Mulher

De voz visceral e instintiva, sua escrita pulsa entre silêncio e desbordamento. Corpo, terra, desejo e formas indomáveis de existir ressoam entre o selvagem e o contido, em miragens que rasgam e acolhem. É também artista visual e criadora da Norteia — teia de livre experimentação com palavras.

Poesia

Alambrado

farejei a seiva,
rastejei o chão,
senti o pulso da terra onde jaz meu bicho solto.

nem cabe
(e eu não cabia),
não cabia — e me apequenei.

desfiz-me nas margens,
onde o solo se estende como promessa
e a carne se dissolve no infinito
da mudez de um corpo que nunca antes.

o vento
me sussurra antigos mistérios
de minha dança selvagem em desatino voraz.

nem cabe, pensei,
(e eu não caberia)
nos limites de um corpo que já não é meu.

fui minha própria cerca, fui o arame,
fui o vazio que me preenche.

sou o pulso. sou a seiva.
sou o sussurro do vento.

permaneço com olhos de fúria
e a terra que me abraça em silêncio.

Neta de uma poeta que lhe ensinou que as palavras são refúgio. Jornalista apaixonada por histórias reais e inventadas, escreve para não se perder. E talvez, para se reencontrar.

Poesia

Novelo de lã

Os fios não
o são dela.
Nem dela.
Minha mãe deixava mantas pela metade:
pontos soltos,
carretéis esquecidos na mesa.
Começava vestidos que nunca vi prontos,
linhas que se perdiam no tempo.
Às vezes penso que herdei isso dela,
essa vontade de fazer
e a dificuldade de concluir.
Minha avó não sabia costurar.
Mas escrevia.
E sonhava como quem ficava com palavras soltas.
Como um emaranhado de fios,
vou tentando puxar um por um.
Uns apertam.
Outros se desfazem só de encostar.
Tentei puxar.
Me enrosquei.
Tentei esquecer e me perdi

O coletivo de escritores Insurgências Literárias surgiu após o evento “Sextas Culturais, Artes Presentes no Campus XI: Sarau Poético” na UNEB – Campus XI, Serrinha/BA, quando se percebeu a necessidade de dar visibilidade à produção literária regional. Fundado em 7 de julho de 2023, o grupo busca compartilhar, valorizar e divulgar escritores locais, promovendo a literatura e incentivando novos talentos.

Poesia

Eu sou resistência

Quando me veem na luta
e gritam: “guerreira!”,
sinto o peso do cansaço, o descompasso,
a bagagem do mundo inteiro.

Anseio o descanso, o silêncio,
abraços que não me exijam coragem.
Mas afeto, amor, acalento.
Desejo ser humana!

Quero olhar no espelho e enxergar dentro da alma,
sentir que nada mais me falta.
Olhar pro presente e poder ser quem sou!
Sem amarras e armaduras, curadas as feridas,
sentindo o sabor da justiça.
Só assim poderei descansar!

Caindo, mas levantando, desfaço a tradição
de que minha cor não tem valor.
Mas não deixarei de lutar, por espaço, voz, direito,
Por respeito!

Afinal, é minha sina!
Jamais desistir, por determinação ou desobediência,
Sigo quebrando com a discriminação.
A minha arte é potência.
Eu sou resistência!

Daniela Muelas Bonafé

Escritora, artista, professora, militante dos direitos humanos, mãe, feminista. Apaixonada pela vida e pela poesia, tenho 10 livros publicados, o último é Rosas de Chumbo à venda por essa querida editora. Paulistana e sempre em movimento, gosto de experimentar e testar limites na Literatura.

Poesia

Gaza

são reféns eles dizem
no escuro não há corpo que tenha dona
a criança explode as partes voam
a testa não se lembra do carinho só voa
os dedos no bolo de aniversário voam
um dia a mãe cuidou para que ficasse limpa e forte
mas nem as roupas nem os dentes
um mar vermelho engole
e eu morta como elas faço poemas
não agradeço a deus pelos meus
é uma afronta: palavra alguma dá conta
são quarenta e dois quilômetros
quero o sono profundo de décadas
para os anos que já duram milênios
no lombo carrego também esse fardo
é pesado afundo no escombro e sangro as páginas
por favor ao menos a salvação do nome
mas não somos benditos
sentada na louça sanitária entregue e só 
meu rosto afundado entre as mãos eu já fui menina
pedimos socorro os braços se erguem 
a compaixão é uma benção
que nunca chega a galope
               [nunca chega]
relógios dinheiros fogos não param
só corações
Alice Puterman

Nascida em 2002, no Rio de Janeiro. Algumas coisas me definem: uma longa batalha contra a doença mental, a sobrevivência às violências sexuais, e a deficiência. Não mais do que tudo e todos que amo. Sinto saudade. Ponto. Saudade de tudo. Aquele misto de afeto com dor, sabe? Acho que se eu fosse um sentimento, é este que eu seria. Talvez, eu já seja. Candura — uma história de sobrevivência feminina, é seu livro de estreia (TAUP, 2025).

