Pessoa LGBTQIA+

De voz visceral e instintiva, sua escrita pulsa entre silêncio e desbordamento. Corpo, terra, desejo e formas indomáveis de existir ressoam entre o selvagem e o contido, em miragens que rasgam e acolhem. É também artista visual e criadora da Norteia — teia de livre experimentação com palavras.

Poesia

Alambrado

farejei a seiva,
rastejei o chão,
senti o pulso da terra onde jaz meu bicho solto.

nem cabe
(e eu não cabia),
não cabia — e me apequenei.

desfiz-me nas margens,
onde o solo se estende como promessa
e a carne se dissolve no infinito
da mudez de um corpo que nunca antes.

o vento
me sussurra antigos mistérios
de minha dança selvagem em desatino voraz.

nem cabe, pensei,
(e eu não caberia)
nos limites de um corpo que já não é meu.

fui minha própria cerca, fui o arame,
fui o vazio que me preenche.

sou o pulso. sou a seiva.
sou o sussurro do vento.

permaneço com olhos de fúria
e a terra que me abraça em silêncio.

O coletivo de escritores Insurgências Literárias surgiu após o evento “Sextas Culturais, Artes Presentes no Campus XI: Sarau Poético” na UNEB – Campus XI, Serrinha/BA, quando se percebeu a necessidade de dar visibilidade à produção literária regional. Fundado em 7 de julho de 2023, o grupo busca compartilhar, valorizar e divulgar escritores locais, promovendo a literatura e incentivando novos talentos.

Poesia

Eu sou resistência

Quando me veem na luta
e gritam: “guerreira!”,
sinto o peso do cansaço, o descompasso,
a bagagem do mundo inteiro.

Anseio o descanso, o silêncio,
abraços que não me exijam coragem.
Mas afeto, amor, acalento.
Desejo ser humana!

Quero olhar no espelho e enxergar dentro da alma,
sentir que nada mais me falta.
Olhar pro presente e poder ser quem sou!
Sem amarras e armaduras, curadas as feridas,
sentindo o sabor da justiça.
Só assim poderei descansar!

Caindo, mas levantando, desfaço a tradição
de que minha cor não tem valor.
Mas não deixarei de lutar, por espaço, voz, direito,
Por respeito!

Afinal, é minha sina!
Jamais desistir, por determinação ou desobediência,
Sigo quebrando com a discriminação.
A minha arte é potência.
Eu sou resistência!

Paulistano de 18 anos, é escritor e poeta em início de trajetória. Aborda em seus poemas temas existenciais e sentimentais, procurando explorar as palavras e seus silêncios.

Poesia

Os dentes e os chifres

Eu sou Tudo. E nesse Tudo sou
—Também— Todo seu Oposto.
O avesso — do meu rosto,

— Remonto-me; —
Troca-peles—troco o osso.
Minha própria imagem e semelhança.

Aprisiono a Ti— Corpo
que não possuo.
Me esgarro em Ti, como um grunhido mudo.

Isso sorri para mim no escuro.
Os Dentes — mordem a gengiva
Me afoga—Tamanha Agonia.

Agora; eu sou a caça: veado troca-peles.
Vitima— Ptolemaea; Devoro o caçador.
Perco o reflexo no espelho

Sou Tudo, Sou Oposto — Sou o peso. —.
Sem receio
O corpo em meus chifres—Me ergo.

Alice Puterman

Nascida em 2002, no Rio de Janeiro. Algumas coisas me definem: uma longa batalha contra a doença mental, a sobrevivência às violências sexuais, e a deficiência. Não mais do que tudo e todos que amo. Sinto saudade. Ponto. Saudade de tudo. Aquele misto de afeto com dor, sabe? Acho que se eu fosse um sentimento, é este que eu seria. Talvez, eu já seja. Candura — uma história de sobrevivência feminina, é seu livro de estreia (TAUP, 2025).

Poesia

só vou morrer
depois que
uma voz gasta
rouca
e sem dono
escorrer boca afora

a mesma boca
que quando esperava um primeiro beijo
foi usada de tantas outras maneiras
e ficou com um não regurgitado na garganta
sem cuspe

que esta boca
espante toda
palavra morta
e parte imunda
que entala como grão de areia após a praia
em quinas sombrias da sala de estar

vou urrar até a dor se render
até minha voz virar eco
e eu rasgar
cada caco de mim
que se culpa
por homens que tomam corpos
e brotam dores

só saio dessa vida
com a garganta em carne viva

Nasceu no Rio de Janeiro em 2000. Poeta e pesquisadora, é formada em letras pela Univates. Seu trabalho envolve autoras brasileiras com o projeto de clube de leitura Amavisse, também possui o perfil literário @leituramista onde fala sobre livros escritos por mulheres.

Poesia

Saudade

te sinto aqui ainda, enroscada nos meus pés
na minha visão periférica, ainda vejo você caminhar por mim,
uma sombra, um pulo
eu giro a cadeira, você não está.
acho que te ouvi, mas não te encontro

como faço pra te encontrar além dos meus sonhos?

te sinto aqui ainda, fico aliviada
por um momento e depois, não mais.
a saudade me come pelas beiradas
ainda sinto teu cheiro
ainda te espero,
apesar de saber que você não vai voltar
e eu sei onde está.

eu olho a janela, sinto um vento.
durmo torcendo
te ver de alguma forma,
a cama ainda está morna.

a saudade me arrebata a cada roupa que visto
toco em um pouco de você a cada pelo que encontro
o que me restou da saudade:
uma foto sua e uma tatuagem.

ainda te sinto aqui
você me sente, daí?

