Pessoa de Origem Latino-Americana

Nina Carneiro

Nina Carneiro é poeta, compositora e artista autista. É autora dos livros “Devaneio Coerente” (Filos, 2021) e “No limiar do espectro” (Filos, 2024), e também conduz um projeto musical chamado Nina and The Infinite Universe.

Poesia

Princípio hermético

– Estamos aqui –
Disseram as formigas
tão pequenininhas
sobre a mesma terra
na qual caminhamos

– Estamos aqui –
Disseram as estrelas
sem-nome e distantes
no mesmo infinito
no qual existimos

Formigas e estrelas
fazendo poesia
Aqui e acolá:
o mesmo lugar
que é este universo

Marison Ranieri

Com graduação em Letras e pós em Escrita Criativa, Marison Ranieri tem publicações em revistas literárias e acumula seleções em prêmios literários e antologias. Em 2024, publicou “Meu corpo é lar de absurdos” pela Editora Flyve. Sua escrita quase sempre se mistura ao mormaço de Recife.

Poesia

No espaço, ninguém pode te ouvir rimar

Anos-luz diante de mim,
Se houvesse quem ouvisse,
Até a sinapse ecoaria
E mais alto eu pensaria
Se alguém reclamasse.
Se houvesse quem ouvisse,
E quisesse meu mal, faminto,
Com forquilhas de afeto,
Eu percorreria galáxias frente e verso,
Posto que não sou extinto.
Se houvesse quem ouvisse,
Eu saudaria este canalha
Com as mãos na garganta,
E o detestaria com o amor de um pai
Que atira os piores adjetivos ao filho,
Mas jamais o abandonaria,
Pois sabe que o silêncio,
Este buraco negro,
Devora mais que o ódio.

Mandacaru

Mandacaru floresceu em meio à dificuldade, nas noites de inverno. Agora agarra-se à vida como ao Sol, e lança suas palavras ao vento.

Poesia

O peso em horas

O nó prende as palavras
O vidro desfoca e faz doer
O pêndulo pesa e desinfla
A bobina insiste em correr

Mexa o travesseiro murcho
Deixe o óleo escorrer
Um interior que ferve
Adormece ao derreter

O nó prende as palavras
Cada dobra faz ranger
O sino já desafina
A bobina vai correr

Feito para funcionar
Sem saber o que fazer
Um relógio tão cansado
Não se lembra de bater

Mabelly Venson

Mabelly Venson é uma matemática que se apaixonou pela escrita. É parteira de livros na Editora Toma Aí Um Poema e autora de “Tudo Que Queima”, “apenas mãe” e “GELO”, obras que focam nas complexidades do ser mulher.

Poesia

Confissão a Netuno

Lembra

as ondas quebrando na costa do atlântico sul
os menininhos construindo palácios sob o voo das aves marítimas
nossos lábios ardendo de suor                   e sal

Foi quando você me disse     :não se aproxime

engoli o afogamento sinuoso dos sonhos
o farfalhar da melancolia
a confissão do desespero

foi por isso que fiquei com os olhos presos no canto da sereia                  (e emudeci)

Era agosto                        era você
                       e a rede

Eu vi você cruzando a borda do mar
eu vi você na embarcação de vinte e três pés
eu vi a teia de luz invadindo seu corpo         impenetrável
eu vi o espaço tênue entre o sonho              e a batalha

você

metade devoção metade agilidade
metade medo metade cobiça
metade homem
             metade rei

Julia Roque

Julia Roque é estudante de Letras pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), professora de línguas, escritora e contadora de histórias.
Uma leitora voraz, desde criança, possui alguns textos publicados em revistas como Revista Ruído Manifesto, Revista Sucuru, além da Antologia Nós do Selo Off Flip (2023).

Poesia

anarcadium occidentale

meu amado cajueiro
quero crescer contigo
sufocada em seus desejos
na intensidade das coisas que se atiram em
nós
sou a mão que se leva ao
alto
em busca do fruto azedo
que encontra o mel da
folha
mas não arrisca
deleitar
que foge atormentada
envergando os
ganhos
ao vento
que se contenta
com o caroço

Jéssica Iancoski

Jéssica Iancoski é editora, poeta, designer gráfica e articuladora cultural. Autora de mais de 10 livros, foi finalista do Prêmio Jabuti (2022) e Prêmio Mix Literário (2022). Idealizadora do Toma Aí Um Poema, já publicou 2 mil autores e produziu mais de 1.500 poemas para plataformas digitais. Organiza o 1º Prêmio Literário da Cidade de Curitiba, com apoio da Fundação Cultural de Curitiba.

