Paraná

Alexandre Ricardo de Lara nasceu em Curitiba em 1975 . Graduado em engenharia civil e pós-graduado em administração de empresas. É autor do livro de contos “O Cão Alado”.

Poesia

Um dia

Um beijo no rosto
Um convite
Nossos porta-retratos
Uma janela

Nuvens escuras
Arcabouço formado
Pequenos sinais
Abrindo crateras

O avesso
Almas convexas
Caminhos opostos
Grandes mazelas

Nova cidade
Outra atmosfera
A volta ao início
Um dia
Quem me dera

Ana Gabardo

Ana Gabardo é psicanalista e pedagoga, mora em Curitiba/PR e escreve desde que se lembra de ser gente. Desde cedo, reconhece o imenso compromisso e afeto com as palavras, que para ela são um modo de sobrevivência e de embelezamento da vida. Ela alimenta cotidianamente seu blog (https://www.sonhosemergentes.com/) com escritos sobre a vida e a morte, sobre os mergulhos e as dores e, às vezes, com um pouco de humor.

Poesia

9 terça-feira

vamos desenrolar essas e outras histórias?

                                                                (tensão
                                        estômago cimentado
                                                        desde então
                                                            não como
                               e eu que achei que já vivia
                                                               a minha
                                                   melhor história
                                             ou melhor dizendo
                       a minha única história possível
                      como pode uma única pergunta
                                                abrir uma fenda?
                                                  encarei a fenda
                                                               para ver
                                            o que tinha dentro
                                                     era interesse)

Taíssa Nadai

Taíssa de Nadai é formada em direito e graduanda em letras pela UFPR. Apaixonada pela busca de caminhos interiores e oníricos às realidades hostis, sempre se mostrou bastante afeita à utilização da arte como ferramenta de mudança social. Em 2023, publicou seu primeiro livro de literatura, Restos do devaneio, pela Editora Patuá.

Poesia

Uma vontade
incessante
de sentir fome
de ser tão estrangeira
a ponto de nunca estar no devido lugar e isso ser justamente o melhor horizonte porque dessa forma me equilibro com a minha arte
a minha parte
e o que pode haver de
diferente
não me contento em fazer o mesmo alcançar os objetivos já traçados brincar de brincadeiras já conhecidas amarelinha
queimada
telefone sem fio
hoje em dia todos os telefones são sem fio
de que adianta?
Busco o não pertencimento
o único que poderá
quiçá
me lavar
me levar
à fala mais intrínseca
e universal.

Sandro Sedrez dos Reis

Natural de Rio do Sul (SC), Sandro Sedrez dos Reis é formado em Filosofia e em Gestão de Sistemas de Saúde. Participou do grupo do Varal Literário (UFSC) na década de 1980. É autor de contos, novelas e poesias. Acredita que histórias e versos criam pontes entre os sonhos e os caminhos humanos. E isso nos faz perseverar na aventura da existência, transformando a jornada.

Poesia

Vigiar e Punir

Olhos
          te seguindo nas ruas
Olhos
          te matando na cama
Olhos
          apalpando teu corpo
          aumentando a tua fama
          não te deixando em paz
Olhos
          que só querem te ver
          rastejando e roendo
          (e com eles parecer
          e a todos afirmar)
Olhos
          que te pegam
          que te envolvem
          e dissolvem
Olhos de Vermes, meu Deus!
          que agora são teus
                                    meus
                                          nossos

Rodrigo Domit

Rodrigo Domit é autor dos livros Colcha de Retalhos, Ruínas da Consciência e Coisa Pouca.

Teve contos e poemas selecionados em concursos literários e publicados no Brasil, em Portugal, na Alemanha e na Argentina.

Criou e mantém desde 2011 o projeto voluntário Concursos Literários.

Poesia

Triunfo

Não tenho a voz
embargada por emoções

não grito
não resisto

estou certo da derrota
tanto quanto da impermanência

– tenho em mim
a serenidade dos prostrados

E contento-me com pouco

cultivo revoltas
em fogo brando

e rumino ideias fixas
certezas impassíveis

como nuvens de tormenta
eles passarão

e nós ainda estaremos aqui

sobre as ruínas
– triunfantes

Manoel Lima

Manoel Lima é poeta e músico de Curitiba-PR.
Escreve desde o Ensino médio.
As inspirações vem das vivências da periferia, leituras e as ideias que surgem do ócio.

Poesia

Sol Carmesim

E por essas terras sul-americanas,
Que buscava-se o “vermelho como brasa”,
A tintura do pau-brasil.
Para alguns: riqueza,
Outros: sangue.
De quem podia escolher.
O passado arde como lembrança vívida.
Nossa terra de carnavais e dores,
Mais uma vez embrasa,
Sob as asas desse solo, que és mãe gentil.
Quantos tecidos foram tingidos?
E quantos foram os atingidos?
Até o céu está mudado.
Entre fumaças e cinzas.
Na aurora um novo Sol.
Sol Carmesim.
Será um presságio?
Mais uma vez descobertos,
Dessa vez, por nós mesmos.
Aceita uma última dança?

