Pessoa Periférica

Jeniffer Yara

Paraense, Jeniffer Yara sempre foi apaixonada pelas letras e pelas leituras que realizava, dos livros e da vida. É autora de Sintomática (2022), e organizadora de algumas obras, entre elas Crônicas paraenses: novos olhares sobre cenas locais (2021) e Letras em narrativas (2024). É professora e pesquisadora em Estudos Literários.

Poesia

Maresia tempestuosa

Nos rios que transbordam pela cidade
me encontro na maresia de quem
desistiu de ser todo o dia
porque cansa
exaure
desgasta
e, mais ainda,
desespera
o corpo queimado,
a língua extinta,
a história apagada,
e os laços arrebentados
pelo colonizador que insiste em derrubar nossas florestas
em escassear nossas águas
em matar nossos animais
e explorar nossos corpos.

Da menina marajoara
à criança vendedora de bombom no sinal,
são queimadas, estraçalhadas e subjugadas
as narrativas de quem nunca teve palco
som e cenário para esbravejar suas lutas,
seus nomes e suas crenças.
A Amazônia pede socorro, assim como eu.

Ivânia Rocha

Ivânia Rocha é apaixonada por livros e leitura. Professora de profissão, escritora de vocação e pesquisadora por necessidade e vontade. Autora de Páginas do sertão: recepção de leitoras sertanejas – Appris, 2023; Da varanda dos fundos – TAUP, 2024; É permitido gozar! (org.) Escola de Escritoras, 2024. Mestra e doutora em Letras.

Poesia

Paradoxo

Vejo um idoso lutando pela vida.
Vejo jovens querendo morrer;
Um postergando a partida,
Os outros teimando em adoecer.
Enquanto o primeiro não se queixa e vive a sorrir
Os últimos muito reclamam e
Só pensam em partir, sumir.
Desaparecer. De qualquer jeito:
Solidão. Drogas. Suicídio.
Querem aliviar a dor; desejam não sentir
A maneira é fugir – seja como for.
O velho se apega a tudo:
Família, dinheiro, amor.
Para os novos, resta o vazio e o absurdo
De um mundo distópico e enganador
Na ciranda da vida, não sei o que pensar
Não quero colocar mais sal na ferida
Que por si não vai cicatrizar
No embalo da subida ou descida,
Não cabe a mim julgar!

Hevi Livre

Hevi Livre é natural de Recife. Graduada em Ciências pela Universidade Federal de Pernambuco – UFPE. Detém um olhar observador e atento às complexidades das relações humanas e sua relação íntima com psiquê humana. Sua paixão pelas palavras e pela literatura permite a transmutação de sua observação em poemas belos e ricos de significados.

Poesia

ÚLTIMO ATO

É causticante o jugo que incide sobre minha ancestralidade
Meu corpo marcado é apontado pela chancela do poder
Condenado pelo disparate de ousar ser
E ser petulantemente orgulhoso do distintivo da raça
Este que me borbulha o sangue nas veias
Você, embranquecido gradualmente em sangue, suor e lágrimas
Sobretudo afeito ao recalque da etiqueta marrom
Qual tom de pele não se veste
Frivolamente se reveste ao intencionar com manejo
O resgate do poderio armado sob o qual nos vergamos aprisionados
Depara-se decepcionado com a bravura arguta
Insolente desenvoltura de resistência digna
Fecundada na fé, no axé, na alegria pulsante de nossas almas
É teu último ato e o teatro está lotado
O tom da pele que te laqueia, clareia
Nu é um retrato devastado
Em cima do palco montado pela comicidade
Com a qual caminhamos até o resgate
De nossa face
Na nossa arte
Nosso espetáculo de vida
Para todo pertencer que não se abate

Gleidston Alis

Gleidston Alis é professor, escritor, cantautor, performer e multiartista de Minas Gerais. É doutor em estudos literários pela UFMG e seus trabalhos se fundamentam na intermidialidade, na inter-relação entre discursos ou áreas do conhecimento, no deslocamento do olhar pela multiplicidade de perspectivas que suscita a cultura contemporânea.

Poesia

A porta bate atrás de mim
Tapa nas costas
Tranca à frente
Ferrolho da madeira intransponível

Será possível?
Todas as portas do mundo batentes
Impactos concomitantes
Sinfonia de Buns! Bans! e outros socos

Todas as portas fechadas
Pra tudo do lado de fora
Trancadas por dentro
Trancadas por nada
Por não há de quês

Cíntia Colares

Cíntia Colares (Flor de Lótus) é mulher preta cis, jornalista, poeta, coautora em coletâneas de poesia, mãe solo de um adolescente negro, mora na periferia de Porto Alegre/RS.

Poesia

Reconstruindo

Escrevo
para tentar mudar
o que recebo dessa vida.

Escrevo
porque não aceito
essa vida que insistem
em jogar em cima de mim.

Tão pesada
que estou sempre
prestes a ser soterrada.

Às vezes essa vida
me faz sumir.

Depois arremesso
esses escombros
para longe

E vou me reconstruindo
pelo caminho.

Não dá tempo de esperar cicatrizar.

Cau Ferreira

Filho de migrantes pernambucanos, Cau Ferreira nasceu e cresceu na periferia de São Paulo. Formado em História e especialista e em Educação e Direitos Humanos, é professor da rede pública e escreve poemas. Cola lambes pela cidade e compartilha poesia e política nas redes sociais com @versopartido.

Poesia

. no metrô

afogados uns nos outros navegam o oco do centro
cansados, sonolentos
                            pe
                    da
                        ços partidos do corpo do povo


contato direto, nem um teco de metro
cotovelo na costela, bolsa atochada no baço, de frente de lado
                                                 e no verso


cabeça no braço, recostada
narina nervosa, dilatada
rotina maldita, embaçada
castiga a preguiça
                           aos sopapos


pisada no pé (mal aê, sem querer)
sobra cara feia e tapa, até
a treta infinita
                             : o hábito


e XINGAR não resolve
nem vinte centavos resolve
                          o mal estar diário

Anizio Vianna

Anízio Vianna é poeta e letrista. Publicou oito livros, o mais recente é a plaquete “Desalarmes, escritos de paz” (TAUP). Recebeu o prêmio Cidade de Belo Horizonte com o livro “Dublê de Anjo” (Mazza). Teve seus textos publicados na Espanha, Peru e Portugal.

Poesia

Litígio

você me acena se queixa se despe
teu problema é quando a gente regressa
tudo tem no máximo um brilho
mas você quer quase sempre o cometa

você me tem como uma pessoa tão linda
— no cinema eu seria o mocinho —
tudo bem você já filmou sua cena
mas o real é a nossa vida pequena

só no sexo é que a gente se ajeita
no teu plexo pousou borboleta
mas tem vezes que somos estranhos:
o real não empresta o que somos

você me atrela ao normal e à cela
traduz pro meu sangue a tua beleza
no canal sempre o mesmo programa
— desconversa a novela e me ama —

você me dá o silêncio da véspera
quando o tempo era a fortaleza
e desconversa os problemas de sempre
e mutante muda a minha linguagem