Pessoa de Origem Latino-Americana

Cecília Zugaib participou de diversas antologias no Brasil e na Suíça. Foi finalista no Festival de Poesia de Lisboa 2024 e fez parte do Festival Zürich liesst com a instalação da Zwischentext. Lançou os livros de poesia Fina Linha e Khalas em 2024. Atualmente, trabalha em dois livros de haiku e um de contos.

Poesia

Processo

Dizem que, para curar,
há de se chorar,
ir até o fundo, tomar impulso,
se reinventar,
voltar à tona,
receber o tempo como um abraço,
aceitar o passado,
traçar planos,
não pensar,
cultivar hábitos saudáveis,
exercitar-se, dormir muito,
estar com amigos,
meditar.

Curar é processo.
A dor pulsante
corta a alma,
marea os olhos,
seca a boca.

Curar é tempo em câmara lenta,
é silêncio incômodo
que não acha posição confortável,
é exaustão que te adormece,
o caminho necessário.

Vermelho no branco

Desolação,
se saísse,
seria um urro do abdômen
um soco na parede
o vermelho no branco
uma mordida na carne
o branco no vermelho
as lágrimas escorrendo
o vermelho invadindo o branco
o poema no papel
o vermelho – todo o vermelho –
no branco.

Catia Castilho Simon

Cátia Castilho Simon é mestre em literatura brasileira e doutora em estudos de literaturas brasileira, portuguesa e luso-africanas/UFRGS. Participou de diversas antologias, escreve mensalmente para os sites RED (Rede Estação Democracia) e Rede Sina. Tem cinco livros individuais. Integra o Mulherio das Letras/RS; vice-presidenta cultural da AGES 2023/2024.

Poesia

a grande máquina

a grande máquina vocifera
pertoequente pertoequente pertoequente

mãos manchadas
lenços ao vento

a grande máquina vocifera
retumbante
pertoequente pertoequente pertoequente

primeiro, as crianças!
trombeteia
pertoequente pertoequente pertoequente

saltam papéis
faltam sapatos

pertoequente pertoequente pertoequente
em estridentes gargalhadas
segue em frente

Carolina Ana

A escrita de Carolina Ana é uma constante busca por pertencimento, expressando incômodos e reflexões. Inspirada em questões filosóficas, espirituais, ancestrais e LGBTQIA+, ela mergulha em temas como vida, morte, amor e desejo. Com formação em comunicação e especialização em escrita criativa, sua voz singular ecoa através das palavras. @carolina.ana.oz

Poesia

Iansã & Ossaim

Ocupo espaço, mas não sei onde estou
Moro em dois lugares, mas não moro em lugar nenhum
Corro, percorro, viajo com o vento
Não sei onde quero estar
Talvez a vontade de estar em todos os lugares
Me atrapalhe em permanecer

Tenho a sede do encontro
Tenho a sede da troca, mas nem todos entendem
Na verdade, quase ninguém entende
Será que alguém já entendeu?
Ofereço a troca, mas logo vou me embora
Sem ofensas, não tente me prender

Vento não se prende
O dono desse vento mora nas florestas
Ele também prefere estar sozinho
É por isso que ele é o dono
Ele nunca tentou me prender
E eu sempre ventei ao seu lado
Mesmo sem seu pedido
Mesmo sem seu consentimento
Sempre o protegi de si mesmo
Afinal, o vento é transparente

Bia Viana

Bia Viana é escritora, jornalista e comunicadora. Autora da obra “A mulher jornalista no cinema” (2020) e coautora da antologia “Publicar é um Direito” (2023), escreve sobre comunicação, gênero e cultura. Foi delegada em evento na ONU pelos direitos das mulheres e atua internacionalmente em projetos sociais. Está nas redes como @btrzviana.

Poesia

Pronome próprio, incomum

Um dia, terei minha própria casa
Minhas próprias coisas
Meu próprio jazz, tocando em meu próprio rádio
De meu próprio gosto
Acompanhado do próprio vinho, barato
Aquele que eu mais gosto
Que a gente sempre compra em três garrafas quando vai ao mercado
Com meus próprios pés, descalços
E minhas próprias mãos, segurando duas taças
Uma de cada lado
Um tinto e um rosé, para aproveitar os dois gostos
Também podem ser duas cervejas
Tudo depende do próprio momento, claro
E vou dançar no meu próprio tapete aveludado
Debaixo de meu próprio teto
Com o volume inapropriadamente alto
Para a hora de ser eu própria
Que será, espero, toda hora
Ah, como eu quero ser própria.

