
Escondo segredos,
Que ecoam em minha cantoria

Sou fonte de fé,
De coragem,
De vida abundante e sabedoria.

Sou mar
Sou do mar
Sou maresia.

Escritora contemporânea, escreve sobre gênero e suas multiplicidades. É paulista, mulher lgbt e pessoa com deficiência oculta. Mãe de pets e de plantas, atualmente, vive em São José dos Campos.

Poesia

Enxaguando a mente

Mãe, faz um pix?
Maria coloca roupa para lavar.
Maria, onde está meus sapatos?
Maria adiciona o sabão.
Mãe, o almoço tá pronto?
Maria enxagua.
Você devia ficar em casa no sábado com sua família.
Maria esfrega as roupas com rapidez.
Maria, você está lavando roupa de novo?

Submissa Maria não é
Mas retrucar pra quê?
Uma faísca pode gerar um incêndio
Maria não quer queimar nada
O que ela quer é paz.

É poeta, artista visual e designer gráfica. Tendo a poesia como fio condutor para suas experimentações, utiliza-se do rasgo, das dobras, das cisuras e costuras para criar imagens e versos. É autora do livro de poemas Parabólica publicado pela editora Patuá (2021).

Poesia

No dia em que a terra parou eu fui embora pra
[Pasárgada

Tomei o mapa num gole só e me inebriei de silêncios

Desconectados das redes globais, adormecidos todos os televisores, abandonados todos os carros

O calendário cansou de existir e pensou se não seria melhor ordenar suspiros

No dia em que a terra parou eu fui embora

Pra Pasárgada passar meus dias

Tomei a estrada num gole só e me inebriei de vento e orvalho

No dia em que a terra parou e tudo parou na terra

Eu vivi

Gestora Cultural e graduada em Rádio e TV. Atuou como Facilitadora de Histórias na Bienal do Livro de SP e foi indicada ao prêmio Expocom 2012. Colaborou com coletivos poéticos, teatro e produções audiovisuais. Estreou na literatura impressa em 2013 e foi finalista do Festival de Poesia de SP em 2015.

Poesia

Torta

Dobrei sem simetria outro papel
Mesmo seguindo a linha pautada
cortei mais acima da linha pontilhada
Outra vez

Acontece o mesmo com cobertores
Junto as pontas
me concentro e rezo
mas sempre pende uma ponta
Sempre não tão bom assim

Lençóis de elástico então!
simbolizam toda minha trajetória errante
Da batata muita casca
e outros crimes com tesouras sem ponta

Talvez eu continue escrevendo inclinado
em linhas desbotadas

A curva do rio nunca quis ser reta
Transborda o cinza que
teima em emergir retilíneo
onde a nossa natureza
só quer existir

torta

Tenho 20 anos e sou acadêmica de enfermagem da UEMA. Desde a adolescência, encontro nos livros um refúgio e uma fonte inesgotável de inspiração. Levo comigo o desejo constante de criar através das palavras.

Poesia

Espuma do mar

A primeira vez que vi o mar,
meus pés hesitaram na beira.
As águas violentas pareciam querer me consumir,
um azul inebriante, profundo,
como se não houvesse fim.
A cada minuto,
algo poderia emergir das profundezas
e me arrastar para o mais tenebroso fim.
A água estava fria,
não o bastante para calafrios na espinha,
mas fria o suficiente
para alimentar o medo que eu já carregava.
Essa é a palavra: medo.
Medo de virar espuma do mar,
Um medo infundado no mais escuro azul,
em contraste com a areia quente,
beijada pelo sol dourado.
E quando a lua chegou,
trazendo sua brisa suave,
a areia esfriou,
e o mar, enfim, se aqueceu.

Nasceu no dia 16 de outubro de 1987. Mora em Camaçari -Bahia. Escrever é uma grande paixão pessoal. Por muitos anos manteve seus escritos engavetados. Já participou de várias antologias.

Poesia

Meu jardim

Da janela do meu quarto
Fico admirando o meu jardim!
Com a chegada da primavera
Borboletas, voando de flor em flor
Trazendo encanto e alegria
E o perfume das flores
Exala por toda parte…

Nesse momento fecho os olhos
Respiro fundo e me entrego
A mais pura emoção e medito
As coisas mais simples da vida
Que realmente nos trazem felicidade
Esse sim é o verdadeiro sentido de viver.
Apreciar a natureza e a cada gesto singelo!

