poeta vivo

Marison Ranieri

Com graduação em Letras e pós em Escrita Criativa, Marison Ranieri tem publicações em revistas literárias e acumula seleções em prêmios literários e antologias. Em 2024, publicou “Meu corpo é lar de absurdos” pela Editora Flyve. Sua escrita quase sempre se mistura ao mormaço de Recife.

Poesia

No espaço, ninguém pode te ouvir rimar

Anos-luz diante de mim,
Se houvesse quem ouvisse,
Até a sinapse ecoaria
E mais alto eu pensaria
Se alguém reclamasse.
Se houvesse quem ouvisse,
E quisesse meu mal, faminto,
Com forquilhas de afeto,
Eu percorreria galáxias frente e verso,
Posto que não sou extinto.
Se houvesse quem ouvisse,
Eu saudaria este canalha
Com as mãos na garganta,
E o detestaria com o amor de um pai
Que atira os piores adjetivos ao filho,
Mas jamais o abandonaria,
Pois sabe que o silêncio,
Este buraco negro,
Devora mais que o ódio.

Marina Faloni

Marina Faloni é natural de Frutal-MG. Graduou-se pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. Atualmente, trabalha com direito à moradia e direito urbanístico. Desde a adolescência, tem a escrita como refúgio.

Poesia

Broto

Você me pediu um poema.
Eu rio. E um rio
sacode as tripas por dentro.

Será que alguma flor brotou no seu peito?
Será que ela brotou antes de eu brotar?
Ou eu brotei e um ramo espinhoso rasgou o seu peito?

Te rasgaram a barriga também.
Alguém te perguntou?
Você quis isso?
A barriga cortada
Eu brotando
O espinho rasgando o peito
Você quis isso?

O sistema te fez seguir?
O casamento foi por amor?
Alguém te disse que não querer
pode ser um desejo?

Se você pudesse escolher, ia querer?
Você não podia escolher.
Mas um dia você gritou que quis
e eu nunca mais perguntei.

Maria José de Melo

Maria José de Melo é natural de São Caitano, município do Agreste de Pernambuco e atualmente reside em Jaboatão dos Guararapes (PE). É escritora, geógrafa, colunista e poetisa. Autora do livro: A Renda Fundiária na transposição do Rio São Francisco (Índica/2021) e A Jitirana Poética (Toma Aí Um Poema/2023).

Poesia

RECIFE DO MANGUE BEAT

Recife é a Veneza Brasileira
Com suas belas pontes
Expendida na beleza
Do encontro do rio com o mar
Recife, berço cultural na tradição nordestina
Nas veredas da poesia popular
Ela é braba e regional

Recife, na inconformidade de uma cidade lama
Na insularidade social, fez-se ilha e desigualdade
Recife se fez ponte sobre o mangue
Enaltecido no ritmo, no som e na melodia
Do Mangue Beat

O caranguejo com cérebro
Anunciou miséria e caos
Fruto de um movimento vivo
O manifesto que misturou o tradicional com o moderno
Assim, Recife deixou de ser marasmo cultural

Recife, poesia viva
No circuito regional e universal de
Naná Vasconcelos, Luiz Gonzaga, Ariano Suassuna,
Clarice Lispector, Celina de Holanda,
Joaquim Cardoso e cia
Assim, nossa identidade nos faz regionalista.

Margarida Montejano

Margarida Montejano, uma catadora de sentidos e palavras! Tudo em sua vida vira prosa e poesia. Autora dos livros: “Fio de Prata”, Ed. Siano, em 2022; “Chão Ancestral”, Ed. TAUP, em 2023 e, do livro infanto-juvenil, “A Poeta e a Flor”, Ed. Siano, em 2024. Doutora em Educação, servidora pública municipal em Campinas, SP.

