Pessoa Negra/Preta

Sofia Lopes

Sofia Lopes é escritora, tradutora e doutoranda em Literatura. Suas publicações incluem dois livros e participações em antologias e revistas. Seus trabalhos podem ser encontrados no Instagram @literartemis.

Poesia

Ariadne

é rubro o fio que me ata ao reflexo
fio diáfano inviolável
que reescreve o tempo
e o deita perante meus pés
entalhes, trilhas que sigo
contigo, instinto e ardor
para traçar passos outros
labirínticos,
tortuosos, nossos.

é rubro o sangue que me escorre as paredes
sangue de corpo-bicho-mulher
que verte, alma às mãos
e se desfaz, água carmim
na pele em flor de seus braços,
cálices que transbordo
e preencho, lar que habito,
que me habita
em igual medida.

arqueologia

atravessa o invisível—
mergulha em seu lago,
cruza águas incógnitas—
do frescor da alga ao
lodo mais denso—
traça trilhas com as
pontas dos dedos, resvala
as unhas sobre leitos
de diminutas contas, escava
antigos tomos—tábuas
de pedra, colheita
das profundezas—lava o
pó que se esfarela, lança-o
pela terra—semente,
areia, dispersas sobre
solo tão fértil, tão
faminto—e descobre,
com olhos de eterno
enlevo, o que ali
pode florescer.

Michele Magalhães

Escritora, Poetisa, Colagista Manual, Mãe atípica, Autista, Servidora Pública do Estado de Rondônia, Formada em Matemática e Letras Inglês e suas respectivas Literaturas, Mediadora de Biblioterapia, Mestra em Engenharia de Energia, Criadora da página @partilharpoesia, Michele Magalhães é uma mulher múltipla.

Poesia

rio em mim

entro na água
o rio mergulha
em mim
unidos
somos
um

sigo sem rumo
pelas linhas
paralelas
destes caminhos
tortuosos,
onde me
reencontro
com quem
sempre fui

corpo repleto de
alma-coragem
em busca da cura
eu-me encontrei

me deixo levar pela correnteza
meu corpo ser levado pelas águas
minha alma ser lavada pelas águas
me sinto mais leve

Cíntia Colares

Cíntia Colares (Flor de Lótus) é mulher preta cis, jornalista, poeta, coautora em coletâneas de poesia, mãe solo de um adolescente negro, mora na periferia de Porto Alegre/RS.

Poesia

Reconstruindo

Escrevo
para tentar mudar
o que recebo dessa vida.

Escrevo
porque não aceito
essa vida que insistem
em jogar em cima de mim.

Tão pesada
que estou sempre
prestes a ser soterrada.

Às vezes essa vida
me faz sumir.

Depois arremesso
esses escombros
para longe

E vou me reconstruindo
pelo caminho.

Não dá tempo de esperar cicatrizar.

Carlos Roque

Arquiteto. Participou do grupo de poesia Núcleo de Convivência Literária e do Grêmio de Haicai Caminho das Águas. Em 2019 participou da coletânea 8 POETAS – POESIA AO INFINITO e disponibilizou na web o livro RIO DE POUCOS JANEIROS – VINTE E CINCO POEMAS E UMA PÁGINA EM BRANCO, dedicado à Marielle Franco. Em 2022 lançou o livro de poesia ENQUANTO O MUNDO e em 2024 pela Editora TAUP, o livro de poesia QUANDO ERA.

Poesia

GEOGRAFIA

E o que vale
             montanha
             rio
             córrego
             colina e mesa farta
             planalto
             península
             baixada
             ilha
             planície e garganta falha
             talvegue
             enseada
             baía
             golfo e barra funda
             serra
             chapada
             mar
             e atlântico
nesta terra
de muitos acidentes
mesmo quando é estreito
mesmo quando temos pouco istmo
na cava profunda da depressão
é chegar ao sul
ao ponto mais distante
e saber
que não estamos longe o bastante.