Encontrei na poesia uma forma de me expressar como jamais havia descoberto antes. Parece clichê e pode ser que ainda não estejam perfeitas, mas é algo que carrego comigo e sei que vai continuar fazendo parte da minha vida.

Poesia

Monotonia

Pensei hoje nessa vida, em como ela anda tão pacata ultimamente que já não consigo mais diferenciar os dias.
Não me sinto como antes, sinto como se eu não fosse eu, como se o mundo não fosse real, ele não parece real.
Sinto falta de uma realidade da qual já fiz parte, mas não me pertence mais. Uma realidade onde existiam momentos bons e eu podia usar a palavra “feliz” sem soar de um jeito falso.

Pensei em sair hoje, agora. 00:18 E eu queria sair, ir à Porto Alegre, caminhar pela rua dos Andradas e conhecer mais do museu Mário Quintana. Queria sentir a brisa do vento pelo meu rosto, sentir que estou ali, viva. Afinal, de que adianta viver se você não puder se sentir vivo? Me pergunto isso diariamente. Não sei direito o que é “viver” mas sinto que é algo fora do meu alcance, algo que desconheço já têm um tempo.

Talvez a definição de viver não esteja no dicionário
talvez esteja em você ou em mim, penso se em algum momento irei achar a real definição, se em algum momento eu sentirei que estou viva de novo
e não só mais uma pessoa andando pela cidade.

Natural de Ituaçu-Ba, graduando de Medicina pela UESB, contista, cordelista e poeta. No meio literário, lançou seu primeiro livro, “Ovos de Jabuti em Latas de Ferro”, de caráter incentivo e multigênero, e também é fundador do Concurso Literário Baianidades Interioranas.

Poesia

CORDEL: JUÁ & CIRIGUELA

Terezinha foi pro pasto Plantar juá e ciriguela.
Escavou a terra argilosa. Molhou com sua remela.
Semeou com pirilampos. Adubou com mel, canela.

Sua filha foi pro pasto Colher juá e ciriguela.
Catou frutinhas da grama Pra galinha magricela,
Que todinha fiapuda Devorou uma bagatela.

Sua neta foi pro pasto Comer juá e ciriguela
Correu a moleca risonha Com uma grande tigela.
Devorou caroço e talo Com o dulçor aquarela.

Mas a água fugiu do pasto. O sol escalda as costelas.
Fugiram mãe, filha, neta À grotesca cidadela.
Deixaram o juá triste, Secaram a ciriguela.

O sol alimentou a fome. A morte comeu moela.
Abandonaram folclores. A secura rachou a goela.
Ninguém mais foi pro pasto Catar juá e ciriguela.

A mãe virou faxineira. A filha ficou banguela.
A neta pegou cobreiro. Era uma vida balela.
Tinham saudades do pasto, Do juá e da ciriguela.

Escritora contemporânea, escreve sobre gênero e suas multiplicidades. É paulista, mulher lgbt e pessoa com deficiência oculta. Mãe de pets e de plantas, atualmente, vive em São José dos Campos.

Poesia

Enxaguando a mente

Mãe, faz um pix?
Maria coloca roupa para lavar.
Maria, onde está meus sapatos?
Maria adiciona o sabão.
Mãe, o almoço tá pronto?
Maria enxagua.
Você devia ficar em casa no sábado com sua família.
Maria esfrega as roupas com rapidez.
Maria, você está lavando roupa de novo?

Submissa Maria não é
Mas retrucar pra quê?
Uma faísca pode gerar um incêndio
Maria não quer queimar nada
O que ela quer é paz.

Paulistano nascido em 1998, o autor, que segmenta sua literatura em três pseudônimos, é bacharelando em Letras e escreve prosa e poesia, abordando questões sociais, sexualidade e saúde mental. Lançou seu primeiro livro em 2019, já participou de várias antologias e recebeu destaques literários. Sua poesia agora é publicada pelo pseudônimo Jon Everson.

Poesia

Natureza-morta

Os dias escorrem até o extermínio.
Estou aprisionado em seus domínios,
Envolvido em seu abraço cortante.
Eram três meses; são só treze dias.
Preouço o som da trombeta, a agonia
De saber que sou desimportante.

Meu castelo se desfaz em meus dedos.
Olho para um céu tingido de medo,
E me queimo ao ferver a minha ira.
Sem tempo para o choro, fito o espelho.
Meu punho branco fi(n)ca vermelho
Quando o aço gasto golpeia a mira.

O amanhã é um dia para o que será.
Quando eu me for, eu irei, e você irá
Ter de botar menos um prato na mesa.
O quarto será a memória da sepultura.
Eu estarei posando para a sua pintura,
Inanimado como a própria natureza.

Gestora Cultural e graduada em Rádio e TV. Atuou como Facilitadora de Histórias na Bienal do Livro de SP e foi indicada ao prêmio Expocom 2012. Colaborou com coletivos poéticos, teatro e produções audiovisuais. Estreou na literatura impressa em 2013 e foi finalista do Festival de Poesia de SP em 2015.

Poesia

Torta

Dobrei sem simetria outro papel
Mesmo seguindo a linha pautada
cortei mais acima da linha pontilhada
Outra vez

Acontece o mesmo com cobertores
Junto as pontas
me concentro e rezo
mas sempre pende uma ponta
Sempre não tão bom assim

Lençóis de elástico então!
simbolizam toda minha trajetória errante
Da batata muita casca
e outros crimes com tesouras sem ponta

Talvez eu continue escrevendo inclinado
em linhas desbotadas

A curva do rio nunca quis ser reta
Transborda o cinza que
teima em emergir retilíneo
onde a nossa natureza
só quer existir

torta