Poesia

DESAPEGO

Ação consciente – tomada de decisão
Hora de retomar o controle de si
guardar as boas memórias
desapegar de desimportâncias
Ressignificar o seu tempo
sem desqualificar o passado
Relembrar o vivido com respeito
viver o presente como presente
pois o tempo passa depressa e a vida
numa fração de segundo se esvai
Vira o ponteiro da história e acaba-se o mundo
Respire fundo
Mais tarde tudo lhe fará sentido
Somos presentes vivos
tal qual a flor
tal como as águas da fonte jorrando
a escrever a história e seguir
sem temor
amando
Se há outra vida? Não importa
O que vale é que a vida floresce
na rachadura do asfalto
na secura do deserto
No desapego
Consigo, siga

Marcone Rocha

Marcone Rocha nasceu na cidade de Fervedouro, Minas Gerais. Ainda na infância desenvolveu uma relação profunda com a poesia. Graduado em Direito e Letras, autor do livro “O Menino e o Rio – Uma celebração a Vidas Extraordinárias”, explora de forma lírica e poética as complexidades, revelando o extraordinário nos momentos simples da vida.

Poesia

Meio-claro

No silêncio das sombras, o homem caminha sozinho.
Carrega o peso do amor que não pode ser seu.
O coração pulsa forte, mas a tristeza o domina.
Como uma chama que reclina, esse amor é proibido.
Um amor que floresce num terreno tão alheio,
Como um sol que não pode tocar a lua à noite.
Entre suspiros e segredos, ele guarda um desejo.
Ainda que na penumbra da noite, ele chore sozinho,
Ele ama em silêncio, feito um poeta de amor clandestino.

Manoel Lima

Manoel Lima é poeta e músico de Curitiba-PR.
Escreve desde o Ensino médio.
As inspirações vem das vivências da periferia, leituras e as ideias que surgem do ócio.

Poesia

Sol Carmesim

E por essas terras sul-americanas,
Que buscava-se o “vermelho como brasa”,
A tintura do pau-brasil.
Para alguns: riqueza,
Outros: sangue.
De quem podia escolher.
O passado arde como lembrança vívida.
Nossa terra de carnavais e dores,
Mais uma vez embrasa,
Sob as asas desse solo, que és mãe gentil.
Quantos tecidos foram tingidos?
E quantos foram os atingidos?
Até o céu está mudado.
Entre fumaças e cinzas.
Na aurora um novo Sol.
Sol Carmesim.
Será um presságio?
Mais uma vez descobertos,
Dessa vez, por nós mesmos.
Aceita uma última dança?

Mandacaru

Mandacaru floresceu em meio à dificuldade, nas noites de inverno. Agora agarra-se à vida como ao Sol, e lança suas palavras ao vento.

Poesia

O peso em horas

O nó prende as palavras
O vidro desfoca e faz doer
O pêndulo pesa e desinfla
A bobina insiste em correr

Mexa o travesseiro murcho
Deixe o óleo escorrer
Um interior que ferve
Adormece ao derreter

O nó prende as palavras
Cada dobra faz ranger
O sino já desafina
A bobina vai correr

Feito para funcionar
Sem saber o que fazer
Um relógio tão cansado
Não se lembra de bater

Malu Baumgarten é jornalista, fotógrafa, autora do livro bilingue A poesia da hora braba (2023, ed. Bestiário). Participa de antologias de poesia e prosa pelo Brasil. É uma das criadoras do site Nós e Outras (noseoutras.com), que divulga a arte da mulher desde 2020. Faz parte do coletivo Enluaradas e do Mulherio das Letras. Vive em Toronto, no Canadá e não come animais.

Poesia

Arbustos de pernas grossas

Procurei por ele na estrada escura. Tinha de tudo que o afeto pode oferecer. Laranjas e pêssegos, mirtilos separados para não amassar, um desejo enviesado no peito. Ao longe, no fim do caminho, a casa. Muito a caminhar no dia nublado, um dia, quantos, uma vida? Vesti-me de vermelho para que me visse ele, e sua sombra ofuscava o sol, as orelhas pontiagudas mescladas nas árvores, a fumaça da casinha lá distante, um nunca chegar. Pensava nele e arrepios percorriam-me o corpo, a boca grande, os dentes pontudos, as costas largas do tamanho do mundo onde queria deitar-me e esfregar a pelugem eriçada, alimentar sua fome uma fruta de cada vez, sentir sua língua áspera nas pontas finas de meus dedos. À casa, com seus olhinhos inocentes, não queria chegar. Melhor o medo, o escuro da trilha, a vegetação retorcida, arbustos de pernas grossas. O cheiro dele enchia o ar, eu o respirava e queria, e o que queria não sei.

