poeta vivo

É uma amante da poesia.

Poesia

pretendo-me jatobá
percebo-me trilho
busco estação horizontina
alvorada e ocaso infinitos

pedes-me movimento
não me mexo
declamas lâminas em versos
rompo minha castanha casca
nunca estive inteira

exige-me a vida poesia
contemporânea
um eterno brotar em bambu

Zelia Puri

Zélia Puri é produtora cultural e multiartista, embaixadora da Paz pelo Cercle Universel desAmbassadeurs de la Paix, Cofundadora do Movimento de Ressurgência Puri, Membro da Associação Internacional de Poetas, do Movimento de Poetas Del Mundo e do Mulherio das Letras Indígenas, onde participou da Antologia Guerreiras da Ancestralidade, livro vencedor do JABUTI no eixo Fomento a Leitura em 2023. Através de produção de livros e textos literários, palestras, debates, oficinas, exposições e rodas de conversas, apresenta e discute sobre identidade e ancestralidade.

Poesia

OS FIOS DA MEMÓRIA

Eu não sou branca,
Eu não sou parda,
Nem negra sou
Qual é a minha cor?
Qual é a minha cor?
Eu sou da cor do bronze,
Da cor do jambo,
Da cor do amor

Yara Fers

Yara Fers escreve seus poemas à mão, em cadernos sem linhas, para ter liberdade de brincar com as palavras, mudar direções e reinventá-las. Mas seu primeiro poema, cometido aos 8 anos de idade, foi em uma máquina de escrever Remington 22, que pertencia ao pai, também poeta. Desde então, a poesia se fez necessária, entrelaçando-se à existência do corpo. O primeiro livro veio ao mundo em 2021, quando completou 38 anos. Hoje já são doze rebentos, entre obras de poesia, romance e infantis. Já possui rugas, mas mantém o costume da infância de brincar com palavras.

Poesia

Descanso

somos a pausa
fibras musculares estendidas
distendidas

corpos de duas foices-ferramentas
entrelaçados
afiamos nossa fúria
um no outro
em descanso
entre jornadas

pés libertos das botas
uniformes deformados
simbiose de sonhos

sóis se debruçando
no horizonte trigal
entre o suor e o sono

Rafael Lima

Rafael Lima é transeunte entre prosa e poesia, procuro artefazer literatura com toques de mineiridade e humanidade. Publiquei contos selecionados por chamadas literárias pelas editoras AcasoCultural e Kotter. Meu livro poético de estreia “Sentimento Famélico” saiu pela editora curitibana TAUP no ano de 2023. Está no prelo “Dentro do vazio a palavra é atômica”. @rafaellima.literatura

Poesia

Citadino

Gris,
                feito nuvem carregada,
                sou citadino
                desafeito aos matches do tinder.
 
Palidez,
                coberto de cinza-poluído
                cansado dessas esquinas
                                                  – cor de asfalto
 
Exaustidão,
                sociedade do cansaço, 
                eu na cidade,
                pressinto em mim,
                      – estreito sertão cinza de solidão 
 
Sertidão,
                acima dos olhos 
                abaixo dos pés
                Não há um tom de cor entre esse turbilhão
Paulo Costa

Paulo Costa é natural de Brasília, psicanalista, formado em psicologia pela Universidade de Brasília, se arrisca na aventura da escrita tentando sempre escutar as rimas e os versos que a vida cotidiana tenta encobrir. Escrever a partir daí é um modo de sobrevivência, uma maneira de vivificar o irrepresentável, incluindo-o na letra. 

