Pessoa com Experiência de Violência Doméstica

Natural de Americana, SP. Lançou em 2024 o infantojuvenil “A fantástica aventura de Ferdinando e quem eu lá conheci” — vencedor do Prêmio Book Brasil nas categorias Melhor Infantojuvenil e Aclamado pelo Público. Participou de antologias de ficção e nesse ano lança a obra de realismo fantástico “Na estranha imagem entre nós”.

Poesia

Restauração

Subindo a escada da virtude
Afogo-me nos desejos dos outros
Cedo à tentação de ignorar as faces já esquecidas
Suplico a Deus para que não me perca de mim mesmo
Dos elementos que hoje me parecem estranhos
Mas que foram talhados no gabinete da minha história
Escondo a desordem por trás dos sorrisos contidos
Mas sempre me escapam as palavras


Nos meus cabelos ao vento
Deixo que me suma a estrada
Ignorando a fotografia da violência
Toca a melodia da alegria nos campos da tristeza esquecida
E continuam a me espetar
Mas estou detrás das camadas que não podem nem ver nem sentir
Nesse mundo tão meu
Só são convidados os que olham para dentro de mim

Poeta, escritora do Amazonas, tem 3 livros solo, Meu Grão de Poesia (1981), Milton Hatoum- Um certo olhar pelo Oriente-Amazônico (2008) e In(-)versos do meu Verso (2024). Além de participação em 29 Antologias e Coletâneas. Colaboradora dos Coletivos Mulherio das Letras e Enluaradas Amazônia.

Poesia

NADA NA VIDA ME ASSUSTA*

Nada na vida me assusta
A não ser meus sonhos escuros, pesadelos confusos, restos de mim no silêncio.
Aquela voz, sem som, desvendando o vazio da solidão noturna, me acordando.
Teremos mais uma conversa difícil, chamo meus guias e santas, preciso de força.
Dragões e feras se postam em pelotão, reais aos meus olhos, aos deles sou caça!
Peço reforços, em plena consciência que sou ouvida, mas não sei se sobrevivo,
Passarei a noite em claro, buscando redenção, negociando minha paz entre feras.
Nada na vida me assusta
Ontem domei dragões, enchi a cara com eles, contei chistes e desgraças, disfarcei
O tempo enquanto planejava a rota de fuga, seduzindo as ideias a meu favor e lei.
Perdi, algumas vezes perdi, deixei-me estraçalhar entre as garras de um dia ruim.
Não, não tenham pena de mim, nem eu mesma tenho, fiz o que não me orgulho
Rompi comigo mesma algumas vezes, para sobreviver, fingi ser outra e dissimulei.
Nada na vida me assusta
Carrego sempre comigo um amuleto escondido, a mãe ancestral me ensinou:
Filha, peça licença e passe! Carrego comigo suas dores e crenças, seus dons
De fazer mandingas, de fazer simpatias, de fazer chover, brilhar o sol e serenar.
Por isso domo feras e gente sem coração, domo o destino que me quer dobrar
Carrego sempre comigo a palavra afiada, escondida entre os peitos, se precisar.
Nada na vida me assusta
Não tenho medo de grito, de tapa, de safanão, de humilhação, nem de fanfarrão!
Sei bem como são, as marcas do embate ainda posso sentir por debaixo da pele
Não me agridem mais, passei tardes em solidão, me ensinaram a cavalgar o leão.
Hoje, as minhas tarde são minhas e do vento, do sonho acordado em pleno verão,
Que me cega de paixão por mim mesma, assim como sou, desfigurada e bela!

 

 


*Livremente inspirado no poema “ A VIDA NÃO ME ASSUSTA” de MAYA ANGELOU.