Envolvida por esse momento!
Começo a cantar minha canção preferida
E me sinto em outra dimensão
O nome disso, chama -se paz interior!
Como é bom se sentir assim
Olho pra dentro de mim,
E encontro uma nova razão de viver.

Uma felicidade me contagia!
Vou cuidar cada vez mais do meu jardim
Cultivar novas flores, no meu jardim
O perfume das flores, traz paz!
Cada dia que passa, sinto minha esperança renovada!
O amor preenche os meus dias!

Poeta e professora da rede pública municipal de São Paulo, trabalha na biblioteca como contadora de histórias e disseminadora da poesia.

Poesia

A grande ilusão

Aprendizados da maturidade:
conhecer os monstros pelos nomes
aguar as plantas na medida certa
recordar que os mesmos caminhos
já foram mais velozes

Escolher o melhor ângulo para posar
descascar com agilidade
livrar-me do medo do escuro
menos me acostumar a perder um grande amor:
é sempre como a primeira vez

Gaúcha, publicitária, escritora e mãe solo. Autora de dois livros infantojuvenis, dedica-se também à literatura de ficção autobiográfica. Escreve a partir da experiência, do que arde e permanece. Sua escrita é território de memória, de afeto e de coragem.

Poesia

Solo

A cidade girava — alheia ao seu ser.
Ela — estátua — atônita.
O metrô partia com seus pedaços,
e o tempo, tirano disfarçado de rotina.
Nos pés, a pressa herdada das urgências alheias.

Mãe solo. Não por ter gestado só, depois de uma relação falida,
mas por ser — dia após dia — esquecida.

Caminhava entre vozes que não a chamavam,
Queria — talvez — um toque. Um esbarrão.
Um sussurro casual que dissesse: “Eu te vi.”

Ela veste — a roupa que lhe cabe há oito anos:
sua personagem-mãe.

E há tantas… tantas Olívias por aí.
Que correm, como ela,
sem tempo de se esbarrarem.
Fortalezas ambulantes,
com trincheiras no peito.
Procurando por pertencimento.

Solo. No sentido mais humano da palavra.
Solo — entre o abismo da plenitude
e a margem da ausência.
A esperança — ainda que tênue
de reencontrar-se inteira.
Um dia. Quem sabe.

Sua escrita é uma constante busca por pertencimento, expressando incômodos e reflexões. Inspirada em questões filosóficas, espirituais, ancestrais e LGBTQIA+, ela mergulha em temas como vida, morte, amor e desejo. Com formação em comunicação e especialização em escrita criativa, sua voz singular ecoa através das palavras. @carolina.ana.oz

Poesia

Plutão chegou a Áquario

no dia 20 de janeiro
plutão chegou a áquario
caindo como um explosivo
sobre nosso relacionamento

pedindo renovação
arcano XVI
a queda inevitável:
é das cinzas do ego
que nasce a consciência!

a solução vem do treze
passar por qualquer coisa
e se tornar mais forte

o segredo é o ritmo
embalar o outro
escolha complementar
encontrar o meio termo
sem anular o próprio ritmo

como num barco
o remo segue a corrente
do braço

como uma dança
pés sincronizados
o gozo ainda é
a única coisa
que o capital
não conseguiu

e a solução vem da morte.

Formada em direito em São Paulo e linguística em Berlim. Escreve prosa e poesia. Possui textos em antologias e revistas literárias. Publicou dois livros de poesia: Jipe Amarelo, Folheando, 2023 e Um milímetro e meio, TAUP, 2023 e um de contos: Pard’olhos, Folheando, 2024.

Poesia

Samstag

a mulher sentada no banco do parque esperando que sua espera acabasse
ouvia liszt saindo das mãos do jovem ao piano enquanto o sorvete com chocolate e pistache quase esquecido pelos ouvidos pingava na barra da sua saia.
ela não veria a mancha e a espera acabar

a chuva batia forte no vidro do carro. para-brisas
corriam sem completar o parar

debussy repetia a palavra como se fosse íntima
tal não soubesse diferenciar um ré de um fá
tinha importância? restava o sol
chave de claude

na estrada perde-se a faixa

o pensamento foge do foco
vapor de água
embaça o vidro
sem mãos para
esfregar

meu sorvete era baunilha