poeta vivo

Neta de uma poeta que lhe ensinou que as palavras são refúgio. Jornalista apaixonada por histórias reais e inventadas, escreve para não se perder. E talvez, para se reencontrar.

Poesia

Novelo de lã

Os fios não
o são dela.
Nem dela.
Minha mãe deixava mantas pela metade:
pontos soltos,
carretéis esquecidos na mesa.
Começava vestidos que nunca vi prontos,
linhas que se perdiam no tempo.
Às vezes penso que herdei isso dela,
essa vontade de fazer
e a dificuldade de concluir.
Minha avó não sabia costurar.
Mas escrevia.
E sonhava como quem ficava com palavras soltas.
Como um emaranhado de fios,
vou tentando puxar um por um.
Uns apertam.
Outros se desfazem só de encostar.
Tentei puxar.
Me enrosquei.
Tentei esquecer e me perdi

Nasceu em Olinda, Pernambuco. Bacharel em Direito e em Economia e com especialização em Planejamento e Gestão Pública. Atualmente trabalha como servidor público federal. Teve poemas e contos selecionados em diversas antologias. É autor da ficção científica “A Dinâmica Orgânica”, Ed. Ibis Libris, 2024.

Poesia

MÉRITO E MENDICÂNCIA

Havia sido um pobre e simples cristão
Mas você exige grandeza dos homens
Nada poderia querer de um simplório
Embora do seu amor em vão imploro
Porém, da paixão que recebo as ordens
Sim, tolo que sou, mas que coração!

Corri em busca de glória e de riqueza
Com desejo ardente e vontade forte
Cobri-me de título e de medalha
Empreendi, menti, lucrei às custas da alma
Levei a inimigos perigo de morte
Implacável, por cima, virei a mesa

Ouça então esta súplica, por favor
Eu assim mereço que me corresponda
Pois tudo que tinha ao meu alcance fiz
Consegui obstinado o que sempre quis
Rogo para que logo me responda
Tornei-me agora digno do seu amor?

Publicitário, jornalista, professor e escritor. Mora em São Paulo/SP. É autor de dezenas de obras, incluindo “Haicais vazios” (2025, TAUP). Vencedor do Prêmio ABERST, Troféu HQ MIX, Prêmio Ecos da Literatura e alguns outros, já participou de mais de 350 coletâneas de contos, poesias e quadrinhos.

Poesia

Amor e paixão

Paixão é pá, torrente, tempestade.
Amor é semente, chuva, sol da tarde.
Paixão é a coragem com intensidade,
Amor também é coragem, mas a mais temível ao covarde.
Paixão é muitas vezes a metade.
Amor é continuamente por inteiro, sem alarde.

Paixão sem amor, queima e se extingue.
Amor sem paixão ainda se distingue,
mas em fogo baixo, com suavidade.

Natural de Americana, SP. Lançou em 2024 o infantojuvenil “A fantástica aventura de Ferdinando e quem eu lá conheci” — vencedor do Prêmio Book Brasil nas categorias Melhor Infantojuvenil e Aclamado pelo Público. Participou de antologias de ficção e nesse ano lança a obra de realismo fantástico “Na estranha imagem entre nós”.

Poesia

Restauração

Subindo a escada da virtude
Afogo-me nos desejos dos outros
Cedo à tentação de ignorar as faces já esquecidas
Suplico a Deus para que não me perca de mim mesmo
Dos elementos que hoje me parecem estranhos
Mas que foram talhados no gabinete da minha história
Escondo a desordem por trás dos sorrisos contidos
Mas sempre me escapam as palavras


Nos meus cabelos ao vento
Deixo que me suma a estrada
Ignorando a fotografia da violência
Toca a melodia da alegria nos campos da tristeza esquecida
E continuam a me espetar
Mas estou detrás das camadas que não podem nem ver nem sentir
Nesse mundo tão meu
Só são convidados os que olham para dentro de mim

O coletivo de escritores Insurgências Literárias surgiu após o evento “Sextas Culturais, Artes Presentes no Campus XI: Sarau Poético” na UNEB – Campus XI, Serrinha/BA, quando se percebeu a necessidade de dar visibilidade à produção literária regional. Fundado em 7 de julho de 2023, o grupo busca compartilhar, valorizar e divulgar escritores locais, promovendo a literatura e incentivando novos talentos.

Poesia

Eu sou resistência

Quando me veem na luta
e gritam: “guerreira!”,
sinto o peso do cansaço, o descompasso,
a bagagem do mundo inteiro.

Anseio o descanso, o silêncio,
abraços que não me exijam coragem.
Mas afeto, amor, acalento.
Desejo ser humana!

Quero olhar no espelho e enxergar dentro da alma,
sentir que nada mais me falta.
Olhar pro presente e poder ser quem sou!
Sem amarras e armaduras, curadas as feridas,
sentindo o sabor da justiça.
Só assim poderei descansar!

Caindo, mas levantando, desfaço a tradição
de que minha cor não tem valor.
Mas não deixarei de lutar, por espaço, voz, direito,
Por respeito!

Afinal, é minha sina!
Jamais desistir, por determinação ou desobediência,
Sigo quebrando com a discriminação.
A minha arte é potência.
Eu sou resistência!