Bê Luiz

Bê Luiz é um ser humano que produz arte de diversas formas e gosta bastante disso. Vive em Belo Horizonte e atualmente cursa jornalismo na UFMG.

Poesia

Agro

Em estado de azeda,
Nada agridoce, apenas azeda,
Sem pena do que passe à frente.
Frente todos os problemas, preciso urgentemente
De um levante que enfrente

Explosões internas e externas,
Inspirações e mágoas frescas,
Com tirolesas e canhões,
Os próprios levantes das rebeliões,
Que se iniciam nas pontas dos dedos.

Fazem crer em escrever
Como maneira de ver
O invisível revoltoso da emoção culpada,
A revolta é melhor colocada se rimada com fogo,
Do que gritada com raiva.

Raiva do mundo em chamas nada rasas,
Mágoas frescas, inspirações desacreditadas,
O que ficou foi a palavra.

Palavra ou nada, natureza ou nada, mudança ou nada,
É assim que acaba:
Em ponto final ou em fumaça.

Andrey Cechelero

Andrey Cechelero é Músico, multi-instrumentista, filmamker e escritor de Curitiba, Paraná. Como artista da gravadora AZUL MUSIC já lançou 24 álbuns desde 1998. Como escritor já editou 4 livros. Andrey tem um trabalho intenso nas redes sociais com poemas que falam à alma.

Poesia

sobre nós

sobre nós
a adaga fria do sofrimento
o mundo das aflições
pesado nos ombros
a todo momento
sobre nós
cem mil newtons de atmosfera,
pressão em todo centímetro quadrado,
cercados de água por todos os lados
curvamo-nos à força
vicissitudes dobram as gentes
e amar demais … igualmente
sofrer também é passar
sofrer é também deixar passado
vencer o atrito e chegar no espaço
do outro lado
do outro lado do espaço
sobre nós
sempre foi
sobre nós.

Andréa Zemp Nascimento é mãe, poeta, artista-educadora e arquiteta. É autora de “A criança e o arquiteto: quem aprende com quem?” (Annablume; FAPESP, 2015), de “tecedeira, com verso…” (Helvetia Éditions, 2024) e de “nascimento constante”, em co-autoria com Paula Constante (TAUP, 2025). Um de seus poemas é destaque do Prêmio Off Flip 2025.

Poesia

pélago

ilhada em ferida
não mais em carne viva

deito os cílios
às margens da casca

e vejo:
a pele é vasta

eras eros

verso é fio
fruto que flui
escuto o que fui
imito outras eras

aproprio-me do fio
não pra compor uma reta
espiral é o que me interessa
espiral da espera à vera

ou então torno-me hera
espraio-me desenfreada
ousada em camadas
agarro-me a peles diversas

quimeras

lisas ásperas
efêmeras vésperas
que reverbero
eco pleno e sincero

é no espontâneo que opero
energia incontida de eros

Amélia Greier

Amélia Greier recebeu a medalha Adélia Prado da AFEMIL em 2019. Em 2021, participou da publicação do livro “(Con)ciência. Historias de la ciencia brasileña”, promovido pela Universidade de Salamanca em parceria com a FIOCRUZ. Em 2024, venceu o 2º Concurso de Contos PodLetras com o conto “Pano de Fundo”.

Poesia

Conjugação

Amor nascido às avessas
Tu nasceste primeiro, e eu vim após
Paixão reta, de morfologia travessa
Ele foi pioneiro, e eu nasci sendo nós

Desde o início, indicativos
Olhares, mãos dadas, sorrisos e beijos
Juntos regíamos todos os substantivos
E fizemos histórias conjugando desejos

Então, o sentimento ficou abundante
Paixão invariável, desatino imperativo
Mais-que-perfeito, foras meu modo mais excitante
Na tua presença, tudo era intransitivo

Passados tantos tempos, perdemos os adjetivos
De todos os predicados, só sobrou nossa ligação
Querido, não deixemos nosso amor no subjuntivo
Transformemos todas as sentenças em linda oração

Pois, de primeira, amar foi a mais linda surpresa
Depois, viver contigo foi pura emoção
Se o sentimento é tão lindo quanto a língua portuguesa
Ao invés de partir, façamos do amor a derradeira conjugação