Poesia

I. Tri.logia do amor

Do anonimato das idas e vindas

Muito sentido, pouco a dizer

Ficamos na tarefa quase impossível de dizer o que nos escapa
da palavra que se reduz ao sentido
quando muitas vezes, uma palavra não cabe num sentido
quando esse sentir é muito pra pouca palavra, pra uma palavra pouca

Ilusão dizer que o máximo que se poderia dizer de um muito sentido seria um já batido “eu te amo”
Está aí a palavra pouca

Pra bom entendedor, meia palavra basta

Arrisco a dizer, pois se trata de um risco
Que a ausência da palavra também basta
E que é possível compreender no silêncio

Existe algo do silêncio que se transmite

E que para um bom compreendedor
o silêncio basta

Te amo em silêncio
e em anonimato
sem nome

Marcelo Ariel

Marcelo Ariel é poeta, ensaísta e teatrólogo. Nascido em Santos-SP, Brasil em 1968. Autor de Tratado dos Anjos Afogados (Letra Selvagem), Ou o Silêncio Contínuo poesia reunida 2007-2019 (Kotter Editorial-Prêmio Biblioteca Nacional 2020), Nascer é um incêndio ao contrário (Kotter, 2020) e Subir pelo Inferno, descer pelo céu (Kotter Editorial, 2021), As três Marias no quadro de Jan Van Eick (Fósforo/Luna Parque/Círculo de Poemas-2022, Arcano 13 (Com Guilherme Gontijo Flores – Editora Quelônio-2022), Escudos- Cinco R.A, Ps e um samba escritos com Cruz e Sousa seguido de A vida de Clarice Lispector (Arte & Letra,2023), entre outros. É colaborador das revistas Quatro Cinco Um, EGaláxia e Cult e como autor convidado do Laboratórios de Criação — Escrita de Literatura e Teoria dentro do Programa de Estudos Comparados de Literatura Portuguesa  (Pós-Graduação da Universidade de São Paulo, Letras/FFLCH) em 2022 compôs o júri do Prêmio Jabuti. No teatro seus trabalhos mais recentes foram: VILA PARISI, dramaturgismo para o Coletivo 302 de Cubatão, peça/ grupo vencedores do Prêmio Shell, 2023. TRANS- MITO MAKUNAIMÃ Direção, Dramaturgismo e Concepção. Baseada na peça teatral coletiva escrita por ele, Jaider Esbell, Deborah Goldemberg, Cristino Wapichana e outros com Filipe Roseno, Deborah Goldemberg, Amaury Oliveira e outros Sesc Interlagos, 2021. RELÂMPAGOS NUM DIA CLARO Contra história descolonial do Brasil, Texto e direção com Pascoal da Conceição, Martha Nowill,Maria Manoela, Fabia Mirassos, Aury Porto e outros. Museu do Ipiranga/ Sesc Ipiranga, Evento especial de reabertura do Museu, 2022. Coordena desde 2016 cursos livres de escrita, poética e filosofia em São Paulo.

Poesia

Re Iluminações III

No bosque, tem um pássaro, seu canto faz vocês pararem e enrubescer.
Tem um relógio, que não soa.
Tem um brejo, com um ninho de bestas brancas.
Tem uma catedral que desce e um lago que sobe.
Tem um carro abandonado entre arbustos, ou que desce o canteiro correndo, embrulhado.
Tem uma trupe de pequenos atores vestidos para o espetáculo, foram avistados na estrada através dos limites do bosque.
Tem enfim, quando temos fome e sede, alguém que nos caça.

No Bosque interior ? Trata-se obviamente da imanência…
Nada de fugas provisórias, o canto dos pássaros está no lugar do relógio.
O haver do brejo oceânico e a sobrenatureza dos ninhos com ‘ as bestas brancas’, é logo ali…
O que buscar em uma Catedral que afunda justamente porque o céu começou cair, não como um Reino, como uma pedra de ausência, enquanto o lago sobe ‘ como nuvem socrática’ na Palestina, é o destino da água como proposição, principalmente da água em nós.
Em guarany para pronuciar ‘ água’ diz-se Y’y’ ela é o som da reentrância, a água é um orgão interno-externo, contra a teologia, cronologia e o capital : a água !
Os carros terão o mesmo destino das esquifes russo-americanas e relógios de ouro, soterrados dentro de selvas desconhecidas.
A trupe de atores, como em ‘ O sétimo selo’ de Bergman ou como um devir possível dos moradores de calçada, ciganos absolutos do quilombo imanente móvel !
Ah, as guerras da fome e as guerras da sede !
Fusão de levantes convertendo a água em guerra.