Joguei ao chão minha capa vermelha, tirei as botinhas de cano, libertei meus pés inchados. Deitada na capa levantei o vestido branco até a barriga, a cesta de frutas descansada ao meu lado, lambuzei-me do azul de mirtilo, adormeci no calor da tarde. Ele chegou-se com cautela, a cheirar-me o rosto com sua fuça molhada. Fartou-se de pêssegos carnudos, lambeu-me ternamente a entreperna, a língua tosca e tão longa procurando vãos e saliências na medida exata do desejo oferecido. Manso, deitou-se ao meu lado quando caía a noite, aqueceu meu corpo com o seu. Aconcheguei-me e sonhei que chegava finalmente à casa, a sombra dele obliterada pelo sol, a estrada negra agora ladeada de verdes, colorida de flores. Dentro da casa uma velha morta me encarou de olhos arregalados, e os olhos gritavam, vai filha, atrás da vida, antes que ela te devore.

Os pés de meu pai

Nunca toquei os pés de meu pai. Morenos
de sol, plantados no chão do barco,
longos e magros, seguros no viver,
eram bonitos os pés de meu pai.

As mãos de meu pai, nunca peguei
só por afeto, nem ele as minhas.
Mas não falsearam a ofertar-me o prumo
no balanço traiçoeiro do Huracán,

prontas a parar-me a queda, os pés firmes
na popa do veleiro, olhos negros que viam
longe e não me viam, os olhos dele

mais além. Sua voz dizia o mundo, do Rio Grande
à Rússia vermelha, do jazz à milonga triste, meu pai,
um homem qualquer.

Mabelly Venson

Mabelly Venson é uma matemática que se apaixonou pela escrita. É parteira de livros na Editora Toma Aí Um Poema e autora de “Tudo Que Queima”, “apenas mãe” e “GELO”, obras que focam nas complexidades do ser mulher.

Poesia

Confissão a Netuno

Lembra

as ondas quebrando na costa do atlântico sul
os menininhos construindo palácios sob o voo das aves marítimas
nossos lábios ardendo de suor                   e sal

Foi quando você me disse     :não se aproxime

engoli o afogamento sinuoso dos sonhos
o farfalhar da melancolia
a confissão do desespero

foi por isso que fiquei com os olhos presos no canto da sereia                  (e emudeci)

Era agosto                        era você
                       e a rede

Eu vi você cruzando a borda do mar
eu vi você na embarcação de vinte e três pés
eu vi a teia de luz invadindo seu corpo         impenetrável
eu vi o espaço tênue entre o sonho              e a batalha

você

metade devoção metade agilidade
metade medo metade cobiça
metade homem
             metade rei

Luiz Gustavo de Sá

Luiz Gustavo de Sá mora em Niterói-RJ. Foi pré-selecionado na Edição de 2018 do Prêmio Sesc de Literatura e semifinalista do Prêmio Pena de Ouro (2022) da Casa Brasileira de Livros. Publicou os livros de contos “Parafernália” (Editora Itapuca) e “Ninguém está olhando” (Editora Penalux); e o romance “Na dúvida, é melhor não mentir” (Editora Penalux)

Poesia

Pela sombra

Não vou pela sombra,
sou do contra,
disfarço,
dou meia volta,
me perco de vista,
faço questão do acaso.

Não vou pela sombra,
estremeço,
sou quase tonto
procurando um endereço,
onde possa viver sem culpa
sendo feliz do meu jeito.

Não vou pela sombra
prefiro ficar atento,
faço o que for possível,
conto os meus passos,
recito placas de carros,
recorro a rimas raras,
o que for preciso, faço
para curar essa ressaca
para encontrar o que basta
ao sol a pino me arrisco.