Mabelly Venson

Mabelly Venson é uma matemática que se apaixonou pela escrita. É parteira de livros na Editora Toma Aí Um Poema e autora de “Tudo Que Queima”, “apenas mãe” e “GELO”, obras que focam nas complexidades do ser mulher.

Poesia

Confissão a Netuno

Lembra

as ondas quebrando na costa do atlântico sul
os menininhos construindo palácios sob o voo das aves marítimas
nossos lábios ardendo de suor                   e sal

Foi quando você me disse     :não se aproxime

engoli o afogamento sinuoso dos sonhos
o farfalhar da melancolia
a confissão do desespero

foi por isso que fiquei com os olhos presos no canto da sereia                  (e emudeci)

Era agosto                        era você
                       e a rede

Eu vi você cruzando a borda do mar
eu vi você na embarcação de vinte e três pés
eu vi a teia de luz invadindo seu corpo         impenetrável
eu vi o espaço tênue entre o sonho              e a batalha

você

metade devoção metade agilidade
metade medo metade cobiça
metade homem
             metade rei

Jéssica Iancoski

Jéssica Iancoski é editora, poeta, designer gráfica e articuladora cultural. Autora de mais de 10 livros, foi finalista do Prêmio Jabuti (2022) e Prêmio Mix Literário (2022). Idealizadora do Toma Aí Um Poema, já publicou 2 mil autores e produziu mais de 1.500 poemas para plataformas digitais. Organiza o 1º Prêmio Literário da Cidade de Curitiba, com apoio da Fundação Cultural de Curitiba.

Poesia

Ela

Guilherme Eisfeld

Guilherme Eisfeld busca nas palavras uma forma de se encontrar com o meio. Curitibano não-praticante, editor, publicou seu primeiro livro de contos “Pedaço de Pano para Secar Enxurrada” em 2023 e segue em transformações.

Poesia

Haja paciência

Se de apenas uma casa pudesse dispor
faria suas boas-vindas de cacos vermelhos
alegorias de janelas quebradas
alegrias de pequenos bufões.

Livros mesclariam velhos retratos
roxos dedos gritariam nos martelos
um par de óculos sussurraria benzimentos.

Tacos soltos pulariam tropeços
tapetes agarrariam pés descalços
ensinando passos de dança
na superfície lunar.

Periquitos australianos e canários belgas
recitariam ao lado de pés de couve, chicória e limão
até tatus desenrolarem a imigração.

Filmes repetidos em cartaz
transformariam continuamente as tardes
em sessões de bolo formigueiro.

Ao crepúsculo
seus portões se abririam
o vento acenaria
o retorno perene.

Gisela Maria Bester é escritora gaúcha radicada no Paraná e no Tocantins, mestra e doutora com estágio pós-doutoral em Direito. Vencedora do 38.º Prêmio Yoshio Takemoto de Literatura 2024 (Haicai). Autora dos livros Pinte-me de Azul (Mondru, 2023 –Troféu Capivara Reconhecimento Literário, no Prêmio Literário da Cidade de Curitiba 2024) e Sorrir, esse sacrifício (TAUP, 2024).

Poesia

ANTRÓPICO

aterrisse seu avião em uma pista cheia de mar
sufoque-se com as fumaças das queimadas
– sobrepostas sonoridades já não mais possíveis –
cegue-se com as tempestades de fuligens
tome veneno no copo d´água, outrora de vida cristalina
coma hormônios no frango de padaria
ingira antibióticos e líquidos vacinais
nas maminhas da macia carne bovina
celebre o fim das outras espécies, asas não
ria do veado dependurado, sangrando no seu gozo estéril, azar
faça pouco da onça, na beira da civilização
não se esqueça da transgenia, comendo a sua fome feia, recrute sempre sua imensa ganância
sinta calor extremo, águas espessas
compre mais aparelhos de ar-condicionado
e espere os apagões, na sua plúmbea visão
coce seu cancro de pele de ozônio de sol aberto
desafie a rotação e a bondade do planeta
extraia mais riquezas daquilo que não é seu
mate indígenas por amianto, lítio, cassiterita, ouro,
madeira e terra, espalhando ácido pranto
conte mais dinheiros e vantagens,
derrube mais árvores, mate mais e mais, nascentes, sementes,
bichos, sonhos, afetos, e não se esqueça, imutável ser,
de fazer de conta que o inferno não parte de si

Um corpo que cai

Mulher, te dei morada, mas…
essa boca humilhada
esses olhos gencianos
onde estão teus dentes?

Mulher, te dei caminho
de veias, para resvalar o sangue quente
de pernas, para levar teus sonhos ao cio
de línguas, para friccionar tuas traduções
e há glossários, para necessárias desobediências

Mulher, te dei desejos
Cordas e sons de cantar a vida úmida
Mas essa dobradiça repetindo
rangendo mecânica dor
                                    esgotada
                                               e seca
qual trapo perdido, escorregando no vazio
movimenta insana inanição

Mulher oceânica
investiga teus rastros
e tenha em ti um poema
porque um corpo que cai
é o mesmo que se levanta