Mulher

É uma amante da poesia.

Poesia

pretendo-me jatobá
percebo-me trilho
busco estação horizontina
alvorada e ocaso infinitos

pedes-me movimento
não me mexo
declamas lâminas em versos
rompo minha castanha casca
nunca estive inteira

exige-me a vida poesia
contemporânea
um eterno brotar em bambu

Zelia Puri

Zélia Puri é produtora cultural e multiartista, embaixadora da Paz pelo Cercle Universel desAmbassadeurs de la Paix, Cofundadora do Movimento de Ressurgência Puri, Membro da Associação Internacional de Poetas, do Movimento de Poetas Del Mundo e do Mulherio das Letras Indígenas, onde participou da Antologia Guerreiras da Ancestralidade, livro vencedor do JABUTI no eixo Fomento a Leitura em 2023. Através de produção de livros e textos literários, palestras, debates, oficinas, exposições e rodas de conversas, apresenta e discute sobre identidade e ancestralidade.

Poesia

OS FIOS DA MEMÓRIA

Eu não sou branca,
Eu não sou parda,
Nem negra sou
Qual é a minha cor?
Qual é a minha cor?
Eu sou da cor do bronze,
Da cor do jambo,
Da cor do amor

Cidinha da Silva

Cidinha da Silva é escritora e doutora em Difusão do Conhecimento. Autora de 22 livros, entre eles os premiados “Um Exu em Nova York” e “O mar de Manu”. Tem traduções em catalão, espanhol, francês, inglês e italiano. É cronista do jornal Rascunho. Seu livro mais recente é “Vamos falar de relações raciais? Crônicas para debater o antirracismo” (Autêntica, 2024).

Poesia

Chuva

Ontem chovi
Era chumbo
A nuvem que me matava
Chovi mágoa
Contrita
Ebó despachado na praça
Na encruza do tempo perdido
Chovi no pântano dos afogados
Mangue de dor
Sem flor que nasça
Chovi o amor guardado
Tudo é morte
Tudo é renovação
Só por chover
Amor
Vivo

Ana Gabardo

Ana Gabardo é psicanalista e pedagoga, mora em Curitiba/PR e escreve desde que se lembra de ser gente. Desde cedo, reconhece o imenso compromisso e afeto com as palavras, que para ela são um modo de sobrevivência e de embelezamento da vida. Ela alimenta cotidianamente seu blog (https://www.sonhosemergentes.com/) com escritos sobre a vida e a morte, sobre os mergulhos e as dores e, às vezes, com um pouco de humor.

Poesia

9 terça-feira

vamos desenrolar essas e outras histórias?

                                                                (tensão
                                        estômago cimentado
                                                        desde então
                                                            não como
                               e eu que achei que já vivia
                                                               a minha
                                                   melhor história
                                             ou melhor dizendo
                       a minha única história possível
                      como pode uma única pergunta
                                                abrir uma fenda?
                                                  encarei a fenda
                                                               para ver
                                            o que tinha dentro
                                                     era interesse)

Taíssa Nadai

Taíssa de Nadai é formada em direito e graduanda em letras pela UFPR. Apaixonada pela busca de caminhos interiores e oníricos às realidades hostis, sempre se mostrou bastante afeita à utilização da arte como ferramenta de mudança social. Em 2023, publicou seu primeiro livro de literatura, Restos do devaneio, pela Editora Patuá.

Poesia

Uma vontade
incessante
de sentir fome
de ser tão estrangeira
a ponto de nunca estar no devido lugar e isso ser justamente o melhor horizonte porque dessa forma me equilibro com a minha arte
a minha parte
e o que pode haver de
diferente
não me contento em fazer o mesmo alcançar os objetivos já traçados brincar de brincadeiras já conhecidas amarelinha
queimada
telefone sem fio
hoje em dia todos os telefones são sem fio
de que adianta?
Busco o não pertencimento
o único que poderá
quiçá
me lavar
me levar
à fala mais intrínseca
e universal.

Thaís Gomes

Thaís Gomes é formada em Letras Português/Espanhol, a autora/poetiza participa do selo Castelo Drácula e Revista Literata. Tem prevista a publicação de dois poemas em duas Antologias pelo selo Projeto Sombrios (“Noturnais” e “Noite dos Mortos”) e terá o soneto inédito “Pesadelos” publicado na Antologia “Viva Poesia” pela Lura Editorial.

Poesia

Poeta Morto Vivo

Nos confins da noite, num túmulo esquecido,
Dormia o poeta, pálido, desvanecido.
Tua lira silente, tua voz calada,
Como folhas secas numa estrada assombrada.
Mas a lua cheia, com seu brilho sombrio,
Beijou sua fronte, rompendo o vazio.
Nos olhos negros, uma faísca desperta,
E n’alma, que antes jazia, enfim se liberta.
Oh, Poeta Morto, renascido das sombras,
Teus lábios rubros, as palavras açoitam.
Tua poesia, feroz e imortal,
Rasga o silêncio, bruto e fatal.
E na solidão das madrugadas frias,
Tua pena escreve com sangue e fantasias.
Oh, Poeta Sombrio, és agora lenda,
Tua poesia é veneno, que a noite desvenda.
De tua lápide se ergue um clamor
De um morto vivo que escreve sem dor.
E assim, na eternidade do breu infinito,
O poeta renascido é o mais belo mito.

