Mãe

Daniela Muelas Bonafé

Escritora, artista, professora, militante dos direitos humanos, mãe, feminista. Apaixonada pela vida e pela poesia, tenho 10 livros publicados, o último é Rosas de Chumbo à venda por essa querida editora. Paulistana e sempre em movimento, gosto de experimentar e testar limites na Literatura.

Poesia

Gaza

são reféns eles dizem
no escuro não há corpo que tenha dona
a criança explode as partes voam
a testa não se lembra do carinho só voa
os dedos no bolo de aniversário voam
um dia a mãe cuidou para que ficasse limpa e forte
mas nem as roupas nem os dentes
um mar vermelho engole
e eu morta como elas faço poemas
não agradeço a deus pelos meus
é uma afronta: palavra alguma dá conta
são quarenta e dois quilômetros
quero o sono profundo de décadas
para os anos que já duram milênios
no lombo carrego também esse fardo
é pesado afundo no escombro e sangro as páginas
por favor ao menos a salvação do nome
mas não somos benditos
sentada na louça sanitária entregue e só 
meu rosto afundado entre as mãos eu já fui menina
pedimos socorro os braços se erguem 
a compaixão é uma benção
que nunca chega a galope
               [nunca chega]
relógios dinheiros fogos não param
só corações

Gaúcha, publicitária, escritora e mãe solo. Autora de dois livros infantojuvenis, dedica-se também à literatura de ficção autobiográfica. Escreve a partir da experiência, do que arde e permanece. Sua escrita é território de memória, de afeto e de coragem.

Poesia

Solo

A cidade girava — alheia ao seu ser.
Ela — estátua — atônita.
O metrô partia com seus pedaços,
e o tempo, tirano disfarçado de rotina.
Nos pés, a pressa herdada das urgências alheias.

Mãe solo. Não por ter gestado só, depois de uma relação falida,
mas por ser — dia após dia — esquecida.

Caminhava entre vozes que não a chamavam,
Queria — talvez — um toque. Um esbarrão.
Um sussurro casual que dissesse: “Eu te vi.”

Ela veste — a roupa que lhe cabe há oito anos:
sua personagem-mãe.

E há tantas… tantas Olívias por aí.
Que correm, como ela,
sem tempo de se esbarrarem.
Fortalezas ambulantes,
com trincheiras no peito.
Procurando por pertencimento.

Solo. No sentido mais humano da palavra.
Solo — entre o abismo da plenitude
e a margem da ausência.
A esperança — ainda que tênue
de reencontrar-se inteira.
Um dia. Quem sabe.