Pessoa Gorda

Nasceu em Olinda, Pernambuco. Bacharel em Direito e em Economia e com especialização em Planejamento e Gestão Pública. Atualmente trabalha como servidor público federal. Teve poemas e contos selecionados em diversas antologias. É autor da ficção científica “A Dinâmica Orgânica”, Ed. Ibis Libris, 2024.

Poesia

MÉRITO E MENDICÂNCIA

Havia sido um pobre e simples cristão
Mas você exige grandeza dos homens
Nada poderia querer de um simplório
Embora do seu amor em vão imploro
Porém, da paixão que recebo as ordens
Sim, tolo que sou, mas que coração!

Corri em busca de glória e de riqueza
Com desejo ardente e vontade forte
Cobri-me de título e de medalha
Empreendi, menti, lucrei às custas da alma
Levei a inimigos perigo de morte
Implacável, por cima, virei a mesa

Ouça então esta súplica, por favor
Eu assim mereço que me corresponda
Pois tudo que tinha ao meu alcance fiz
Consegui obstinado o que sempre quis
Rogo para que logo me responda
Tornei-me agora digno do seu amor?

Alice Puterman

Nascida em 2002, no Rio de Janeiro. Algumas coisas me definem: uma longa batalha contra a doença mental, a sobrevivência às violências sexuais, e a deficiência. Não mais do que tudo e todos que amo. Sinto saudade. Ponto. Saudade de tudo. Aquele misto de afeto com dor, sabe? Acho que se eu fosse um sentimento, é este que eu seria. Talvez, eu já seja. Candura — uma história de sobrevivência feminina, é seu livro de estreia (TAUP, 2025).

Poesia

só vou morrer
depois que
uma voz gasta
rouca
e sem dono
escorrer boca afora

a mesma boca
que quando esperava um primeiro beijo
foi usada de tantas outras maneiras
e ficou com um não regurgitado na garganta
sem cuspe

que esta boca
espante toda
palavra morta
e parte imunda
que entala como grão de areia após a praia
em quinas sombrias da sala de estar

vou urrar até a dor se render
até minha voz virar eco
e eu rasgar
cada caco de mim
que se culpa
por homens que tomam corpos
e brotam dores

só saio dessa vida
com a garganta em carne viva