Poesia

Ela

Ivânia Rocha

Ivânia Rocha é apaixonada por livros e leitura. Professora de profissão, escritora de vocação e pesquisadora por necessidade e vontade. Autora de Páginas do sertão: recepção de leitoras sertanejas – Appris, 2023; Da varanda dos fundos – TAUP, 2024; É permitido gozar! (org.) Escola de Escritoras, 2024. Mestra e doutora em Letras.

Poesia

Paradoxo

Vejo um idoso lutando pela vida.
Vejo jovens querendo morrer;
Um postergando a partida,
Os outros teimando em adoecer.
Enquanto o primeiro não se queixa e vive a sorrir
Os últimos muito reclamam e
Só pensam em partir, sumir.
Desaparecer. De qualquer jeito:
Solidão. Drogas. Suicídio.
Querem aliviar a dor; desejam não sentir
A maneira é fugir – seja como for.
O velho se apega a tudo:
Família, dinheiro, amor.
Para os novos, resta o vazio e o absurdo
De um mundo distópico e enganador
Na ciranda da vida, não sei o que pensar
Não quero colocar mais sal na ferida
Que por si não vai cicatrizar
No embalo da subida ou descida,
Não cabe a mim julgar!

Guilherme Eisfeld

Guilherme Eisfeld busca nas palavras uma forma de se encontrar com o meio. Curitibano não-praticante, editor, publicou seu primeiro livro de contos “Pedaço de Pano para Secar Enxurrada” em 2023 e segue em transformações.

Poesia

Haja paciência

Se de apenas uma casa pudesse dispor
faria suas boas-vindas de cacos vermelhos
alegorias de janelas quebradas
alegrias de pequenos bufões.

Livros mesclariam velhos retratos
roxos dedos gritariam nos martelos
um par de óculos sussurraria benzimentos.

Tacos soltos pulariam tropeços
tapetes agarrariam pés descalços
ensinando passos de dança
na superfície lunar.

Periquitos australianos e canários belgas
recitariam ao lado de pés de couve, chicória e limão
até tatus desenrolarem a imigração.

Filmes repetidos em cartaz
transformariam continuamente as tardes
em sessões de bolo formigueiro.

Ao crepúsculo
seus portões se abririam
o vento acenaria
o retorno perene.

Gleidston Alis

Gleidston Alis é professor, escritor, cantautor, performer e multiartista de Minas Gerais. É doutor em estudos literários pela UFMG e seus trabalhos se fundamentam na intermidialidade, na inter-relação entre discursos ou áreas do conhecimento, no deslocamento do olhar pela multiplicidade de perspectivas que suscita a cultura contemporânea.

Poesia

A porta bate atrás de mim
Tapa nas costas
Tranca à frente
Ferrolho da madeira intransponível

Será possível?
Todas as portas do mundo batentes
Impactos concomitantes
Sinfonia de Buns! Bans! e outros socos

Todas as portas fechadas
Pra tudo do lado de fora
Trancadas por dentro
Trancadas por nada
Por não há de quês

Daniela Camargo de Oliveira

Daniela Camargo de Oliveira é medica e escritora em formação na Escola de Escritoras de Débora Porto, com poemas e contos publicados nas coletâneas . Seu primeiro livro publicado foi MOVIMENTOS, pela Editora Minimalismos em 2024.

Poesia

ESCRITORAS

Sim já somos!
Ainda que não escutem, ainda que não leiam.
Já somos, já dizemos. Escrevemos.
Em grandes caldeirões, misturamos letras
E medos, amores, sensações,
Cozinhamos o ódio que nos mirava do alto das colinas.
Ódio que nos queimou vivas,
Enquanto nossas palavras
Sobreviviam em nossas filhas e cadernos de receitas.
E não buscávamos nada além
Da necessidade de resistirmos por nós mesmas,
Nossas existências, nossas mínimas necessidades
E por todas as outras que vieram
Já transformadas em cinzas ou não,
Já doutrinadas e envernizadas ou não,
E pelas que viriam, bruxas em seus quintais,
Com seus banhos e infusões,
Mulheres que diziam, ousadas,
Em um mundo adverso.
Mulheres que liam, falavam, ouviam e discordavam.
Mulheres que se permitiam orgasmos,
Mulheres que seriam apedrejadas,
Rebeldes, inadequadas. Mulheres libertas
E suas palavras… Sim, já somos!