poeta vivo

Sávyo Fernandes

Sávyo Fernandes é natural de Catolé do Rocha/PB e se encontrou escritor em Janduís/RN, cidade onde reside atualmente. Graduado em História pela UERN e roteirista de produções audiovisuais. Publicou Naturália Psicótica (2021) e participou da antologia Nordestes (2023), lançada na FLIP, com o texto “Cordel de Facas”.

Poesia

A PARTEIRA

Nenhum poeta dura mais que seu próprio verso
Considero o conclave silábico de palavras
Formador de asas carcomidas pelo deserto
Na imersiva cidade de escadas

De certo, subimos para os céus do romantismo
Ou menos que isso, para as mazelas da realidade
E não temos integridade no juízo
De nossas observações em vaidade

Parir uma estrofe é dar luz ao desconhecido
Mal gerido pelas estranhas disformes da memória
Brilhante feito joia nas vísceras do ser desentendido

Sandro Sedrez dos Reis

Natural de Rio do Sul (SC), Sandro Sedrez dos Reis é formado em Filosofia e em Gestão de Sistemas de Saúde. Participou do grupo do Varal Literário (UFSC) na década de 1980. É autor de contos, novelas e poesias. Acredita que histórias e versos criam pontes entre os sonhos e os caminhos humanos. E isso nos faz perseverar na aventura da existência, transformando a jornada.

Poesia

Vigiar e Punir

Olhos
          te seguindo nas ruas
Olhos
          te matando na cama
Olhos
          apalpando teu corpo
          aumentando a tua fama
          não te deixando em paz
Olhos
          que só querem te ver
          rastejando e roendo
          (e com eles parecer
          e a todos afirmar)
Olhos
          que te pegam
          que te envolvem
          e dissolvem
Olhos de Vermes, meu Deus!
          que agora são teus
                                    meus
                                          nossos

Sandra Pinto

Sandra Pinto é carioca, arteterapeuta e poeta. Para a autora, poetizar é um ato de amor revolucionário, traz o avesso para o direito, e coloca o direito num novo lugar. Instagram – @sandrapinto.art

Poesia

Hécate

mumificada
numa fina camada de lã pardacenta
corpo inerte, mente em ebulição
viva entre meus mortos
realizei Hécate

deusa tripla
de Anatólia para o mundo
alquimista sulfúrica
a acompanhar a desintegração de corpos
e a lenta despedida das almas

resta pouco ar no casulo
resignada, aguardo.
a morte é certa,
sigo esperançando
um novo começo

o corpo, antes ávido pela vida,
agora pede pausa,
do ir e vir das partículas.
invernar, disse-me ela
germinar, sussurrou-me

nos braços de Hécate voei
pelos braços de Hécate retornarei

Fast fashion

fast fashion
moda do terceiro milênio descartável a cada estação
produzida por gente que não pode seguir “a moda”
e sonha com a próxima barca para a Europa


fast fashion
toneladas de roupas em containers giram pelo mundo
moda velha fingida de nova vira lixo no Sul Global
no Sul que sustenta o Norte

fast fashion
“roupa de homem branco morto” assim é conhecida na África
onde o mar vomita as vestes nas praias de Gana
montanhas de camisetas e jaquetas colorindo a paisagem distópica


fast fashion
com os retalhos do primeiro mundo Mama África reinventa a moda
ergue seus punhos e borda uma nova história
“basta de neocolonialismo têxtil”

Rozana Gastaldi Cominal

Rozana Gastaldi Cominal é mulher feita d-eus múltiplos que sustentam o corpo amoroso, político e periférico. Acredita na força dos coletivos e com eles faz voz, incluindo a TAUP nesse refrão. Autora de “Mulheres que voam”(Scenarium, 2022) e “Doses de poesia suprema (Taup, 2024).

