Mulher

Gabriele Demartini

Gabriele Demartini é mulher da periferia de Porto Alegre, Advogada pela PUCRS graças ao ProUni, teatreira desde 2014, escritora e poetisa desde sempre, contando a história do meu corpo e as histórias das mulheres que me constroem – sejam minhas ascendentes ou aquelas que cruzam meu caminho. Autora do livro “Diafragma – poemas que respiro e canto” da editora TAUP.

Poesia

Rio

Quando observo a chegada das mulheres que me moldaram entendo porque sou correnteza Elas chegam com seus panos, vassouras, baldes e histórias

Devastando tudo que não deve permanecer, limpando tudo que não brilha, mudando de lugar tudo o que não cabe e deve ser modificado

Como um rio em que se entra e pode sentir o estranhamento do gelado, mas quando sai está limpo
Elas nem sempre são sutis e dificilmente estão paradas, mas às vezes são calmaria

E depois já correm firme na direção que tem de correr, fazendo a limpeza, arrastando coisas, crianças, homens, bichos, objetos consigo
Empurrando, fazendo, andando

O movimento é o amor e uma reza, e o movimento como um deus cobra seu tributo.

E eu rezo para esse rio.

Deniza Machado

Dêniza Machado nasceu em Juiz de Fora, Minas, onde reside e trabalha. Experimenta a poesia na palavra vista e escrita, do cotidiano, entre os amores e as lavandas do quintal. Já publicou poesias em: travessias, árvores e hiatos (2020) e a árvore da casa (2023). Cria do Linhares, na rua Itália, número 119. Fez curso de datilografia e sabe que a primavera começa no inverno.

Poesia

sobre o amor

não sabia cuidar
achava que o amor era espontâneo
não precisava de trocas
mudas
replantio
meter a mão na terra
adubar
revirar
tirar tudo aquilo que mesmo vivo
não nutria a semente cultivada
achava
erroneamente
que só o amor bastaria
que ele sozinho floresceria
em frutos também
não sabia
amar é a metade do caminho
noutro trajeto há que se empenhar
e dizer cuidados
dizer cuidados
Cuidados
E fazer cuidados
Cuidados
Infinitamente
A cada novo dia

Denise Lisboa

Denise Lisboa, nasceu em 1985. É mãe, psicóloga e gateira. Paranaense, não por escolha. Escreve umas coisas quando as palavras chegam, em geral em meio ao caos.
Segue sobrevivendo exausta ao capitalismo tardio e à crise estética que nos assola.

Poesia

saudade

quando você vai embora
logo coloco a casa em ordem

(quero que ele aprenda
a ser um adulto funcional
estar em casa
sem instaurar o caos)

tenho tempo para afazeres
prazeres
mas meu coração, bagunça

prefiro o caos da correria
ao silêncio da sua ausência
baby shark em looping
às minhas playlists infinitas

minha vida é movimentada
ser mãe não resume o dia
mas apenas sua presença
é o que me faz calmaria

Daniela Camargo de Oliveira

Daniela Camargo de Oliveira é medica e escritora em formação na Escola de Escritoras de Débora Porto, com poemas e contos publicados nas coletâneas . Seu primeiro livro publicado foi MOVIMENTOS, pela Editora Minimalismos em 2024.

Poesia

ESCRITORAS

Sim já somos!
Ainda que não escutem, ainda que não leiam.
Já somos, já dizemos. Escrevemos.
Em grandes caldeirões, misturamos letras
E medos, amores, sensações,
Cozinhamos o ódio que nos mirava do alto das colinas.
Ódio que nos queimou vivas,
Enquanto nossas palavras
Sobreviviam em nossas filhas e cadernos de receitas.
E não buscávamos nada além
Da necessidade de resistirmos por nós mesmas,
Nossas existências, nossas mínimas necessidades
E por todas as outras que vieram
Já transformadas em cinzas ou não,
Já doutrinadas e envernizadas ou não,
E pelas que viriam, bruxas em seus quintais,
Com seus banhos e infusões,
Mulheres que diziam, ousadas,
Em um mundo adverso.
Mulheres que liam, falavam, ouviam e discordavam.
Mulheres que se permitiam orgasmos,
Mulheres que seriam apedrejadas,
Rebeldes, inadequadas. Mulheres libertas
E suas palavras… Sim, já somos!

Cris Otto Sa

Cris Otto Sá, poeta e autora dos livros “Das Pedras do Caminho…” e “O Sentir do Passo”, explora temas como a natureza, a jornada da vida e as relações humanas na sua escrita, além de transformar pedras em arte e poesia.

Poesia

Escreve-me Poema

Toma-me, poema;
Escreve-me,
desvencilha-me do pensar.
Arrebenta amarras e rouba-me o corpo,
a alma, os sentimentos;
queima qualquer resistência,
arrebata-me o coração.
Arranca lágrimas, sorrisos;
tira-me de mim.
Que nada seja meu;
tudo, teu.
Escreve-me, poema,
como quem escreve
o início e o fim e, no meio,
me consome com sede,
fome, desejo.
E já na exaustão,
entre dores e prazeres,
me dê à luz e me devolva
desprovida de tudo
e repleta de amor.
Escreve-me…

Cíntia Colares

Cíntia Colares (Flor de Lótus) é mulher preta cis, jornalista, poeta, coautora em coletâneas de poesia, mãe solo de um adolescente negro, mora na periferia de Porto Alegre/RS.

