São Paulo

Margarida Montejano

Margarida Montejano, uma catadora de sentidos e palavras! Tudo em sua vida vira prosa e poesia. Autora dos livros: “Fio de Prata”, Ed. Siano, em 2022; “Chão Ancestral”, Ed. TAUP, em 2023 e, do livro infanto-juvenil, “A Poeta e a Flor”, Ed. Siano, em 2024. Doutora em Educação, servidora pública municipal em Campinas, SP.

Poesia

DESAPEGO

Ação consciente – tomada de decisão
Hora de retomar o controle de si
guardar as boas memórias
desapegar de desimportâncias
Ressignificar o seu tempo
sem desqualificar o passado
Relembrar o vivido com respeito
viver o presente como presente
pois o tempo passa depressa e a vida
numa fração de segundo se esvai
Vira o ponteiro da história e acaba-se o mundo
Respire fundo
Mais tarde tudo lhe fará sentido
Somos presentes vivos
tal qual a flor
tal como as águas da fonte jorrando
a escrever a história e seguir
sem temor
amando
Se há outra vida? Não importa
O que vale é que a vida floresce
na rachadura do asfalto
na secura do deserto
No desapego
Consigo, siga

Mandacaru

Mandacaru floresceu em meio à dificuldade, nas noites de inverno. Agora agarra-se à vida como ao Sol, e lança suas palavras ao vento.

Poesia

O peso em horas

O nó prende as palavras
O vidro desfoca e faz doer
O pêndulo pesa e desinfla
A bobina insiste em correr

Mexa o travesseiro murcho
Deixe o óleo escorrer
Um interior que ferve
Adormece ao derreter

O nó prende as palavras
Cada dobra faz ranger
O sino já desafina
A bobina vai correr

Feito para funcionar
Sem saber o que fazer
Um relógio tão cansado
Não se lembra de bater

Lilian Zub

Lilian Zub é entusiasta da escrita. Gosta de escrever sobre o amor porque quase sempre é o tema mais interessante para quase todo mundo. Afinal, se a beleza da vida não está no amor em si, está no amor que temos por todo o resto.

Poesia

Parte

Eu, inteira
Você, parte

Você não me quer inteira
Só gosta de uma parte
Tenta me partir
E parte meu coração

E do inteiro incrível que sou
Você não faz parte

Laila Angelica Moraes

Laila Angelica Moraes nasceu em Votuporanga-SP. Professora, Pedagoga, Escritora, Pesquisadora e Revisora Textual. Tem textos publicados nas Revistas Mallarmargens, Ruído Manifesto e Sucuru. Coautora de várias Antologias. Autora do livro de poesias “Poememórias” (2021) pela Editora Expressividade. Possui a coluna “Desalinhos Poéticos” na Revista Ikebana. Acadêmica da ACILBRAS, ABRESC, NALAP e ALIPE. Instagram: @lailamoraes30

Poesia

Amigos e amantes

Em seus doces abraços,
encontro-me.

Seus doces e aromáticos
beijos de morango,
afagam a minha alma.

O som de seus batimentos,
são como uma sinfonia
que aquecem o meu corpo.

O balanço das ondas
de seus negros cabelos,
me enlouquecem,
quando posso tocar
docemente.

Minhas pupilas
se dilatam
com o seu
sorriso maroto.

Me enlouquece
o seu toque em meu rosto.

Karina Ruiz

Apaixonada pelo universo das linguagens, Karina Ruiz escreve poemas, microcontos e crônicas. Em 2024 publicou alguns de seus textos em coletâneas das editoras Invicta, Lura e Peculiar. É licenciada em Letras (Unesp) e mestra em Literatura (UEM). Também atua como professora de língua portuguesa, revisora de textos e coordenadora do curso de Letras EaD da Unifev.

Poesia

A gaveta das palavras

Fechadas a sete chaves,
as palavras alegram-se
agora sendo vistas.

Do universo do gaveteiro,
sorriem calmas
à espera da destrava:
a ancestralidade
a infância
a adolescência
a juventude
a vida adulta
a velhice vindoura…

Acanhado no fundo do móvel,
outro microcosmo das letras
aguarda silencioso a sua vez:
o caderninho azul,
com as histórias que
me habitam.

Abro suas páginas e
elas pulsam nestas linhas
entrelaçadas e tecidas
como os bordados
que mamãe fazia
quando eu era pequenina.