Poesia

micro carrossel

anseio pela calmaria do mar
desejo o ócio não criativo
em alegre desespero
alcanço o milagre sincero
~ também estamos aqui ~

exibo a mulher de valor
pernas para que te quero
escorrem da boca palavras amenas
frutífero diálogo com a flor
a decompor

trajetória insubmissa

corpo leve
circunscreve
branco como neve
ultraleve
peso pesado
lesado

caminho tortuoso
que se lança
que dança
que tensiona
que flutua
que insinua

tela escultural
forma harmoniosa
coluna vertebral
geometria sinuosa
curva espiral
corpo que pensa

Rosângela Macedo

Rosângela Macedo é mulher virtuosa, baiana, mãe, poeta, escritora, professora do ensino fundamental II, graduada em Letras e Pós-graduada em Língua Portuguesa. Se inspira na realidade e no protagonismo da vida para escrever. Sua prioridade é pelo bem-estar de si e do outro em busca da felicidade. É uma pessoa apaixonada por poesia e pela vida.

Poesia

Hoje é dia

De não querer meditar
De não querer sentir
O que há dentro de si
Hoje é dia de querer
Viver
Sentir
Provar
Não desistir
Quando teme o desconhecido
E sofre no desespero
Quando não conhece o segredo
De enfrentar sem medo
Hoje é dia de repercutir
Sonhar
Realizar
Não desistir
Ser livre e voar
Com desbravura conquistar
Hoje é dia de viver
Com alegria
Sentir
Saborear
Abraçar
Hoje é dia de amar.

Rodrigo Domit

Rodrigo Domit é autor dos livros Colcha de Retalhos, Ruínas da Consciência e Coisa Pouca.

Teve contos e poemas selecionados em concursos literários e publicados no Brasil, em Portugal, na Alemanha e na Argentina.

Criou e mantém desde 2011 o projeto voluntário Concursos Literários.

Poesia

Triunfo

Não tenho a voz
embargada por emoções

não grito
não resisto

estou certo da derrota
tanto quanto da impermanência

– tenho em mim
a serenidade dos prostrados

E contento-me com pouco

cultivo revoltas
em fogo brando

e rumino ideias fixas
certezas impassíveis

como nuvens de tormenta
eles passarão

e nós ainda estaremos aqui

sobre as ruínas
– triunfantes

Roberta Cavalcanti já fez fotografia, teatro e artesanato. Pintar já pintou, mas bordar só no sentido figurado. Hoje, tem a sensação de voar praticando tecido acrobático. Jornalista por vocação e formação, é especialista em Storytelling e Escrita Criativa. Se divide entre Jornalismo e Literatura, mas antes de escrever, gosta de viver, ouvir e contar histórias.

Poesia

Caminhar

Não, não é linear
A vida,
o sentir
Os processos e a cura
Não são lineares
Caminhar não é só andar
em linha reta,
plana,
certa
É incerto o caminho
e hoje ele sinuou,
elevou,
dificultou.
Pesou,
acinzentou,
desaguou
Mas um passo
curto,
um andar
lento,
um continuar
inseguro
ainda é caminhar
é seguir
sem querer ser linear
no caminhar

O tempo de viver

são relativos os tempos do tempo
o giro completo do ponteiro do relógio
mesmo o do menor deles
é rápido demais para uma despedida
lento demais para a espera de uma boa notícia
a folha de um calendário
se desprende depressa em um dia feliz
e parece para sempre presa em um dia difícil
há semanas que voam
outros que se arrastam
meses, anos
alguns estão sempre a recomeçar
outros quase a não querer continuar
nos relativos movimentos do tempo
há sempre a vida a se apresentar
no tempo que é sempre o tempo de viver

Renilda Viana

Renilda Viana nasceu em Iraquara /BA-Região da Chapada Diamantina. Professora aposentada. Escritora. Escreve poesias, contos e crônicas. Três livros autorais( poesias e crônicas) e coautora em diversas antologias. No momento(2024) dedica-se a sua primeira publicação no gênero infantil e seu primeiro livro de contos. 