PAISAGEM TRANSVERSAL

Olha para longe
e vê         o que eu não vejo
vejo apenas um gato           negro
visto por olhos                      não negros
que não me vêm
olhando para longe        e vendo
                                                 a qualquer preço
o que eu não vejo
e espero                                 negro
que o gato se vire                 em outro
e veja 
olhos bem abertos
quem não me vê
enquanto conduz
através da janela aberta        cega de tanta luz
a esperança  verde                 de um único olhar
de qualquer cor
a me atravessar                      norte a sul
até conseguir chegar             ponto de vista e fuga
aqui e ali
aonde deveria estar
mais um pouco                      dois ou três passos
                                                  lá e além
até conseguir
enfim ao fim                           das íris negras
chegar
a bombordo de mim.
Anizio Vianna

Anízio Vianna é poeta e letrista. Publicou oito livros, o mais recente é a plaquete “Desalarmes, escritos de paz” (TAUP). Recebeu o prêmio Cidade de Belo Horizonte com o livro “Dublê de Anjo” (Mazza). Teve seus textos publicados na Espanha, Peru e Portugal.

Poesia

Litígio

você me acena se queixa se despe
teu problema é quando a gente regressa
tudo tem no máximo um brilho
mas você quer quase sempre o cometa

você me tem como uma pessoa tão linda
— no cinema eu seria o mocinho —
tudo bem você já filmou sua cena
mas o real é a nossa vida pequena

só no sexo é que a gente se ajeita
no teu plexo pousou borboleta
mas tem vezes que somos estranhos:
o real não empresta o que somos

você me atrela ao normal e à cela
traduz pro meu sangue a tua beleza
no canal sempre o mesmo programa
— desconversa a novela e me ama —

você me dá o silêncio da véspera
quando o tempo era a fortaleza
e desconversa os problemas de sempre
e mutante muda a minha linguagem

Alexandre Paim

Nascido e criado entre Amélia Rodrigues e Feira de Santana, Bahia. Alexandre Paim é graduando em Psicologia na Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), estudante de Teatro e de Técnica Vocal no Centro Universitário de Cultura e Arte (CUCA/UEFS), formação em andamento em Análise do Comportamento Clínica no Instituto Brasiliense de Análise do Comportamento (IBAC).

Poesia

quando a chuva passar

três luzes queimadas, minha mãe preocupada, desconforto gastro-cardíaco;
selas e botas, distância quadrada – odeio ver o brilho do azul entre os oitis.
mesmo assim, vi cada gosto seu no corpo de um semideus virtual. como pôde me abraçar planejando voar entre as flechas dele?
meu pai no whatsapp com a incredulidade: o destrono não me tornou indolor.
tua inocência fajuta combinou com a minha surdez conveniente; só não fui competente em isolar variáveis estranhas no meu experimento contra-ético.
invalidado pelo teu afã por homens símeis, ensimesmado e compadecido, não esteticamente envolvido… eu queria te dar um tiro.
meu primo te refere em sorrisos e eu, acovardado, me esquivo; sua misericórdia já me penitencia.
não vou explicar o que houve porque algo não se há de ter havido para que não empreendesse esforço ou arrependimento.
capitães de areia na sua estante e meu prólogo empoeirado em caneta vermelha – você nunca lerá!
eu rezo em dilúvio que meu quarto, meu vinho e meu sangue te manchem, que meu canto te atormente, que meus versos te arrebentem…
que mergulhe e se afogue e eu lhe salve a vida com a mesma letargia que você tirou a minha.

Adriene Cruz

Adriene Cruz é natural de Varginha-MG, Especialista em Produção Textual, Licenciada em Letras – Português, atua como Professora na Educação Básica. Autora do livro Paisagens Interiores – Editora TAUP. Acredita no poder da escrita como uma das formas de cura das emoções.

Poesia

Mulher de Março

Eu não tenho culpa
Ninguém tem culpa
Sou como sou

Pertenço à família dos Sentimentos
Meu sobrenome é Intensidade.

Me ame ou me deixe
A escolha é sua
Mas não me peça
Para dissimular o que sinto.

Meu corpo conduz as águas
Que dos meus olhos escorrem lentas, fluidas.
Que no meu interior,
Quando querem amar
Revolvem-se como as ondas do mar…
Frescor
Repouso
Regalo

O que toca minha pele
Também vibra em minha alma

Assim,
Sou como sou

Pertenço à família dos Sentimentos
Meu sobrenome é Intensidade.