Julia Roque

Julia Roque é estudante de Letras pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), professora de línguas, escritora e contadora de histórias.
Uma leitora voraz, desde criança, possui alguns textos publicados em revistas como Revista Ruído Manifesto, Revista Sucuru, além da Antologia Nós do Selo Off Flip (2023).

Poesia

anarcadium occidentale

meu amado cajueiro
quero crescer contigo
sufocada em seus desejos
na intensidade das coisas que se atiram em
nós
sou a mão que se leva ao
alto
em busca do fruto azedo
que encontra o mel da
folha
mas não arrisca
deleitar
que foge atormentada
envergando os
ganhos
ao vento
que se contenta
com o caroço

Guilherme Balarin

Guilherme Balarin mora em Pindamonhangaba, interior de São Paulo; formou-se em publicidade e propaganda; é empresário, escritor, fotógrafo amador, membro da Academia Pindamonhangabense de Letras. Autor do livro de haicais Entre Monções, publicado pela editora Toma Aí Um Poema em 2023. Instagram:@guilebalarin

Poesia

Serei, eu mesmo, o que será

Era o banco que me sentava,
era a cama que me deitava,
era o corpo que me doía,
era a alma que me benzia.
 
Era tudo ao contrário 
do contrário do inverso.
Um universo temerário.
Fui larva, fui pupa, sou disperso.
 
Livre de sonhos intranquilos,
preso em eterna metamorfose,
tropeço em cacofonias.
Assobios, gemidos e sibilos.
 
Não sou gente que já fui,
nem gente que sou que continuaria.
Nada sei do tempo que flui,
certo da saudade que sentiria.
 
Deixarei quebradas poesias preferidas,
cacos vários de pontas e cortes.
À vivência de tantas dores e vidas,
a certeza de outros amores e mortes.
Eduardo Worschech

Eduardo Worschech, nômade literário, transita sem titubeios pelas vias da educação, velejando no mesmo barco dos filósofos e a estibordo dos poetas. Formado em filosofia pela Unesp, Mestre em Educação pela UFSCar.

Poesia

Nem Sempre as Nuvens são tão Claras

Ainda anteontem estive pensando no dia de amanhã, acabei tropeçando em minhas angústias e vim parar no fim da fila.

Insisti na minha estima, que um dia poderia me ferir, e fez mais do que muito, pois me colocou de corpo todo do lado de cá desta linha que não tracei.

Entre vontades e compulsórios, o destino é bastante forte em escolher para mim um belo desastre, sem atrocidades, mas com doses generosas de comédias onde o riso é amarelo.

Euforia pelo esperado, não parece ser assim que alguém desejaria conviver, no caminho mais longo desta trajetória curta.

Em uma sina de se autoflagelar emocionalmente, nunca optei pelo pior, contudo, parece que a água do mar mal consegue cobrir meu corpo, quando adentro este oceano.

Num olhar denso mas que se esgueira do fogo do real e a brasa que alimenta o calor da inquietação, instrui-me sobre as severas queimaduras as quais estaria sujeito; e mantive os caminhos fechados ao trânsito livre da paixão.

Ao tempo que consome, não há crepitação que possa se assemelhar as batidas do coração, com seu compassado afago diante do inesperado.

Ir direto a um ponto com certeza não é como lançar um dardo contra uma imensa previsão, pois ao fardo que carrega na escuridão, com menos certeza se tem de sua própria sujeição.

Se quaisquer que fosse o momento daquela massa de ar frio entrar em confronto contigo, certamente a abundância tomaria o lugar daquela sala vazia, donde o assoalho ainda continua molhado.

A Mercê de seu Olhar

Ao mecanismo da imitação, incrível maquinaria de suposições e assemelhamentos, de liberdade limitada ao poético do olhar, que parece emergir sem espectro de manifestação sentida, que faz com que varie-se os fatos, a depender deste olhar que vê.

Olhos que de fato veem invertido, como já sabido por Leonardo da Vinci; falta então a não óbvia decifração, que aos gregos já era conhecida esta presença magistral, como figura mítica, que devorava todo aquele que simplesmente via, sem de fato entender.

Transcendência física e espiritual, através da janela que se abre, é possível avistar tudo aquilo que a penumbra espessa das memórias não recobre, e em otimismo realista, pode-se ressignificar o antes visto como um novo amanhecer.