Poesia

Classificados poéticos

Procuro pessoas desocupadas.
Livres para viver sem amarras.
Correremos atrás de gaivotas na praia e
tocaremos as campainhas de pessoas fechadas.
Prometo acordar o silêncio da sua solidão
e preencher o vazio desse coração.
Juntos, iremos ao jardim das possibilidades,
onde vivem as pessoas sem compromisso
com o mal humor e com a maldade.

Renato Formiga

Renato Formiga Lima, nascido em Minas Gerais, é um poeta, escritor e um cientista, que busca, na virtude e pelo porquê das coisas, a forma de expressão máxima que somente a arte e o pensar podem transmitir.

Poesia

Adeus, bela rosa

Minha rosa amiga, bela e dourada
tanto a amo que o ar do peito se esvai,
sufocado tive a felicidade roubada,
pois uma escuridão chegou e não se vai;
se me afasto e me calo é porque eu a amo
e não sei agir corretamente ao teu encanto.
Sofro do mal da tristeza e do abandono
um covarde que não teme machucar a pétala;
estou tão perdido em prantos e pensante,
não sei lidar com essa doença inquieta
que joga para o alto e depois para o abismo,
a que me aflige e me faz cair no descrer,
e que destrói a mente sã: a paixão ardente.
Minha cara, se perguntar a mim se sofro,
Direi que sofro e então direi mentiras,
Pois não posso dizer que me sinto isolado,
Que sinto que entreguei o tudo por nada
Que a amei sem ter motivos de amar,
E é por amar que me afasto de ti, amor,
Pois senti que estava procurando mais dor…
E então rosa dourada, coisa mais bela,
Serei então tolo por conjurar tal poema,
Mas minha alma arde e pede por escrever,
E em vão e mais uma vez procuro sua alma:
Com palavras espero que me entenda,
Porém sem esperanças verdadeiras…
Quando vi você correndo descalça em direção
à árvore quadricentenária na Ilha do Combú
e depois colocando as mãos espalmadas
na base da samaumeira de mais de 50 metros,
imaginei você trançando os cabelos nos galhos;
conectando-se às folhas e ao tronco igual no Avatar .

Faz 10 anos. Hoje leio os primeiros versos de um poema
que você esboçou quase em lágrimas pela manhã:
“Uma árvore virou cinza na Amazônia.
Inúmeras árvores viraram cinza na Amazônia
nos últimos anos.”

Naquele mesmo dia, coloquei meu ouvido na terra.
Disse a você que escutava o choro das árvores,
O clamor do solo sangrando, de peixes sufocados,
De muitos animais gemendo e convalescendo.

Você me disse que eu não sabia aproveitar a beleza de Gaia,
a energia da floresta, as vozes e os espíritos ancestrais.
Por isso, não lhe disse que também ouvi sons de motosserra,
De árvores crepitando, de pássaros em agonia.

“Nem tudo é tragédia”, você me repreendeu.
“Nem tudo é beleza”, pensei mas não lhe disse.

Rakel Caminha

Rakel Caminha é multiartista manauara. Como um rio que flui em diversos caminhos, sua arte transita entre as artes visuais, multimídia e escrita. Sua criação é um mergulho profundo em processos sensíveis, onde arte, a natureza e a experiência da existência se encontram e fluem, como espelhos d’água dos sentimentos humanos.

Poesia

Memórias.

Memórias.
Inundação nas comportas do cérebro.

Recortes:
Ora ácidos, ora doces,
Fragmentos de um tudo.

– É Tempo: tempo que dança.
Que marca tudo o que toca.
Foz que deságua
os Instantes intensos que vivemos juntos

Um mergulho profundo
nas veias do peito
Localizadas
Logo abaixo
do Rio Negro.

De cabeça,
em cheio,
Um pulo livre,
na parte mais líquida
do coração.

É sentimento aglutinado e íntimo.

É tudo que se foi,
e que de alguma forma ficou…
E que, abaixo do solo, repousa,
infiltrando as estruturas das minhas cidades.