Terezinha Malaquias

Terezinha Malaquias, poeta, escritora e multiartista. Trabalha com diversas linguagens artísticas além do texto. Principalmente com fotografia, vídeo, performance. Pesquisa os temas ancestralidade, mulher, violência, racismo. Escreveu e publicou nove livros. Poemas, crônicas, contos e infantojuvenil. Mora na Alemanha desde 2008. @terezinhamalaquias

Poesia

MODELO VIVO

Sou eu parte integrante da sua arte.
O desenho, a pintura e a escultura se fundem
e se confundem com o meu corpo,
respiração, estado d´alma,
transformando-se assim numa coisa única:
que se toca, pega, vê, sente e gosta.

É um prazer e uma felicidade intensa
fazer parte do seu processo de criação.
O momento é único.
Por mais que se repita essa cena,
ela nunca será igual as anteriores.

No exato momento em que
eu me coloco a sua frente,
o humano deixa de existir
para dar vida ao sagrado.
Sinto uma comunhão entre nós,
quando estamos um diante do outro,
numa grande contemplação.
Suas mãos conduzidas
e guiadas por seu olho,
criatidade, talento e intuição,
fizeram nascer a arte inspirada na
cor da minha pele,
no cheiro, no silêncio,
no olhar e na quietude

Tássia Veloso

Tássia Veloso é poeta, taróloga, terapeuta energética, desabafadora e escutadora de sentimentos, experimentadora da vida. Gosta de viajar para dentro e fora de si, e de vez em quando compartilha essas jornadas com outras pessoas. Nas redes sociais, escreve no @umpoucodealma

Poesia

A parede

Eram tijolos.
Apenas tijolos empilhados sobre um livro.
Mas não eram apenas tijolos e nem somente um livro.
Cada página daquele impresso fazia envergar aquela parede.
Cada letra ali escrita fazia envergar um pouco mais a matéria.
Assim como na vida.
A palavra possui força além da substância,
move paredes.
Faz ruir tudo o que antes era concreto.
Todas as convicções caem por terra.


O verbo quando venta não faz distinção de solidez,
não quer saber se suas verdades estão construídas sobre areia ou cimento.
O verbo quando venta quer fazer de tudo pó.
Sem distinção.

Sofia Lopes

Sofia Lopes é escritora, tradutora e doutoranda em Literatura. Suas publicações incluem dois livros e participações em antologias e revistas. Seus trabalhos podem ser encontrados no Instagram @literartemis.

Poesia

Ariadne

é rubro o fio que me ata ao reflexo
fio diáfano inviolável
que reescreve o tempo
e o deita perante meus pés
entalhes, trilhas que sigo
contigo, instinto e ardor
para traçar passos outros
labirínticos,
tortuosos, nossos.

é rubro o sangue que me escorre as paredes
sangue de corpo-bicho-mulher
que verte, alma às mãos
e se desfaz, água carmim
na pele em flor de seus braços,
cálices que transbordo
e preencho, lar que habito,
que me habita
em igual medida.

arqueologia

atravessa o invisível—
mergulha em seu lago,
cruza águas incógnitas—
do frescor da alga ao
lodo mais denso—
traça trilhas com as
pontas dos dedos, resvala
as unhas sobre leitos
de diminutas contas, escava
antigos tomos—tábuas
de pedra, colheita
das profundezas—lava o
pó que se esfarela, lança-o
pela terra—semente,
areia, dispersas sobre
solo tão fértil, tão
faminto—e descobre,
com olhos de eterno
enlevo, o que ali
pode florescer.

Sandra Pinto

Sandra Pinto é carioca, arteterapeuta e poeta. Para a autora, poetizar é um ato de amor revolucionário, traz o avesso para o direito, e coloca o direito num novo lugar. Instagram – @sandrapinto.art

Poesia

Hécate

mumificada
numa fina camada de lã pardacenta
corpo inerte, mente em ebulição
viva entre meus mortos
realizei Hécate

deusa tripla
de Anatólia para o mundo
alquimista sulfúrica
a acompanhar a desintegração de corpos
e a lenta despedida das almas

resta pouco ar no casulo
resignada, aguardo.
a morte é certa,
sigo esperançando
um novo começo

o corpo, antes ávido pela vida,
agora pede pausa,
do ir e vir das partículas.
invernar, disse-me ela
germinar, sussurrou-me

nos braços de Hécate voei
pelos braços de Hécate retornarei

Fast fashion

fast fashion
moda do terceiro milênio descartável a cada estação
produzida por gente que não pode seguir “a moda”
e sonha com a próxima barca para a Europa


fast fashion
toneladas de roupas em containers giram pelo mundo
moda velha fingida de nova vira lixo no Sul Global
no Sul que sustenta o Norte

fast fashion
“roupa de homem branco morto” assim é conhecida na África
onde o mar vomita as vestes nas praias de Gana
montanhas de camisetas e jaquetas colorindo a paisagem distópica


fast fashion
com os retalhos do primeiro mundo Mama África reinventa a moda
ergue seus punhos e borda uma nova história
“basta de neocolonialismo têxtil”