Haicaista

João de Deus Souto Filho

João de Deus Souto Filho, natural de Carolina-MA, reside em Natal-RN. Geólogo e graduado em Letras. Autor dos livros “400 Haikais para Natal”, “Tempus – Sentir, fluir, fruir”, “Percepções sobre o Caminho de Santiago de Compostela na Região da Galícia”. Participou da antologia ECOAR, editado pela Toma Aí Um Poema. Instagram: @plenoescrito

Poesia

ENAMORADO ESTAR

Sempre enamorado estar
Mesmo que em mar tenebroso
Para poder voar
Pelas asas do teu eterno amar

Sempre enamorado estar
Mesmo que sob o escaldante sol
Dos desertos que tragam tantas vidas
Para poder subir ao céu
No redemoinho que nos faz levitar

Sempre enamorado estar
No alto da montanha
Onde o rarefeito ar
Quase não nos possibilita respirar
Ou na beira do mar
De espuma e sargaços
Onde a brisa forte
Quer nos arrastar

Sempre enamorado estar
No beijo
No afago
Na sutileza do teu olhar

Sempre enamorado estar
Só de sentir o teu suave respirar…

Ivânia Rocha

Ivânia Rocha é apaixonada por livros e leitura. Professora de profissão, escritora de vocação e pesquisadora por necessidade e vontade. Autora de Páginas do sertão: recepção de leitoras sertanejas – Appris, 2023; Da varanda dos fundos – TAUP, 2024; É permitido gozar! (org.) Escola de Escritoras, 2024. Mestra e doutora em Letras.

Poesia

Paradoxo

Vejo um idoso lutando pela vida.
Vejo jovens querendo morrer;
Um postergando a partida,
Os outros teimando em adoecer.
Enquanto o primeiro não se queixa e vive a sorrir
Os últimos muito reclamam e
Só pensam em partir, sumir.
Desaparecer. De qualquer jeito:
Solidão. Drogas. Suicídio.
Querem aliviar a dor; desejam não sentir
A maneira é fugir – seja como for.
O velho se apega a tudo:
Família, dinheiro, amor.
Para os novos, resta o vazio e o absurdo
De um mundo distópico e enganador
Na ciranda da vida, não sei o que pensar
Não quero colocar mais sal na ferida
Que por si não vai cicatrizar
No embalo da subida ou descida,
Não cabe a mim julgar!

Guilherme Balarin

Guilherme Balarin mora em Pindamonhangaba, interior de São Paulo; formou-se em publicidade e propaganda; é empresário, escritor, fotógrafo amador, membro da Academia Pindamonhangabense de Letras. Autor do livro de haicais Entre Monções, publicado pela editora Toma Aí Um Poema em 2023. Instagram:@guilebalarin

Poesia

Serei, eu mesmo, o que será

Era o banco que me sentava,
era a cama que me deitava,
era o corpo que me doía,
era a alma que me benzia.
 
Era tudo ao contrário 
do contrário do inverso.
Um universo temerário.
Fui larva, fui pupa, sou disperso.
 
Livre de sonhos intranquilos,
preso em eterna metamorfose,
tropeço em cacofonias.
Assobios, gemidos e sibilos.
 
Não sou gente que já fui,
nem gente que sou que continuaria.
Nada sei do tempo que flui,
certo da saudade que sentiria.
 
Deixarei quebradas poesias preferidas,
cacos vários de pontas e cortes.
À vivência de tantas dores e vidas,
a certeza de outros amores e mortes.
Gleidston Alis

Gleidston Alis é professor, escritor, cantautor, performer e multiartista de Minas Gerais. É doutor em estudos literários pela UFMG e seus trabalhos se fundamentam na intermidialidade, na inter-relação entre discursos ou áreas do conhecimento, no deslocamento do olhar pela multiplicidade de perspectivas que suscita a cultura contemporânea.

Poesia

A porta bate atrás de mim
Tapa nas costas
Tranca à frente
Ferrolho da madeira intransponível

Será possível?
Todas as portas do mundo batentes
Impactos concomitantes
Sinfonia de Buns! Bans! e outros socos

Todas as portas fechadas
Pra tudo do lado de fora
Trancadas por dentro
Trancadas por nada
Por não há de quês

Gisela Maria Bester é escritora gaúcha radicada no Paraná e no Tocantins, mestra e doutora com estágio pós-doutoral em Direito. Vencedora do 38.º Prêmio Yoshio Takemoto de Literatura 2024 (Haicai). Autora dos livros Pinte-me de Azul (Mondru, 2023 –Troféu Capivara Reconhecimento Literário, no Prêmio Literário da Cidade de Curitiba 2024) e Sorrir, esse sacrifício (TAUP, 2024).

Poesia

ANTRÓPICO

aterrisse seu avião em uma pista cheia de mar
sufoque-se com as fumaças das queimadas
– sobrepostas sonoridades já não mais possíveis –
cegue-se com as tempestades de fuligens
tome veneno no copo d´água, outrora de vida cristalina
coma hormônios no frango de padaria
ingira antibióticos e líquidos vacinais
nas maminhas da macia carne bovina
celebre o fim das outras espécies, asas não
ria do veado dependurado, sangrando no seu gozo estéril, azar
faça pouco da onça, na beira da civilização
não se esqueça da transgenia, comendo a sua fome feia, recrute sempre sua imensa ganância
sinta calor extremo, águas espessas
compre mais aparelhos de ar-condicionado
e espere os apagões, na sua plúmbea visão
coce seu cancro de pele de ozônio de sol aberto
desafie a rotação e a bondade do planeta
extraia mais riquezas daquilo que não é seu
mate indígenas por amianto, lítio, cassiterita, ouro,
madeira e terra, espalhando ácido pranto
conte mais dinheiros e vantagens,
derrube mais árvores, mate mais e mais, nascentes, sementes,
bichos, sonhos, afetos, e não se esqueça, imutável ser,
de fazer de conta que o inferno não parte de si

Um corpo que cai

Mulher, te dei morada, mas…
essa boca humilhada
esses olhos gencianos
onde estão teus dentes?