Daniela Muelas Bonafé

Escritora, artista, professora, militante dos direitos humanos, mãe, feminista. Apaixonada pela vida e pela poesia, tenho 10 livros publicados, o último é Rosas de Chumbo à venda por essa querida editora. Paulistana e sempre em movimento, gosto de experimentar e testar limites na Literatura.

Poesia

Gaza

são reféns eles dizem
no escuro não há corpo que tenha dona
a criança explode as partes voam
a testa não se lembra do carinho só voa
os dedos no bolo de aniversário voam
um dia a mãe cuidou para que ficasse limpa e forte
mas nem as roupas nem os dentes
um mar vermelho engole
e eu morta como elas faço poemas
não agradeço a deus pelos meus
é uma afronta: palavra alguma dá conta
são quarenta e dois quilômetros
quero o sono profundo de décadas
para os anos que já duram milênios
no lombo carrego também esse fardo
é pesado afundo no escombro e sangro as páginas
por favor ao menos a salvação do nome
mas não somos benditos
sentada na louça sanitária entregue e só 
meu rosto afundado entre as mãos eu já fui menina
pedimos socorro os braços se erguem 
a compaixão é uma benção
que nunca chega a galope
               [nunca chega]
relógios dinheiros fogos não param
só corações
daniel soares filho

O carioca, doutor em Literatura Comparada, como escritor sempre experimentou o deleite e o sofrimento de juntar palavras. Além de professor de idiomas, traz 13 livros sobre a religião de umbanda, bem como tem publicados diversos poemas e contos em antologias.

Poesia

Homens em vão

Em definitivo,
Diga-me cada um:
Estão as mentes todas
Cansadas ou doentes?

E não saiam pela tangente
Sem resposta efetiva
Da inquietação latente:
Somos todos enfermos?

E há quem diga
Que tudo é mentira!
E que nada é certeiro.
Porém eu pouco creio.

Será minha sina,
Ou então o meu receio
De encontrar acolhida
Da certeza do que vejo.

Ó, meus irmãos vivos,
Onde mais morremos
Se não na vida
Esgotada e enfermiça?

Escritora paulista, autora dos livros “TW: Para ler com a cabeça entre o poste e a calçada” (Litteralux, 2017) e “Nequice: Lapso na Função Supressora” (Litteralux, 2018) , livro finalista na categoria contos do Jabuti 2019.

Poesia

Querem o casto, o alvo
o que se move em letargia na nata sul
com a mansuetude fastidiosa das moças superiores,
das madres queixosas por dedos e taramelas minhas.

Encontramos, nas paredes sujas, alguns ossos pequenos e fagulhas de suposta fuga de rubra utopia.

E querem.
Querem passos miúdos, vozes menos roucas, colunas dóricas alinhadas com o reto de seus generais, com os discursos aleatórios dos troncos vazios em altares de Eridu.

Descobrimos, sob seus telhados ocreosos, anotações de sonhos vencidos, fungos auris, abusos puídos de peças ornamentadas para o grande fim.

E eles ainda querem.
Querem a carne forte até o nascer do sol, a mentira edificante da poesia alada de falsos poetas, o caldo dos músculos que não formam nações.

Despertei tarde.

Ninguém mais esperava por mim.
Em ninho de susto, descabido medo de se misturar aos meus restos e barros de gente… Ninguém mais apareceu.

Despertei do que trava a língua das palavras boas.

Mas era tarde pra mar.

E eles querem.
Puros…
o meu silêncio.

Paulistano de 18 anos, é escritor e poeta em início de trajetória. Aborda em seus poemas temas existenciais e sentimentais, procurando explorar as palavras e seus silêncios.

Poesia

Os dentes e os chifres

Eu sou Tudo. E nesse Tudo sou
—Também— Todo seu Oposto.
O avesso — do meu rosto,

— Remonto-me; —
Troca-peles—troco o osso.
Minha própria imagem e semelhança.

Aprisiono a Ti— Corpo
que não possuo.
Me esgarro em Ti, como um grunhido mudo.

Isso sorri para mim no escuro.
Os Dentes — mordem a gengiva
Me afoga—Tamanha Agonia.

Agora; eu sou a caça: veado troca-peles.
Vitima— Ptolemaea; Devoro o caçador.
Perco o reflexo no espelho

Sou Tudo, Sou Oposto — Sou o peso. —.
Sem receio
O corpo em meus chifres—Me ergo.

Alice Puterman

Nascida em 2002, no Rio de Janeiro. Algumas coisas me definem: uma longa batalha contra a doença mental, a sobrevivência às violências sexuais, e a deficiência. Não mais do que tudo e todos que amo. Sinto saudade. Ponto. Saudade de tudo. Aquele misto de afeto com dor, sabe? Acho que se eu fosse um sentimento, é este que eu seria. Talvez, eu já seja. Candura — uma história de sobrevivência feminina, é seu livro de estreia (TAUP, 2025).

Poesia

só vou morrer
depois que
uma voz gasta
rouca
e sem dono
escorrer boca afora

a mesma boca
que quando esperava um primeiro beijo
foi usada de tantas outras maneiras
e ficou com um não regurgitado na garganta
sem cuspe

que esta boca
espante toda
palavra morta
e parte imunda
que entala como grão de areia após a praia
em quinas sombrias da sala de estar

vou urrar até a dor se render
até minha voz virar eco
e eu rasgar
cada caco de mim
que se culpa
por homens que tomam corpos
e brotam dores

só saio dessa vida
com a garganta em carne viva