 

Rimbaud/Marcelo Ariel/ Larissa Drigo Agostinho

Lara Kadocsa

Lara Kadocsa é cantora, atriz e poeta. Formada em Estudos Culturais pela Universidade Humboldt de Berlim e mestranda em Literatura e Crítica Literária (PUC-SP), lançou em 2021 seu álbum autoral de estreia e seu livro de poesia (ed. Origem), ambos intitulados “ar” e em 2024 a plaquete de poesia “cotidiano epistolar” (ed. Mormaço). Seu clipe “Decisão” foi premiado em festivais internacionais, tem poemas publicados em mais de 10 antologias e canta na roda de samba Os Compandeiros.

Poesia

um respiro

o ar não tem direção
para o ar
não há pra frente
embaixo
há o espaço
sempre a ser ocupado
por ele mesmo

para nós
não há espaço
sem ar
nem tempo
sem espaço
ou ele mesmo

sem ar
não há nem a ideia
de espaço
ou tempo
nem dele mesmo

é do ar que as coisas nascem
é para o ar que as coisas voltam
e nós estamos apenas
entre

Gilberto Pereira

Gilberto Pereira nasceu em 1960, é morador da Ilha do Governador, no Rio de Janeiro, desde 1971. Seu primeiro livro de poemas, A Trilogia D’Alma, foi publicado pelo selo editorial Polo Cultural Ilha e lançado em 2022, durante a 2ª FLICPOLO — Festa Literária e Cultural do Polo Cultural Ilha. Organizador de antologias, é também um dos idealizadores e, atualmente, único produtor e apresentador do Sarau na Casa D’Alma, que celebrou 22 anos em julho de 2024. Além disso, é membro-fundador e presidente da Academia Sociedade dos Literatos do Sarau na Casa D’Alma (ASOL).

Poesia

INTROMISSÃO

No mundo,
existem homens e pedras:
as pedras, carne sem sangue;
os homens, sólido venoso.

Eles urinam e sobrevivem.
Elas sorvem e prosperam.

São uterinamente pedras.
São pré-historicamente homens.

Deles não restam dúvidas.
Delas não saltam sonhos.

(Mas o que há de errado nisso?!
Não sei.
Os poetas se metem sempre onde não são chamados!)

Cidinha da Silva

Cidinha da Silva é escritora e doutora em Difusão do Conhecimento. Autora de 22 livros, entre eles os premiados “Um Exu em Nova York” e “O mar de Manu”. Tem traduções em catalão, espanhol, francês, inglês e italiano. É cronista do jornal Rascunho. Seu livro mais recente é “Vamos falar de relações raciais? Crônicas para debater o antirracismo” (Autêntica, 2024).

Poesia

Chuva

Ontem chovi
Era chumbo
A nuvem que me matava
Chovi mágoa
Contrita
Ebó despachado na praça
Na encruza do tempo perdido
Chovi no pântano dos afogados
Mangue de dor
Sem flor que nasça
Chovi o amor guardado
Tudo é morte
Tudo é renovação
Só por chover
Amor
Vivo

Ana Gabardo

Ana Gabardo é psicanalista e pedagoga, mora em Curitiba/PR e escreve desde que se lembra de ser gente. Desde cedo, reconhece o imenso compromisso e afeto com as palavras, que para ela são um modo de sobrevivência e de embelezamento da vida. Ela alimenta cotidianamente seu blog (https://www.sonhosemergentes.com/) com escritos sobre a vida e a morte, sobre os mergulhos e as dores e, às vezes, com um pouco de humor.

Poesia

9 terça-feira

vamos desenrolar essas e outras histórias?

                                                                (tensão
                                        estômago cimentado
                                                        desde então
                                                            não como
                               e eu que achei que já vivia
                                                               a minha
                                                   melhor história
                                             ou melhor dizendo
                       a minha única história possível
                      como pode uma única pergunta
                                                abrir uma fenda?
                                                  encarei a fenda
                                                               para ver
                                            o que tinha dentro
                                                     era interesse)