Mulher, te dei caminho
de veias, para resvalar o sangue quente
de pernas, para levar teus sonhos ao cio
de línguas, para friccionar tuas traduções
e há glossários, para necessárias desobediências

Mulher, te dei desejos
Cordas e sons de cantar a vida úmida
Mas essa dobradiça repetindo
rangendo mecânica dor
                                    esgotada
                                               e seca
qual trapo perdido, escorregando no vazio
movimenta insana inanição

Mulher oceânica
investiga teus rastros
e tenha em ti um poema
porque um corpo que cai
é o mesmo que se levanta

Cecília Zugaib participou de diversas antologias no Brasil e na Suíça. Foi finalista no Festival de Poesia de Lisboa 2024 e fez parte do Festival Zürich liesst com a instalação da Zwischentext. Lançou os livros de poesia Fina Linha e Khalas em 2024. Atualmente, trabalha em dois livros de haiku e um de contos.

Poesia

Processo

Dizem que, para curar,
há de se chorar,
ir até o fundo, tomar impulso,
se reinventar,
voltar à tona,
receber o tempo como um abraço,
aceitar o passado,
traçar planos,
não pensar,
cultivar hábitos saudáveis,
exercitar-se, dormir muito,
estar com amigos,
meditar.

Curar é processo.
A dor pulsante
corta a alma,
marea os olhos,
seca a boca.

Curar é tempo em câmara lenta,
é silêncio incômodo
que não acha posição confortável,
é exaustão que te adormece,
o caminho necessário.

Vermelho no branco

Desolação,
se saísse,
seria um urro do abdômen
um soco na parede
o vermelho no branco
uma mordida na carne
o branco no vermelho
as lágrimas escorrendo
o vermelho invadindo o branco
o poema no papel
o vermelho – todo o vermelho –
no branco.

Catia Castilho Simon

Cátia Castilho Simon é mestre em literatura brasileira e doutora em estudos de literaturas brasileira, portuguesa e luso-africanas/UFRGS. Participou de diversas antologias, escreve mensalmente para os sites RED (Rede Estação Democracia) e Rede Sina. Tem cinco livros individuais. Integra o Mulherio das Letras/RS; vice-presidenta cultural da AGES 2023/2024.

Poesia

a grande máquina

a grande máquina vocifera
pertoequente pertoequente pertoequente

mãos manchadas
lenços ao vento

a grande máquina vocifera
retumbante
pertoequente pertoequente pertoequente

primeiro, as crianças!
trombeteia
pertoequente pertoequente pertoequente

saltam papéis
faltam sapatos

pertoequente pertoequente pertoequente
em estridentes gargalhadas
segue em frente

Carlos Roque

Arquiteto. Participou do grupo de poesia Núcleo de Convivência Literária e do Grêmio de Haicai Caminho das Águas. Em 2019 participou da coletânea 8 POETAS – POESIA AO INFINITO e disponibilizou na web o livro RIO DE POUCOS JANEIROS – VINTE E CINCO POEMAS E UMA PÁGINA EM BRANCO, dedicado à Marielle Franco. Em 2022 lançou o livro de poesia ENQUANTO O MUNDO e em 2024 pela Editora TAUP, o livro de poesia QUANDO ERA.

Poesia

GEOGRAFIA

E o que vale
             montanha
             rio
             córrego
             colina e mesa farta
             planalto
             península
             baixada
             ilha
             planície e garganta falha
             talvegue
             enseada
             baía
             golfo e barra funda
             serra
             chapada
             mar
             e atlântico
nesta terra
de muitos acidentes
mesmo quando é estreito
mesmo quando temos pouco istmo
na cava profunda da depressão
é chegar ao sul
ao ponto mais distante
e saber
que não estamos longe o bastante.

PAISAGEM TRANSVERSAL

Olha para longe
e vê         o que eu não vejo
vejo apenas um gato           negro
visto por olhos                      não negros
que não me vêm
olhando para longe        e vendo
                                                 a qualquer preço
o que eu não vejo
e espero                                 negro
que o gato se vire                 em outro
e veja 
olhos bem abertos
quem não me vê
enquanto conduz
através da janela aberta        cega de tanta luz
a esperança  verde                 de um único olhar
de qualquer cor
a me atravessar                      norte a sul
até conseguir chegar             ponto de vista e fuga
aqui e ali
aonde deveria estar
mais um pouco                      dois ou três passos
                                                  lá e além
até conseguir
enfim ao fim                           das íris negras
chegar
a bombordo de mim.
Arthur H

Baiano da Guanabara. Arthur H é comunicólogo de-formação, designer por opção (e atuação) e poeta na imaginação (gastando energia, tinta e pixels, publicando nas mais diversas frentes e versos). @nao.instantaneo no Instagram.

Poesia

Para Lennon, McCartney e Guedes

hoje as flores não se abriram
no meu caminho
as borboletas não me seguiram
segunda não é dia de poesia!?
todo dia é dia
de viver
pelo menos
assim disse Bituca
para Lennon e McCartney
para ser o que for
foi Beto quem falou