Pessoa LGBTQIA+

Nina Carneiro

Nina Carneiro é poeta, compositora e artista autista. É autora dos livros “Devaneio Coerente” (Filos, 2021) e “No limiar do espectro” (Filos, 2024), e também conduz um projeto musical chamado Nina and The Infinite Universe.

Poesia

Princípio hermético

– Estamos aqui –
Disseram as formigas
tão pequenininhas
sobre a mesma terra
na qual caminhamos

– Estamos aqui –
Disseram as estrelas
sem-nome e distantes
no mesmo infinito
no qual existimos

Formigas e estrelas
fazendo poesia
Aqui e acolá:
o mesmo lugar
que é este universo

Márlon Manossi

Márlon Manossi nasceu em Ituaçu-Ba. É graduando de Medicina pela UESB, contista, ilustrador e poeta. No meio literário, lançou seu primeiro livro, “Ovos de Jabuti em Latas de Ferro”, de caráter inventivo e multigênero, e também é fundador do Concurso Literário Baianidades Interioranas.

Poesia

As Lágrimas das Pétalas Purpúreas

E junto a ti, o encanto Alvorecia.
E o mundo Alagava com sua melodia…
Acordes em oitava com Cores e cortesia:
Pequenos frutos de uma pura Magia…
Seus olhos Argutos, de um mar em Euforia,
Molhavam o alento e o peito em Eufonia…
O corpo Turbulento encontrava Harmonia
— As vagas Ternuras de uma Sintonia…
Nas Águas? Bravuras. Na Vida? Polifonia.
E junto a ti, o encanto Alvorecia…

E longe de ti, o encanto Perecia.
O mundo se Arruinava sem sua companhia…
Minh’alma Afogava e me Sucumbia:
Males Astutos, Óxida Melancolia…
Os corações Abruptos, em uma sinfonia,
Mostravam o Avarento corpo em Agonia!
E no Sofrimento, Numa mente Vazia,
Nefastas amarguras em Desarmonia…
Nas águas? Loucuras. Na Morte? Afonia.
E longe de ti, o encanto Perecia…

Marcone Rocha

Marcone Rocha nasceu na cidade de Fervedouro, Minas Gerais. Ainda na infância desenvolveu uma relação profunda com a poesia. Graduado em Direito e Letras, autor do livro “O Menino e o Rio – Uma celebração a Vidas Extraordinárias”, explora de forma lírica e poética as complexidades, revelando o extraordinário nos momentos simples da vida.

Poesia

Meio-claro

No silêncio das sombras, o homem caminha sozinho.
Carrega o peso do amor que não pode ser seu.
O coração pulsa forte, mas a tristeza o domina.
Como uma chama que reclina, esse amor é proibido.
Um amor que floresce num terreno tão alheio,
Como um sol que não pode tocar a lua à noite.
Entre suspiros e segredos, ele guarda um desejo.
Ainda que na penumbra da noite, ele chore sozinho,
Ele ama em silêncio, feito um poeta de amor clandestino.

Malu Baumgarten é jornalista, fotógrafa, autora do livro bilingue A poesia da hora braba (2023, ed. Bestiário). Participa de antologias de poesia e prosa pelo Brasil. É uma das criadoras do site Nós e Outras (noseoutras.com), que divulga a arte da mulher desde 2020. Faz parte do coletivo Enluaradas e do Mulherio das Letras. Vive em Toronto, no Canadá e não come animais.

Poesia

Arbustos de pernas grossas

Procurei por ele na estrada escura. Tinha de tudo que o afeto pode oferecer. Laranjas e pêssegos, mirtilos separados para não amassar, um desejo enviesado no peito. Ao longe, no fim do caminho, a casa. Muito a caminhar no dia nublado, um dia, quantos, uma vida? Vesti-me de vermelho para que me visse ele, e sua sombra ofuscava o sol, as orelhas pontiagudas mescladas nas árvores, a fumaça da casinha lá distante, um nunca chegar. Pensava nele e arrepios percorriam-me o corpo, a boca grande, os dentes pontudos, as costas largas do tamanho do mundo onde queria deitar-me e esfregar a pelugem eriçada, alimentar sua fome uma fruta de cada vez, sentir sua língua áspera nas pontas finas de meus dedos. À casa, com seus olhinhos inocentes, não queria chegar. Melhor o medo, o escuro da trilha, a vegetação retorcida, arbustos de pernas grossas. O cheiro dele enchia o ar, eu o respirava e queria, e o que queria não sei.