Poesia

Reconstruindo

Escrevo
para tentar mudar
o que recebo dessa vida.

Escrevo
porque não aceito
essa vida que insistem
em jogar em cima de mim.

Tão pesada
que estou sempre
prestes a ser soterrada.

Às vezes essa vida
me faz sumir.

Depois arremesso
esses escombros
para longe

E vou me reconstruindo
pelo caminho.

Não dá tempo de esperar cicatrizar.

Cecília Zugaib participou de diversas antologias no Brasil e na Suíça. Foi finalista no Festival de Poesia de Lisboa 2024 e fez parte do Festival Zürich liesst com a instalação da Zwischentext. Lançou os livros de poesia Fina Linha e Khalas em 2024. Atualmente, trabalha em dois livros de haiku e um de contos.

Poesia

Processo

Dizem que, para curar,
há de se chorar,
ir até o fundo, tomar impulso,
se reinventar,
voltar à tona,
receber o tempo como um abraço,
aceitar o passado,
traçar planos,
não pensar,
cultivar hábitos saudáveis,
exercitar-se, dormir muito,
estar com amigos,
meditar.

Curar é processo.
A dor pulsante
corta a alma,
marea os olhos,
seca a boca.

Curar é tempo em câmara lenta,
é silêncio incômodo
que não acha posição confortável,
é exaustão que te adormece,
o caminho necessário.

Vermelho no branco

Desolação,
se saísse,
seria um urro do abdômen
um soco na parede
o vermelho no branco
uma mordida na carne
o branco no vermelho
as lágrimas escorrendo
o vermelho invadindo o branco
o poema no papel
o vermelho – todo o vermelho –
no branco.

Catia Castilho Simon

Cátia Castilho Simon é mestre em literatura brasileira e doutora em estudos de literaturas brasileira, portuguesa e luso-africanas/UFRGS. Participou de diversas antologias, escreve mensalmente para os sites RED (Rede Estação Democracia) e Rede Sina. Tem cinco livros individuais. Integra o Mulherio das Letras/RS; vice-presidenta cultural da AGES 2023/2024.

Poesia

a grande máquina

a grande máquina vocifera
pertoequente pertoequente pertoequente

mãos manchadas
lenços ao vento

a grande máquina vocifera
retumbante
pertoequente pertoequente pertoequente

primeiro, as crianças!
trombeteia
pertoequente pertoequente pertoequente

saltam papéis
faltam sapatos

pertoequente pertoequente pertoequente
em estridentes gargalhadas
segue em frente

Carolina Ana

A escrita de Carolina Ana é uma constante busca por pertencimento, expressando incômodos e reflexões. Inspirada em questões filosóficas, espirituais, ancestrais e LGBTQIA+, ela mergulha em temas como vida, morte, amor e desejo. Com formação em comunicação e especialização em escrita criativa, sua voz singular ecoa através das palavras. @carolina.ana.oz

Poesia

Iansã & Ossaim

Ocupo espaço, mas não sei onde estou
Moro em dois lugares, mas não moro em lugar nenhum
Corro, percorro, viajo com o vento
Não sei onde quero estar
Talvez a vontade de estar em todos os lugares
Me atrapalhe em permanecer

Tenho a sede do encontro
Tenho a sede da troca, mas nem todos entendem
Na verdade, quase ninguém entende
Será que alguém já entendeu?
Ofereço a troca, mas logo vou me embora
Sem ofensas, não tente me prender

Vento não se prende
O dono desse vento mora nas florestas
Ele também prefere estar sozinho
É por isso que ele é o dono
Ele nunca tentou me prender
E eu sempre ventei ao seu lado
Mesmo sem seu pedido
Mesmo sem seu consentimento
Sempre o protegi de si mesmo
Afinal, o vento é transparente

Bia Viana

Bia Viana é escritora, jornalista e comunicadora. Autora da obra “A mulher jornalista no cinema” (2020) e coautora da antologia “Publicar é um Direito” (2023), escreve sobre comunicação, gênero e cultura. Foi delegada em evento na ONU pelos direitos das mulheres e atua internacionalmente em projetos sociais. Está nas redes como @btrzviana.

Poesia

Pronome próprio, incomum

Um dia, terei minha própria casa
Minhas próprias coisas
Meu próprio jazz, tocando em meu próprio rádio
De meu próprio gosto
Acompanhado do próprio vinho, barato
Aquele que eu mais gosto
Que a gente sempre compra em três garrafas quando vai ao mercado
Com meus próprios pés, descalços
E minhas próprias mãos, segurando duas taças
Uma de cada lado
Um tinto e um rosé, para aproveitar os dois gostos
Também podem ser duas cervejas
Tudo depende do próprio momento, claro
E vou dançar no meu próprio tapete aveludado
Debaixo de meu próprio teto
Com o volume inapropriadamente alto
Para a hora de ser eu própria
Que será, espero, toda hora
Ah, como eu quero ser própria.