Não sem um impacto floreado, este jogo torna-se duplamente exaustivo, pois cada passo faz enrijecer esta prisão relacional, enquanto que a liberdade vem gradeada por um encanto nada saudável, de fluxo ansioso de paradoxal estabilidade.

Soma-se a isso um frágil equilíbrio, composto de linhas invisíveis que sobredeterminam padrões de fragmentação, beleza demarcatória de um cristal, e como um impacto faz emergir suas linhas de clivagem; pressão e reação, estrutura da personalidade em um piscar.

Quão incompleto pode ser o imagético fruto dos resíduos mnemônicos ópticos, pois sua materialidade só ganha musculatura na presença da língua falada, da escolha nada consciente das palavras.

Está provável e possível superação pela ruptura com as resistências neuróticas, fator de impedimento das vontades livres, produz um efeito emancipatório no desejo, e capacita o indivíduo em suas potências de elaboração; menos vulneráveis aos estímulos visuais.

Ao redesenhar o todo visto em palavras, os afetos puderam pouco a pouco se rearranjar, tornando passível de ser sentido, sem que toda uma cobertura idealista pudesse subsumi-la.

Ao temor do amor, perde-se força, pois tê-lo descoberto de suas marcas indeléveis, guardadas com esmero por insuspeita proteção, fez com que as portas novamente pudessem ser abertas; e a luz mais uma vez triunfou, chocando-se finalmente com seus desígnios essenciais.

Diego Martins do Nascimento

Diego Martins do Nascimento nasceu no dia 31 de agosto de 1988 em Itaquera, Zona Leste da cidade de São Paulo. Autor de livros independentes como “Versos Morfinos” e “Lucidez Onírica”, e também coautor das antologias: “O amor é um grito”, “Poesia livre”, “Viva poesia (Bienal RIO – 2025)”, “100 poetas vivos” e “Eu vi”.

Poesia

Ressurreição eterna

Ante o valor insignificante do sangue
Em presença do universo
A existência incisiva e incompleta
Observa o abismo que a assombra
Onde algo aflige nosso ser

Tecer expressões na pálida folha
Poetizar o insano e onírico
Personificar seus ecos
Dar existência aos silêncios
Vislumbrar uma ilusão
Usufruir da visão maldita e sublime
Perceber a ausente distinção frente ao nada
Pois toda face se turvará as cinzas de seu tempo

Entretanto mesmo que o sonho se deforme
Eleve-se
Ande na fonte de seu espelho
Beije a obscura raiz de seu grito
Afinal somos seres da ressurreição eterna

A orla do abismo

Sou dançarino do precipício
Bailando entre vertigens e murmúrios
Onde a razão se desfaz em brumas
E o coração pulsa ao ritmo do invisível

Há beleza na queda que pressinto
Há música na margem do caos
E mesmo que os céus se calem
Dançarei
À orla do que sou
À beira do que temo
À sombra do que busco

Daniela Camargo de Oliveira

Daniela Camargo de Oliveira é medica e escritora em formação na Escola de Escritoras de Débora Porto, com poemas e contos publicados nas coletâneas . Seu primeiro livro publicado foi MOVIMENTOS, pela Editora Minimalismos em 2024.

Poesia

ESCRITORAS

Sim já somos!
Ainda que não escutem, ainda que não leiam.
Já somos, já dizemos. Escrevemos.
Em grandes caldeirões, misturamos letras
E medos, amores, sensações,
Cozinhamos o ódio que nos mirava do alto das colinas.
Ódio que nos queimou vivas,
Enquanto nossas palavras
Sobreviviam em nossas filhas e cadernos de receitas.
E não buscávamos nada além
Da necessidade de resistirmos por nós mesmas,
Nossas existências, nossas mínimas necessidades
E por todas as outras que vieram
Já transformadas em cinzas ou não,
Já doutrinadas e envernizadas ou não,
E pelas que viriam, bruxas em seus quintais,
Com seus banhos e infusões,
Mulheres que diziam, ousadas,
Em um mundo adverso.
Mulheres que liam, falavam, ouviam e discordavam.
Mulheres que se permitiam orgasmos,
Mulheres que seriam apedrejadas,
Rebeldes, inadequadas. Mulheres libertas
E suas palavras… Sim, já somos!