Joguei ao chão minha capa vermelha, tirei as botinhas de cano, libertei meus pés inchados. Deitada na capa levantei o vestido branco até a barriga, a cesta de frutas descansada ao meu lado, lambuzei-me do azul de mirtilo, adormeci no calor da tarde. Ele chegou-se com cautela, a cheirar-me o rosto com sua fuça molhada. Fartou-se de pêssegos carnudos, lambeu-me ternamente a entreperna, a língua tosca e tão longa procurando vãos e saliências na medida exata do desejo oferecido. Manso, deitou-se ao meu lado quando caía a noite, aqueceu meu corpo com o seu. Aconcheguei-me e sonhei que chegava finalmente à casa, a sombra dele obliterada pelo sol, a estrada negra agora ladeada de verdes, colorida de flores. Dentro da casa uma velha morta me encarou de olhos arregalados, e os olhos gritavam, vai filha, atrás da vida, antes que ela te devore.

Os pés de meu pai

Nunca toquei os pés de meu pai. Morenos
de sol, plantados no chão do barco,
longos e magros, seguros no viver,
eram bonitos os pés de meu pai.

As mãos de meu pai, nunca peguei
só por afeto, nem ele as minhas.
Mas não falsearam a ofertar-me o prumo
no balanço traiçoeiro do Huracán,

prontas a parar-me a queda, os pés firmes
na popa do veleiro, olhos negros que viam
longe e não me viam, os olhos dele

mais além. Sua voz dizia o mundo, do Rio Grande
à Rússia vermelha, do jazz à milonga triste, meu pai,
um homem qualquer.

Julia Roque

Julia Roque é estudante de Letras pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), professora de línguas, escritora e contadora de histórias.
Uma leitora voraz, desde criança, possui alguns textos publicados em revistas como Revista Ruído Manifesto, Revista Sucuru, além da Antologia Nós do Selo Off Flip (2023).

Poesia

anarcadium occidentale

meu amado cajueiro
quero crescer contigo
sufocada em seus desejos
na intensidade das coisas que se atiram em
nós
sou a mão que se leva ao
alto
em busca do fruto azedo
que encontra o mel da
folha
mas não arrisca
deleitar
que foge atormentada
envergando os
ganhos
ao vento
que se contenta
com o caroço

Jéssica Iancoski

Jéssica Iancoski é editora, poeta, designer gráfica e articuladora cultural. Autora de mais de 10 livros, foi finalista do Prêmio Jabuti (2022) e Prêmio Mix Literário (2022). Idealizadora do Toma Aí Um Poema, já publicou 2 mil autores e produziu mais de 1.500 poemas para plataformas digitais. Organiza o 1º Prêmio Literário da Cidade de Curitiba, com apoio da Fundação Cultural de Curitiba.

Poesia

Ela

Jannayna Sousa

Jannayna Sousa, poeta/escritora e fonoaudióloga neurodivergente. Alguém que acredita na cura pela palavra e que entende a necessidade de se ecoar falas!

Poesia

Meu recordar que é todo seu

Você não ouviu o tocar para o último som da minha voz que ouviria. Sinto muito. Perdeu a melhor das despedidas. Mas Talvez tenha sido que ser assim mesmo. Afinal, o gosto seria amargo. É, você fez o certo de fato.