Poesia

só vou morrer
depois que
uma voz gasta
rouca
e sem dono
escorrer boca afora

a mesma boca
que quando esperava um primeiro beijo
foi usada de tantas outras maneiras
e ficou com um não regurgitado na garganta
sem cuspe

que esta boca
espante toda
palavra morta
e parte imunda
que entala como grão de areia após a praia
em quinas sombrias da sala de estar

vou urrar até a dor se render
até minha voz virar eco
e eu rasgar
cada caco de mim
que se culpa
por homens que tomam corpos
e brotam dores

só saio dessa vida
com a garganta em carne viva

Nasceu no Rio de Janeiro em 2000. Poeta e pesquisadora, é formada em letras pela Univates. Seu trabalho envolve autoras brasileiras com o projeto de clube de leitura Amavisse, também possui o perfil literário @leituramista onde fala sobre livros escritos por mulheres.

Poesia

Saudade

te sinto aqui ainda, enroscada nos meus pés
na minha visão periférica, ainda vejo você caminhar por mim,
uma sombra, um pulo
eu giro a cadeira, você não está.
acho que te ouvi, mas não te encontro

como faço pra te encontrar além dos meus sonhos?

te sinto aqui ainda, fico aliviada
por um momento e depois, não mais.
a saudade me come pelas beiradas
ainda sinto teu cheiro
ainda te espero,
apesar de saber que você não vai voltar
e eu sei onde está.

eu olho a janela, sinto um vento.
durmo torcendo
te ver de alguma forma,
a cama ainda está morna.

a saudade me arrebata a cada roupa que visto
toco em um pouco de você a cada pelo que encontro
o que me restou da saudade:
uma foto sua e uma tatuagem.

ainda te sinto aqui
você me sente, daí?

Encontrei na poesia uma forma de me expressar como jamais havia descoberto antes. Parece clichê e pode ser que ainda não estejam perfeitas, mas é algo que carrego comigo e sei que vai continuar fazendo parte da minha vida.

Poesia

Monotonia

Pensei hoje nessa vida, em como ela anda tão pacata ultimamente que já não consigo mais diferenciar os dias.
Não me sinto como antes, sinto como se eu não fosse eu, como se o mundo não fosse real, ele não parece real.
Sinto falta de uma realidade da qual já fiz parte, mas não me pertence mais. Uma realidade onde existiam momentos bons e eu podia usar a palavra “feliz” sem soar de um jeito falso.

Pensei em sair hoje, agora. 00:18 E eu queria sair, ir à Porto Alegre, caminhar pela rua dos Andradas e conhecer mais do museu Mário Quintana. Queria sentir a brisa do vento pelo meu rosto, sentir que estou ali, viva. Afinal, de que adianta viver se você não puder se sentir vivo? Me pergunto isso diariamente. Não sei direito o que é “viver” mas sinto que é algo fora do meu alcance, algo que desconheço já têm um tempo.

Talvez a definição de viver não esteja no dicionário
talvez esteja em você ou em mim, penso se em algum momento irei achar a real definição, se em algum momento eu sentirei que estou viva de novo
e não só mais uma pessoa andando pela cidade.

Mineira de Belo Horizonte e viajante do mundo! Que sonha em fazer um poema com objetivos diretos como o orvalho e o rio que se entoam naturalmente!

Poesia

Rio Verde

Aprofundar-te seria perder…
E era como um segredo
cortar-te ao meio, cegar-te
voluptuosidade clandestina
fazer de conta que era mistério
que a realidade acontecia nua
inundando o desejo
incrustado em seu chão transparente, era estesia!

Magicamente, algo nos vigiava atento
a memória esvaziava, a fantasia vinha
e o silêncio eclodia.

E era como fogo
sede-sedução
alimento orgânico
gorjeio desenfreado.

Querer-te seria morar-te
olhos verdes
Rio Verde.

Professora licenciada em Letras Vernáculas com Língua Estrangeira Moderna (inglês) pela Universidade Federal da Bahia (2012), Mestra pelo Programa de Pós-graduação em Literatura e Cultura da Universidade Federal da Bahia (2016) e Doutora em Literatura e Cultura pelo mesmo programa (2024). Uma amante das letras e do conhecimento!

Poesia

Árvore bonita

Para minha irmã

Árvore frondosa de profunda raiz
A seiva bruta de ariana te alimenta,
Teus galhos fortes com agilidade e altivez
Abrigam, criam, inventam e sustentam
Passa raio, trovão, tempestade
Inundação, estiagem, alegria, tristeza
Árvore de aroeira é dura e cura
Bem plantada não tomba
Raiz profunda não deixa.

Nasceu da invencionática. Estudou a informática. Aprendeu a ter preguiça do corpo, da vida comunitária e mergulhou na tecnologia. Adoeceu, virou do avesso, reencontrou o corpo, as pessoas e a escrita. Esse é o primeiro poema que publica, fruto de muita ação poética na vida. Instagram: @maricomdoisn

Poesia

Ser-desejo

Eu desejo que quando eu estiver aqui,
eu esteja de todo coração
E quando eu estiver lá,
eu esteja de todo coração

Desejo que nada que me
atravesse me faça falta a ponto
de eu não conseguir
verdadeiramente me sentir
presente

Atravessamento é semente
Que a abundância seja evidente

Que consciente esteja eu
Que o necessário seja Deus
Este que é cada gota e que é
também o oceano