Cordelista

Natural de Ituaçu-Ba, graduando de Medicina pela UESB, contista, cordelista e poeta. No meio literário, lançou seu primeiro livro, “Ovos de Jabuti em Latas de Ferro”, de caráter incentivo e multigênero, e também é fundador do Concurso Literário Baianidades Interioranas.

Poesia

CORDEL: JUÁ & CIRIGUELA

Terezinha foi pro pasto Plantar juá e ciriguela.
Escavou a terra argilosa. Molhou com sua remela.
Semeou com pirilampos. Adubou com mel, canela.

Sua filha foi pro pasto Colher juá e ciriguela.
Catou frutinhas da grama Pra galinha magricela,
Que todinha fiapuda Devorou uma bagatela.

Sua neta foi pro pasto Comer juá e ciriguela
Correu a moleca risonha Com uma grande tigela.
Devorou caroço e talo Com o dulçor aquarela.

Mas a água fugiu do pasto. O sol escalda as costelas.
Fugiram mãe, filha, neta À grotesca cidadela.
Deixaram o juá triste, Secaram a ciriguela.

O sol alimentou a fome. A morte comeu moela.
Abandonaram folclores. A secura rachou a goela.
Ninguém mais foi pro pasto Catar juá e ciriguela.

A mãe virou faxineira. A filha ficou banguela.
A neta pegou cobreiro. Era uma vida balela.
Tinham saudades do pasto, Do juá e da ciriguela.

Valdeck Almeida de Jesus

Valdeck Almeida de Jesus é escritor e jornalista. Ativista cultural e Embaixador do Parlamento Internacional dos Escritores da Colômbia, membro fundador da União Baiana de Escritores – UBESC e do Fala Escritor (2009). Participa do grupo de pesquisa Rede ao Redor, do Instituto de Humanidades, Artes e Ciências Professor Milton Santos – IHAC/UFBA.

Poesia

As sandálias de minha mãe

Quando eu era criança
minha mãe andava descalça.

Prometi que compraria um sapato pra ela,
quando eu crescesse.

Comecei a trabalhar.
Pensei numa sandália de pneu.
Esperei melhorar de trabalho e salário.

Seria de couro
seria de cetim
seria importado
seria de cinderela

Minha mãe morreu
e não deu tempo
comprar o sapato dela.

Agora vou fazer um mausoléu
de paralelepípedo
de ardósia
não, de mármore
ou de granito…

Que tal de pedras preciosas?
Ano que vem eu farei,
quando eu for ao túmulo
levar rosas

Renato Formiga

Renato Formiga Lima, nascido em Minas Gerais, é um poeta, escritor e um cientista, que busca, na virtude e pelo porquê das coisas, a forma de expressão máxima que somente a arte e o pensar podem transmitir.

Poesia

Adeus, bela rosa

Minha rosa amiga, bela e dourada
tanto a amo que o ar do peito se esvai,
sufocado tive a felicidade roubada,
pois uma escuridão chegou e não se vai;
se me afasto e me calo é porque eu a amo
e não sei agir corretamente ao teu encanto.
Sofro do mal da tristeza e do abandono
um covarde que não teme machucar a pétala;
estou tão perdido em prantos e pensante,
não sei lidar com essa doença inquieta
que joga para o alto e depois para o abismo,
a que me aflige e me faz cair no descrer,
e que destrói a mente sã: a paixão ardente.
Minha cara, se perguntar a mim se sofro,
Direi que sofro e então direi mentiras,
Pois não posso dizer que me sinto isolado,
Que sinto que entreguei o tudo por nada
Que a amei sem ter motivos de amar,
E é por amar que me afasto de ti, amor,
Pois senti que estava procurando mais dor…
E então rosa dourada, coisa mais bela,
Serei então tolo por conjurar tal poema,
Mas minha alma arde e pede por escrever,
E em vão e mais uma vez procuro sua alma:
Com palavras espero que me entenda,
Porém sem esperanças verdadeiras…
Quando vi você correndo descalça em direção
à árvore quadricentenária na Ilha do Combú
e depois colocando as mãos espalmadas
na base da samaumeira de mais de 50 metros,
imaginei você trançando os cabelos nos galhos;
conectando-se às folhas e ao tronco igual no Avatar .

Faz 10 anos. Hoje leio os primeiros versos de um poema
que você esboçou quase em lágrimas pela manhã:
“Uma árvore virou cinza na Amazônia.
Inúmeras árvores viraram cinza na Amazônia
nos últimos anos.”

Naquele mesmo dia, coloquei meu ouvido na terra.
Disse a você que escutava o choro das árvores,
O clamor do solo sangrando, de peixes sufocados,
De muitos animais gemendo e convalescendo.

Você me disse que eu não sabia aproveitar a beleza de Gaia,
a energia da floresta, as vozes e os espíritos ancestrais.
Por isso, não lhe disse que também ouvi sons de motosserra,
De árvores crepitando, de pássaros em agonia.

“Nem tudo é tragédia”, você me repreendeu.
“Nem tudo é beleza”, pensei mas não lhe disse.

Márlon Manossi

Márlon Manossi nasceu em Ituaçu-Ba. É graduando de Medicina pela UESB, contista, ilustrador e poeta. No meio literário, lançou seu primeiro livro, “Ovos de Jabuti em Latas de Ferro”, de caráter inventivo e multigênero, e também é fundador do Concurso Literário Baianidades Interioranas.

Poesia

As Lágrimas das Pétalas Purpúreas

E junto a ti, o encanto Alvorecia.
E o mundo Alagava com sua melodia…
Acordes em oitava com Cores e cortesia:
Pequenos frutos de uma pura Magia…
Seus olhos Argutos, de um mar em Euforia,
Molhavam o alento e o peito em Eufonia…
O corpo Turbulento encontrava Harmonia
— As vagas Ternuras de uma Sintonia…
Nas Águas? Bravuras. Na Vida? Polifonia.
E junto a ti, o encanto Alvorecia…

E longe de ti, o encanto Perecia.
O mundo se Arruinava sem sua companhia…
Minh’alma Afogava e me Sucumbia:
Males Astutos, Óxida Melancolia…
Os corações Abruptos, em uma sinfonia,
Mostravam o Avarento corpo em Agonia!
E no Sofrimento, Numa mente Vazia,
Nefastas amarguras em Desarmonia…
Nas águas? Loucuras. Na Morte? Afonia.
E longe de ti, o encanto Perecia…

Ivânia Rocha

Ivânia Rocha é apaixonada por livros e leitura. Professora de profissão, escritora de vocação e pesquisadora por necessidade e vontade. Autora de Páginas do sertão: recepção de leitoras sertanejas – Appris, 2023; Da varanda dos fundos – TAUP, 2024; É permitido gozar! (org.) Escola de Escritoras, 2024. Mestra e doutora em Letras.

Poesia

Paradoxo

Vejo um idoso lutando pela vida.
Vejo jovens querendo morrer;
Um postergando a partida,
Os outros teimando em adoecer.
Enquanto o primeiro não se queixa e vive a sorrir
Os últimos muito reclamam e
Só pensam em partir, sumir.
Desaparecer. De qualquer jeito:
Solidão. Drogas. Suicídio.
Querem aliviar a dor; desejam não sentir
A maneira é fugir – seja como for.
O velho se apega a tudo:
Família, dinheiro, amor.
Para os novos, resta o vazio e o absurdo
De um mundo distópico e enganador
Na ciranda da vida, não sei o que pensar
Não quero colocar mais sal na ferida
Que por si não vai cicatrizar
No embalo da subida ou descida,
Não cabe a mim julgar!