Já eu… Eu… me apaixonei por partes suas que nem sequer deu tempo de dizer ou por completo desfrutar, e talvez seja melhor deixar pra lá mesmo, o problema é que deixar pra lá, não quer dizer esquecer, e eu te recordo, ah meu amor, como recordo…

Recordo o meu intenso querer do beijar sua parte mais sagrada até que seu gosto venha escorrer por entre suas pernas e por nosso, inteiramente nosso querer

Recordo o quanto quero engoli-lo e te mastigar a fim de saborear e descobrir do que sua alma é feita, e do que seus pensamentos anseiam, para então percorrer o caminho exato de como te fazer ir ao céu

Recordo a cada respirar meu, como quero inverter seu desejo e te informar que o céu é aqui, comigo, enquanto gemo estrelas, cometas, planetas e universos inteiros contigo, só contigo!

Hevi Livre

Hevi Livre é natural de Recife. Graduada em Ciências pela Universidade Federal de Pernambuco – UFPE. Detém um olhar observador e atento às complexidades das relações humanas e sua relação íntima com psiquê humana. Sua paixão pelas palavras e pela literatura permite a transmutação de sua observação em poemas belos e ricos de significados.

Poesia

ÚLTIMO ATO

É causticante o jugo que incide sobre minha ancestralidade
Meu corpo marcado é apontado pela chancela do poder
Condenado pelo disparate de ousar ser
E ser petulantemente orgulhoso do distintivo da raça
Este que me borbulha o sangue nas veias
Você, embranquecido gradualmente em sangue, suor e lágrimas
Sobretudo afeito ao recalque da etiqueta marrom
Qual tom de pele não se veste
Frivolamente se reveste ao intencionar com manejo
O resgate do poderio armado sob o qual nos vergamos aprisionados
Depara-se decepcionado com a bravura arguta
Insolente desenvoltura de resistência digna
Fecundada na fé, no axé, na alegria pulsante de nossas almas
É teu último ato e o teatro está lotado
O tom da pele que te laqueia, clareia
Nu é um retrato devastado
Em cima do palco montado pela comicidade
Com a qual caminhamos até o resgate
De nossa face
Na nossa arte
Nosso espetáculo de vida
Para todo pertencer que não se abate

Henrique Medeiros Sérgio

Henrique Medeiros Sérgio é autor, Pesquisador e Palestrante sobre: Violências contra Mulheres e LGBTQIAP+, Relações Intrapessoais, Interpessoais e Pessoais, Autor e Ilustrador de vários livros.

henriquemedeirossergio@gmail.com
WhatsApp: 21/ 98503.3000
https://www.instagram.com/henriquemedeirossergio/

Poesia

Do desdém ao feminicídio

Primeiro momento surge o amor.
Pouco depois, juntos para sempre.
Depois o príncipe não é mais o mesmo
A relação pode começar torna-se abusiva.
E ela, fica obrigada a ser colusiva.
O amor começa a virar dor.
A dor começa virar violência.
A violência vira uma iminência.
Um possível feminicídio, uma dolência.
Não deve existir uma concordata para evitar a essa falência.
Na relação não adianta ser acrobata!
Fique atenta! O amor também mata!
O agressor cumpre seu papel de algoz.
Veja muito bem o que vem após.
Tudo começa com um desdém, um desqualificar.
Que dói! dói! dói!
Silenciosamente. Solitariamente
Destrói. Diminui.
Lentamente.
Corrói!
Mesmo aquelas que os agressores não conseguiram matar
Estão mortas em vida.
Não busque ajuda de curiosos e pessoas
Com soluções mágicas ou milagrosas,
elas não irão te ajudar.

Flávio Adriano Nantes

Flávio Adriano Nantes é professor, pesquisador, escritor…

Poesia

e eu não sou um homem?

Sojourner Truth, e eu?
eu não sou um homem?
eu vejo homens respeitarem outros homens
a mim não respeitam
e eu não sou um homem?

eu trabalho como um homem
eu vivo como um homem
me visto como um homem
tenho um pai e uma mãe
e eu não sou um homem?

eu subo ao palanque como um homem
eu escrevo como um homem
eu falo às gentes como um homem
e eu não sou um homem?

deus ama todos os homens, dizem
a mim não ama
e eu não sou um homem?

minha desinência morfossintática é de um homem
e eu não sou um homem?

eu não sou um homem por amar outro homem?

Truth e eu somos
mulher
homem
mulher-homem